Sandro, de repente, fechou o livro que estava lendo, algo sobre religiões pagãs, e olhou para o souvenir da torre de Piza que tinha ganhado de seu ex-namorado. Abriu um meio riso, achando meia graça naquela miniatura de torre torta. Inclinou levemente a cabeça para corrigir o erro da torre, deixou o livro de lado e tomou mais um gole de vinho. Procurou a ponta que tinha deixado no cinzeiro, reacendeu, puxou umas duas ou três vezes e continuou a fitar a torre. E ela se inclinou mais ainda. Ou foi sua cabeça que inclinou para o lado contrário. A uma altura dessa, vinho, maconha, sono, já não sabia.
Sandro tentou continuar a ler, mas as lembranças de seu ex-namorado que fora à Itália começaram a surgir e surgir e voltavam e ele já tinha mergulhado na bad trip. E começou a lembrar de como se conheceram trocando olhares na escadaria da faculdade. Sandro ainda era casado com Adriana e não entendeu porque sorriu para o desconhecido bonitinho que subia a escada e que também sorria para ele. Eles nem se conheciam e Sandro já sabia que o queria por perto o mais rápido possível. E depois ele contou a Sandro que não virou só para não dar ousadia, mas que perguntou aos amigos se sabiam quem era o de aliança na mão.
Sandro nunca traiu sua esposa e quando viu que seu pau subia agora por um rapaz decidiu separar. A onda bateu ruim de novo, sentiu-se péssimo em abandonar a mulher com quem sonhou ter filhos, até. Tomou mais um gole de vinho e deu mais um pau no baseado, que a essa altura já era quase ponta. Precisava mudar a vibe da noite. A torre se entortou mais ainda e ele já nem sabia mais se era Piza ou Eiffel. Piza, decidiu. Lembrava pizza, que lembrava Itália que lembrava seu ex. Decidiu homenagear o souvenir e resolveu matar a fome, aquela famosa fominha, com uma macarronada.
Decidiu cortar tomate, cebola, pimentão, alho, tudo isso enquanto a massa cozinhava. Chorou muito enquanto cortava o alho. Não entendeu nada pois, apesar de se parecerem, ele sabia que alho não faz chorar igual a cebola. Mas a gente sabe, Sandro, a gente, que está sem fumar nada, sabe que você morre de tesão nesse cheiro de alho. Não é bem tesão, não sei o que é pois não sou você. Mas sei que você morre de saudade desse homem, esse capeta disfarçado de homem, e que alho te faz lembrar como vocês começaram esse romance esquisito.
Sandro chorou e cortou o dedo enquanto tentava cortar pedaços de bacon para colocar no molho. Essa não era a noite de Sandro. Decidiu que ligaria para ele. E ligou:
- Alô! - aos prantos e nem conseguia abrir os olhos e sentado no chão cozinha
- Hum...
- Eu não consigo esquecer de você, inferno...
- Hum...
- Que feitiço você me rumou que eu não posso me desligar desse amor? Tem alho nele?
- Hum... - riu um pouco, mas disfarçou.
- Por mim você morria.
- Arram...
- Mas vem se despedir de mim aqui em casa antes de morrer? - desligou o telefone achando que já tinha dado ousadia suficiente para aquele babaca.
Ele não foi, mas alguém apareceu por lá meia hora depois e encontrou sangue na cozinha e o macarrão queimando no fogão. Sandro estava no banheiro lavando o rosto e o machucado. Quando viu que alguém batera a porta correu feliz ao seu encontro e viu que era Thiago, seu melhor amigo. Este, espertamente trocara o nome dele com o do tal ex na agenda do celular de Sandro para evitar esse tipo de atitude que acabaria em ressaca moral, afinal todos sabemos como é vergonhoso ligar para o ex durante embriaguez.
Thiago ligou para a pizzaria, guardou o souvenir, fez um curativo na mão de Sandro, enrolou mais um baseado e decidiu que passariam a madrugada assistindo a sitcoms juntos, falando mal dos ex, comendo besteira e sem pensar em nenhum país além-mar.
Sandro riu e esfregou bastante sabonete na mão para sair o cheiro de alho. Mas sabia que se encostasse o nariz no indicador esquerdo poderia sentir o cheiro maldito da mais gostosa paixão que já teve.
sábado, 6 de junho de 2015
quinta-feira, 16 de abril de 2015
Quase quatro da manhã
Você não tem nada a ver com isso, não me peça para te explicar nada sobre a minha vida. O que te importa se agora eu ando com a cabeça baixa? Quando foi para me dizer adeus você não fez questão de olhar em meu rosto e observar as lágrimas caindo. Desde quando você se foi que eu espero esse dia chegar, Espero te encontrar para te ouvir querer saber de mim, me dizer o quanto sente saudades... E, depois, te contar que venho até remoçando, e até canto, às vezes. Mas nada por sua conta ou por por você.
Agora que você já está sabendo o quanto fico feliz de te ver longe, faça-me o favor de não aparecer nem em meus pensamentos de vingança. Não quero macular meus dias com o desprezo que tenho por você. Espero que minha devolução de todo o sentimento ruim que você me criou esteja te alcançando e que você sinta na alma o quanto me fez sofrer, Espero também que esteja com tanta saudade de nossos dias quanto eu fiquei da vez que você me deixou e que você ache alguém que te faça sofrer de amor tanto quanto ou mais do que você me fez.
Agora que você já está sabendo o quanto fico feliz de te ver longe, faça-me o favor de não aparecer nem em meus pensamentos de vingança. Não quero macular meus dias com o desprezo que tenho por você. Espero que minha devolução de todo o sentimento ruim que você me criou esteja te alcançando e que você sinta na alma o quanto me fez sofrer, Espero também que esteja com tanta saudade de nossos dias quanto eu fiquei da vez que você me deixou e que você ache alguém que te faça sofrer de amor tanto quanto ou mais do que você me fez.
quinta-feira, 2 de abril de 2015
O melhor beijo de toda a minha vida
Lembrei do dia em que nos conhecemos, lembra? A gente estava naquela festa - chata, diga-se de passagem - da Mariana. Só ficou boa quando a Lúcia colocou Os Mutantes pra tocar, lembra? A cara de Juliano, aquele crente, quando ouviu Ave Lúcifer... Hilário!!
A gente nem tinha sido apresentados, mas começamos a conversar sobre Rita e como ela era linda. Como nós dois passaríamos por cima das nossas convicções sexuais pra uma noite de amor e LSD com ela. Que doideira, cara! Como se Rita fosse liberar pra algum de nós dois. Pior! Como se bastasse ela pra "curar" a gente. Naquele dia eu tava louco de tanto uísque na cabeça. E otras cositas más...
Acho que começou tudo ali. Sua boca e a minha tão perto uma da outra... Aquela fumaça compartilhada era como nossas almas se misturando. Não deixamos quase nada escapar. E aquele beijo com a cabeça feita...
Foi o melhor beijo que eu dei em um desconhecido em toda a minha vida.
A gente nem tinha sido apresentados, mas começamos a conversar sobre Rita e como ela era linda. Como nós dois passaríamos por cima das nossas convicções sexuais pra uma noite de amor e LSD com ela. Que doideira, cara! Como se Rita fosse liberar pra algum de nós dois. Pior! Como se bastasse ela pra "curar" a gente. Naquele dia eu tava louco de tanto uísque na cabeça. E otras cositas más...
Acho que começou tudo ali. Sua boca e a minha tão perto uma da outra... Aquela fumaça compartilhada era como nossas almas se misturando. Não deixamos quase nada escapar. E aquele beijo com a cabeça feita...
Foi o melhor beijo que eu dei em um desconhecido em toda a minha vida.
segunda-feira, 2 de março de 2015
Eu vou ficar bem (ou Manda notícias)
Sabe, naquela manhã que você me deixou, eu achei que morreria. Foi doloroso pra caralho assistir a você arrumar as malas, uma por uma, em silêncio. Nossa, cada camisa que você colocava na sacola era uma ferida aberta em meu peito. Você não faz ideia de como eu me rasguei por dentro. O zíper se fechando era como uma navalha rasgando a minha pele. As lágrimas escorrendo em meu rosto eram como uma sangria de um novilho. Eu morri mais de trinta e duas vezes naquela manhã. E não tive sequer um olhar de piedade. Eu quis sua piedade, cara.
Eu não dormi durante três dias. Eu precisei ligar pra meus melhores amigos. Eu não tinha forças pra levantar da cama. Sabe aquela sua corrente, que eu mesmo dei de presente no verão que passamos em Búzios? Eu desejei que ela fosse uma corda e, assim, eu poderia dar cabo de minha vida com um pedaço seu. Eu a escondi achando que você, ao menos, voltaria pra tomá-la de mim. Mas você parece ter desistido dela, da mesma forma que desistiu de nós.
Ainda não entendo por que você se foi. Será que um dia teremos a chance de conversar sobre isso? A cada manhã eu imagino que ainda acordarei de seu lado, mas, porra, você não tá lá, caralho!
Sonhei com você, dia desses. Você morria em um acidente de moto. Eu acordei aos prantos, mas confesso, me sentia aliviado, no sonho, por saber que meu sofrimento teria acabado pra sempre. Prefiro que você morra a saber que você consegue ser feliz sem mim. Não sei se posso te esquecer. Não sei sequer se eu consigo imaginar a minha vida sem você, mas sei que prefiro que você esteja morto a imaginar que me deixou porque era infeliz.
Entendi, agora. Eu nunca te fiz feliz. É isso. Eu errei o tempo inteiro, meu Deus. Eu quero te pedir desculpas, eu posso ser diferente. Deixa eu te provar que posso mudar. Preciso de você ao meu lado.
À merda essa porra de carta do inferno. Eu não quero que você volte. Eu vou ficar bem.
Por favor, manda notícias.
Eu não dormi durante três dias. Eu precisei ligar pra meus melhores amigos. Eu não tinha forças pra levantar da cama. Sabe aquela sua corrente, que eu mesmo dei de presente no verão que passamos em Búzios? Eu desejei que ela fosse uma corda e, assim, eu poderia dar cabo de minha vida com um pedaço seu. Eu a escondi achando que você, ao menos, voltaria pra tomá-la de mim. Mas você parece ter desistido dela, da mesma forma que desistiu de nós.
Ainda não entendo por que você se foi. Será que um dia teremos a chance de conversar sobre isso? A cada manhã eu imagino que ainda acordarei de seu lado, mas, porra, você não tá lá, caralho!
Sonhei com você, dia desses. Você morria em um acidente de moto. Eu acordei aos prantos, mas confesso, me sentia aliviado, no sonho, por saber que meu sofrimento teria acabado pra sempre. Prefiro que você morra a saber que você consegue ser feliz sem mim. Não sei se posso te esquecer. Não sei sequer se eu consigo imaginar a minha vida sem você, mas sei que prefiro que você esteja morto a imaginar que me deixou porque era infeliz.
Entendi, agora. Eu nunca te fiz feliz. É isso. Eu errei o tempo inteiro, meu Deus. Eu quero te pedir desculpas, eu posso ser diferente. Deixa eu te provar que posso mudar. Preciso de você ao meu lado.
À merda essa porra de carta do inferno. Eu não quero que você volte. Eu vou ficar bem.
Por favor, manda notícias.
sábado, 7 de fevereiro de 2015
Segue em construção
Aquele que tem um arco e flecha nas mãos mirou certeiro e profundo bem no peito do animal mais pesado que podia ver. Da melhor maneira possível, fez questão de marcar o peito do animal com a seta que indica sua propriedade. Mas o fez de forma oculta, para que ninguém soubesse. Dizem as boas línguas que essa é uma boa marca. E dizem as más que a marca só aumenta o desejo de outros pela carne. Dito ou não dito, o animal e o seu algoz não eram parte de nenhuma realidade. E desapareceram, como um sonho de uma noite de verão qualquer.
segunda-feira, 17 de novembro de 2014
para meu amigo pablo
lembro de você escrevendo durante a madrugada. aqueles textos com cara de seu. eram meus preferidos. quando quero sorrir, fecho os olhos e me coloco a pensar em você, sentado à mesa com seu laptop. a tevê ligada, mas nem eu nem você prestávamos atenção. enquanto eu via um pornô, você escrevia sem parar, sem olhar para o lado, alternando as frases com as conversas de sua namorada. e eu, depois de um baseado, só ria de sua cara compenetrada tentando assistir a aquele desenho do cachorro amarelo. eu procurando o que comer na geladeira cheia de água mineral, comida pronta, verduras cruas e um pote de maionese. e você rindo de mim, paloso como nunca, achando incrível que seu primo tinha chegado lá em casa depois das duas da manhã, bêbado e desempregado. velho, durou apenas três meses. mas parece que éramos irmãos de vidas passadas. sumimos aos poucos, como naquela fotografia do filme de volta para o futuro. e no dia 31 de agosto eu também arrumei as minhas malas. já não éramos mais seis.
quarta-feira, 5 de novembro de 2014
Depois daquela noite no teatro ( ou Antes de você decidir enviar a carta)
Depois de nos encontrarmos uma, duas, três, quatrocentos e setenta e nove vezes, me dei conta de que não sentia mais por você a mesma coisa que senti da primeira vez que vi seus olhos brilharem para mim.
É como se eu soubesse que seu corpo, que já passou pelo meu muito mais que quinhentas e noventa e duas vezes, não me dá o mesmo tesão.
Acho que a culpa foi sua, pois depois que te beijei, você virou para mim e disse que não poderíamos ficar juntos, porque você tinha outra pessoa. Mesmo estando essa outra pessoa agora a mais de oito mil e cinquenta e cinco quilômetros de distância, espero que vocês passem bem.
E espero que estejam sofrendo de saudade. Ou de desamor.
É como se eu soubesse que seu corpo, que já passou pelo meu muito mais que quinhentas e noventa e duas vezes, não me dá o mesmo tesão.
Acho que a culpa foi sua, pois depois que te beijei, você virou para mim e disse que não poderíamos ficar juntos, porque você tinha outra pessoa. Mesmo estando essa outra pessoa agora a mais de oito mil e cinquenta e cinco quilômetros de distância, espero que vocês passem bem.
E espero que estejam sofrendo de saudade. Ou de desamor.
quarta-feira, 29 de outubro de 2014
madrugada
estamos deitados e essa cama me parece pequena demais para nós dois. levanto no meio da madrugada com calor. a energia tinha acabado na rua inteira. até no quarteirão das flores.
levanto da cama ainda sem roupa. meus óculos estão no criado mudo amarelo. um que comprei de um amigo, quando da mudança dele para brasília.
olho pela janela e começo a lembrar de todas as minhas paixões. uma a uma, elas vêm como se eu nunca as tivesse esquecido. uma a uma.
são meninas, mulheres, rapazes. todas avassaladoras, como precisam ser as paixões. avassaladoras e sem cura.
acendo um cigarro, enquanto olho para você deitado na cama. é um sonho. um sonho meu estar te olhando sem roupa, tão perto, depois de desejar presenciar essa cena por tanto tempo.
a fumaça do cigarro embaça a cena e me faz levar você para o tempo em que era apenas um desejo. eu prometia nunca me render a ele, já que você era um rapaz sério, noivo, quase casado.
morria sempre que seu sorriso encontrava meus olhos e o seu perfume... e o seu perfume invadia meu corpo como um relaxante, um desses que a gente inala para poder ficar bem.
morria de tesão, mesmo, toda vez que você fazia questão de me abraçar e de me contar segredos que nem existiam, ao pé do ouvido, sussurrando. provocando meus mais sujos e excitantes pensamentos.
mas hoje, ao olhar você na cama, a sensação de dever cumprido e de caça abatida me toca. é como se seu corpo ali fosse a cabeça de um alce na parede. é meu. é meu?
não é meu, eu sei. ainda é de outra pessoa que, dessa vez, eu ignorei completamente.
acabo o cigarro, vou à sala tomar um gole de água. a energia volta. tomo também um dedo de uísque. ligo o ar condicionado, tomo um cobertor.
beijo sua bunda suas costas, seu pescoço, sua boca, te cubro e volto a deitar.
fecho o olho e mentalizo um mantra: "não é meu". é mais fácil pegar no sono assim. é mais fácil não me apegar a você assim.
levanto da cama ainda sem roupa. meus óculos estão no criado mudo amarelo. um que comprei de um amigo, quando da mudança dele para brasília.
olho pela janela e começo a lembrar de todas as minhas paixões. uma a uma, elas vêm como se eu nunca as tivesse esquecido. uma a uma.
são meninas, mulheres, rapazes. todas avassaladoras, como precisam ser as paixões. avassaladoras e sem cura.
acendo um cigarro, enquanto olho para você deitado na cama. é um sonho. um sonho meu estar te olhando sem roupa, tão perto, depois de desejar presenciar essa cena por tanto tempo.
a fumaça do cigarro embaça a cena e me faz levar você para o tempo em que era apenas um desejo. eu prometia nunca me render a ele, já que você era um rapaz sério, noivo, quase casado.
morria sempre que seu sorriso encontrava meus olhos e o seu perfume... e o seu perfume invadia meu corpo como um relaxante, um desses que a gente inala para poder ficar bem.
morria de tesão, mesmo, toda vez que você fazia questão de me abraçar e de me contar segredos que nem existiam, ao pé do ouvido, sussurrando. provocando meus mais sujos e excitantes pensamentos.
mas hoje, ao olhar você na cama, a sensação de dever cumprido e de caça abatida me toca. é como se seu corpo ali fosse a cabeça de um alce na parede. é meu. é meu?
não é meu, eu sei. ainda é de outra pessoa que, dessa vez, eu ignorei completamente.
acabo o cigarro, vou à sala tomar um gole de água. a energia volta. tomo também um dedo de uísque. ligo o ar condicionado, tomo um cobertor.
beijo sua bunda suas costas, seu pescoço, sua boca, te cubro e volto a deitar.
fecho o olho e mentalizo um mantra: "não é meu". é mais fácil pegar no sono assim. é mais fácil não me apegar a você assim.
terça-feira, 16 de setembro de 2014
Carta de Paulo a Tiago
Oi, Tiago,
Nossa! Hoje, depois que cheguei do trabalho, depois que passei no mercado, depois que dei comida pra Lica, depois disso tudo, lembrei que fazem seis meses desde que você se foi. Ou melhor, que eu me fui.
Aquele dia ainda está em minha cabeça como se tivesse acontecido ontem. Palavra por palavra que trocamos, seu rosto encharcado. O meu também. Nossas lágrimas molhando o chão. Pior dia da minha vida.
Em segundo lugar vem o dia em que descobri sua traição.
Eu realmente achei que ficaríamos juntos para sempre. Até prometi nem levar adiante esse seu deslize. Afinal, acontece sempre com os melhores casais. O nosso não seria isento.
Ainda ontem conversava com uma amiga, Clara, você deve lembrar dela. Ela me perguntou se existia chance de voltar a ficarmos juntos. "O mundo ainda está desequilibrado, você não sente essa energia ?", me perguntava, como se todos os males do mundo fossem por culpa do fim de nosso namoro.
Não, não há como voltarmos. Nem que eu queira. Nossas almas, de tão livres que ficaram, tomaram rumos diferentes. Te encontro e nem te reconheço, às vezes. É pior que isso. Reconheço um não que nunca desejei que fôssemos. E procuro o sim que se esconde atrás de seus olhos, mesmo esquecendo que os meus olhos estão fechados.
Vou mandar a conta do veterinário, como você pediu, apesar de achar que não precisa. Manda um beijo para sua mãe.
Comamor carinho,
Paulo
P.S.: Espero não ter mais que recorrer a cartas para falar qualquer profundidade.
Nossa! Hoje, depois que cheguei do trabalho, depois que passei no mercado, depois que dei comida pra Lica, depois disso tudo, lembrei que fazem seis meses desde que você se foi. Ou melhor, que eu me fui.
Aquele dia ainda está em minha cabeça como se tivesse acontecido ontem. Palavra por palavra que trocamos, seu rosto encharcado. O meu também. Nossas lágrimas molhando o chão. Pior dia da minha vida.
Em segundo lugar vem o dia em que descobri sua traição.
Eu realmente achei que ficaríamos juntos para sempre. Até prometi nem levar adiante esse seu deslize. Afinal, acontece sempre com os melhores casais. O nosso não seria isento.
Ainda ontem conversava com uma amiga, Clara, você deve lembrar dela. Ela me perguntou se existia chance de voltar a ficarmos juntos. "O mundo ainda está desequilibrado, você não sente essa energia ?", me perguntava, como se todos os males do mundo fossem por culpa do fim de nosso namoro.
Não, não há como voltarmos. Nem que eu queira. Nossas almas, de tão livres que ficaram, tomaram rumos diferentes. Te encontro e nem te reconheço, às vezes. É pior que isso. Reconheço um não que nunca desejei que fôssemos. E procuro o sim que se esconde atrás de seus olhos, mesmo esquecendo que os meus olhos estão fechados.
Vou mandar a conta do veterinário, como você pediu, apesar de achar que não precisa. Manda um beijo para sua mãe.
Com
Paulo
P.S.: Espero não ter mais que recorrer a cartas para falar qualquer profundidade.
quarta-feira, 18 de junho de 2014
Estaremos de pé
Por Cristo, jurou que não mais se atreveria a olhar as mensagens no celular. E prometeu que seria a última vez. Ia apagando uma por uma e, como se cada uma fosse um pedaço seu que se ia, derramava lágrimas mudas. Até não haver mais uma palavra sequer que pudesse trazer à lembrança todos os dias tão azuis. E não aconteceu como desejou.
Não pôde conter o desespero que teve ao se dar conta que até as lembranças boas não existiam mais. Ao que recorreria quando quisesse lembrar o cheiro de pós-barba que sentia toda manhã ao levantar da cama e beijar o pescoço de Ricardo? O que faria se sentisse vontade de tomar o café com menta de Ricardo, que só ele parecia saber fazer?
As lágrimas agora vinham acompanhadas de pequenos soluços e uma feição de tristeza profunda. Correu para o armário, na esperança de encontrar algum casaco dele guardado. Mas lembrou no mesmo momento que já havia enviado todas as roupas junto com as cartas e as lembrancinhas da viagem que fizeram juntos à Bolívia. Definitivamente não queria lembrar que ele existia. Mas adoraria encontrar de novo a toalha sempre molhada em cima da cama.
Agora os soluços, antes finos, se tornavam mais graves e seus olhos não podiam mais sustentar qualquer lágrima que lhe chegasse. Calou. Deitou na cama e ocupou apenas o lado que costumava ser seu, enquanto imaginava que Ricardo, a qualquer momento, atravessaria a porta, jogaria o palitó numa poltrona à esquerda da cama e deitaria por cima dele dizendo que estava morrendo de saudades.
Então, sairiam abraçados e tomariam chá juntos. Ricardo acenderia um cigarro e ficaria olhando os carros pela janela. Ele encostaria e fariam planos para o futuro. Não mais fariam. Era hora de abrir os olhos. Assim Gil fez.
Enxugou as lágrimas com a fronha do travesseiro, foi ao álbum de fotografias, tomou nas mãos uma tesoura e voltou a destruir as lembranças. Não podia esperar mais nada de Ricardo. Sua vida já estava plena ao lado de outro alguém.
E ele precisava recomeçar também.
Não pôde conter o desespero que teve ao se dar conta que até as lembranças boas não existiam mais. Ao que recorreria quando quisesse lembrar o cheiro de pós-barba que sentia toda manhã ao levantar da cama e beijar o pescoço de Ricardo? O que faria se sentisse vontade de tomar o café com menta de Ricardo, que só ele parecia saber fazer?
As lágrimas agora vinham acompanhadas de pequenos soluços e uma feição de tristeza profunda. Correu para o armário, na esperança de encontrar algum casaco dele guardado. Mas lembrou no mesmo momento que já havia enviado todas as roupas junto com as cartas e as lembrancinhas da viagem que fizeram juntos à Bolívia. Definitivamente não queria lembrar que ele existia. Mas adoraria encontrar de novo a toalha sempre molhada em cima da cama.
Agora os soluços, antes finos, se tornavam mais graves e seus olhos não podiam mais sustentar qualquer lágrima que lhe chegasse. Calou. Deitou na cama e ocupou apenas o lado que costumava ser seu, enquanto imaginava que Ricardo, a qualquer momento, atravessaria a porta, jogaria o palitó numa poltrona à esquerda da cama e deitaria por cima dele dizendo que estava morrendo de saudades.
Então, sairiam abraçados e tomariam chá juntos. Ricardo acenderia um cigarro e ficaria olhando os carros pela janela. Ele encostaria e fariam planos para o futuro. Não mais fariam. Era hora de abrir os olhos. Assim Gil fez.
Enxugou as lágrimas com a fronha do travesseiro, foi ao álbum de fotografias, tomou nas mãos uma tesoura e voltou a destruir as lembranças. Não podia esperar mais nada de Ricardo. Sua vida já estava plena ao lado de outro alguém.
E ele precisava recomeçar também.
Chá com sequilhos (ou Penúltima Carta de Amor)
Sinto que esses dias são dias bons para sair de casa e ver como a vida vai dar conta das coisas que você sempre duvidou que fossem dar certo.
Tudo porque as coisas tem dado certo sem que eu questione ou peça a deus. O mais legal é agradecer.
Uma pena que você não esteja por perto para ver que eu estou sorrindo novamente.
Manda um beijo para sua mãe e diz que um dia passo por aí para tomar aquele chá com sequilhos.
Tudo porque as coisas tem dado certo sem que eu questione ou peça a deus. O mais legal é agradecer.
Uma pena que você não esteja por perto para ver que eu estou sorrindo novamente.
Manda um beijo para sua mãe e diz que um dia passo por aí para tomar aquele chá com sequilhos.
Beijos,
David Luiz
P.S.: Ontem eu saí com um cara que conheci na festa de um colega do trabalho. Acho que vamos nos ver novamente no fim de semana. Achei que você devia saber. Desculpe se exagerei na informação
quinta-feira, 5 de junho de 2014
Não há mais estrada (ou Não tenho certeza se é sonho ou realidade)
Acordei lembrando daquela viagem. A última que fizemos juntos, antes do acidente de moto. Tava lembrando da gente quase deitado naquelas poltronas reclináveis do ônibus. Lembra que pegamos o primeiro que encontramos na rodoviária sem sequer saber aonde ele ia? E eu, rezando por dentro pra que a viagem demorasse tempo suficiente pra eu cansar de ficar de teu lado. A gente viajou durante três dias e eu queria mais.
Mas que loucura, aquilo! Será que a gente teria a mesma coragem, hoje em dia? Nunca vou me esquecer de nossas risadas no meio da madrugada tapando a boca um do outro, pra não acordar ninguém. Ou de nosso sexo, que foi quase um contorcionismo, na tentativa de não fazer as pessoas perceberem nada. E aquele tiozinho da poltrona do lado ainda acordou...
Acho que foi a viagem mais longa que já fiz. Mas os três dias pareceram minutos, quase segundos... Eu faria tudo novamente. Até as mesmas fotografias. Pois é, eu que reclamava a cada foto que você queria fazer, eu faria todas de novo e de novo e de novo. Só pra ter você por perto. Seu cheiro de perfume vagabundo comprado na beira da estrada porque esqueceu o desodorante em casa. Nossa, que coisa horrenda era aquilo.
Mas veja no que me tornei. Um saudosista notívago. Quase um vampiro, sugando o pouco de felicidade que ainda resta das pessoas ao redor. Na verdade, estou no meio de uma festa sem graça, nesse exato momento. Com muita pouca paciência pro João Alfredo, o Augusto e o George, que passaram a noite inteira cheirando. Sem saco algum pra aturar as risadas altas e desnecessárias de Mirela e os baseados que ela fumou. Acho que estou um pouco bêbado e só queria ficar no meu canto, com as cabras.
Colocaram o Transa pra tocar e tá na faixa 4. A sua música preferida. Eu vou vomitar a batata frita que comi no jantar. Mentira. A quem eu quero enganar. Todo mundo aqui sabe que eu me tranquei no banheiro pra chorar. Eu ainda não aprendi a lidar com sua falta. E não consigo passar por aquela curva. Era pra eu estar sem capacete. Me arrependo tanto de ter te permitido me convencer a usar, enquanto o experiente e destemido você viajava sem. Eu devia ter evitado.
Estão batendo na porta do banheiro, devem estar com medo que eu me mate. Por mais que minha vontade seja estar contigo nesse momento, eu não sou tão corajoso assim. Mesmo que os remédios de Sara estejam no armário e a tentação seja uma forte aliada do álcool...
Eu preciso saber viver sem você. Não sei ainda quando vou conseguir.
Mas que loucura, aquilo! Será que a gente teria a mesma coragem, hoje em dia? Nunca vou me esquecer de nossas risadas no meio da madrugada tapando a boca um do outro, pra não acordar ninguém. Ou de nosso sexo, que foi quase um contorcionismo, na tentativa de não fazer as pessoas perceberem nada. E aquele tiozinho da poltrona do lado ainda acordou...
Acho que foi a viagem mais longa que já fiz. Mas os três dias pareceram minutos, quase segundos... Eu faria tudo novamente. Até as mesmas fotografias. Pois é, eu que reclamava a cada foto que você queria fazer, eu faria todas de novo e de novo e de novo. Só pra ter você por perto. Seu cheiro de perfume vagabundo comprado na beira da estrada porque esqueceu o desodorante em casa. Nossa, que coisa horrenda era aquilo.
Mas veja no que me tornei. Um saudosista notívago. Quase um vampiro, sugando o pouco de felicidade que ainda resta das pessoas ao redor. Na verdade, estou no meio de uma festa sem graça, nesse exato momento. Com muita pouca paciência pro João Alfredo, o Augusto e o George, que passaram a noite inteira cheirando. Sem saco algum pra aturar as risadas altas e desnecessárias de Mirela e os baseados que ela fumou. Acho que estou um pouco bêbado e só queria ficar no meu canto, com as cabras.
Colocaram o Transa pra tocar e tá na faixa 4. A sua música preferida. Eu vou vomitar a batata frita que comi no jantar. Mentira. A quem eu quero enganar. Todo mundo aqui sabe que eu me tranquei no banheiro pra chorar. Eu ainda não aprendi a lidar com sua falta. E não consigo passar por aquela curva. Era pra eu estar sem capacete. Me arrependo tanto de ter te permitido me convencer a usar, enquanto o experiente e destemido você viajava sem. Eu devia ter evitado.
Estão batendo na porta do banheiro, devem estar com medo que eu me mate. Por mais que minha vontade seja estar contigo nesse momento, eu não sou tão corajoso assim. Mesmo que os remédios de Sara estejam no armário e a tentação seja uma forte aliada do álcool...
Eu preciso saber viver sem você. Não sei ainda quando vou conseguir.
sexta-feira, 30 de maio de 2014
I cried for you on a kitchen floor
Essa noite, lembrei de você. Funcionava como o amanhecer e o sol entre as nuvens de agosto pintava de luz os pontos mais escuros de sua rua. E eu, apaixonadamente, ridiculamente, suspirava ao sentir a brisa de seu perfume cruzar a esquina. Pra te ver cantar em outros palcos.
sexta-feira, 16 de maio de 2014
O amor em tempos de cozinha
Fica difícil pra mim, viver em um mundo em que não posso tocar você. É difícil pensar que estamos tão distantes um do outro e que nossas vidas ainda estejam ligadas. Mas que diabo de querer é esse que não se desfaz? Que inferno!
Queria eu poder estar nesse mundo vadiando e fazendo todas as loucuras que sempre sonhei fazer. Queria mesmo estar me metendo em festas e sair sem lembrar o nome das pessoas que eu beijei. Mas todas elas só tem um nome: o seu.
O que tinha naqueles sucos que tomei nas tardes que passei em tua casa. O que tinha naquele doce que tomamos juntos? O que tinha naquela cebola que cortamos juntos na pia?
Lembro cada canto de sua casa, como um pedaço de um conto erótico. Deve ter um pouco de amor em cada cômodo. Tem um pouco de amor teu em mim.
Tem você em cada canto meu. Inclusive quando não canto.
Queria eu poder estar nesse mundo vadiando e fazendo todas as loucuras que sempre sonhei fazer. Queria mesmo estar me metendo em festas e sair sem lembrar o nome das pessoas que eu beijei. Mas todas elas só tem um nome: o seu.
O que tinha naqueles sucos que tomei nas tardes que passei em tua casa. O que tinha naquele doce que tomamos juntos? O que tinha naquela cebola que cortamos juntos na pia?
Lembro cada canto de sua casa, como um pedaço de um conto erótico. Deve ter um pouco de amor em cada cômodo. Tem um pouco de amor teu em mim.
Tem você em cada canto meu. Inclusive quando não canto.
domingo, 27 de abril de 2014
mas o sol sempre surpreende
há quanto tempo não sento para escrever nada pra você. até me senti estranho quando me bateu a vontade, inspiração. sei lá como você gosta de chamar essas coisas ridículas que te escrevo de vez em quando.
estava sentado na varanda, fumando o último cigarro do maço. acredita que eu não comprei mais nenhum? mas sim, fumava o derradeiro quando lembrei de quê? adivinha? de você mandando eu não esquecer de comprar cigarros antes de sairmos para a festa de casamento do alex e da mônica.
eles se separaram, você soube? alex me ligou outro dia, me chamando para ajudar na mudança. quando cheguei na casa dos dois, só ele ia se mudar. foi morar em um apartamento pequeno na barra. coitado. ele sempre odiou a barra, sempre disse que ali não é bairro, é lugar pra refugiado. rs. está indignado, mas tá pagando bem mais barato do que pagaria aqui na zona sul. os preços dos apartamentos aqui estão pela hora da morte.
até ofereci nosso outro quarto para ele, mas ele disse que não se sentiria à vontade morando comigo. disse que eu precisava de privacidade para minhas pegações e ele também. mal sabe ele que, desde que nos separamos, não fiquei com ninguém.
eu sei que você já. não me importa e nem é sobre isso que quero falar.
até ofereci nosso outro quarto para ele, mas ele disse que não se sentiria à vontade morando comigo. disse que eu precisava de privacidade para minhas pegações e ele também. mal sabe ele que, desde que nos separamos, não fiquei com ninguém.
eu sei que você já. não me importa e nem é sobre isso que quero falar.
hoje eu comprei uma garrafa daquela cerveja com banana que você me mostrou uma vez. comprei receoso e com raiva. ela não é muito barata. e você sabe que eu odeio gastar grana à toa. mas, olha, ela não é muito ruim. é até gostosinha.
comprei uma dessa cerveja e comprei uma garrafa de vinho barato. sequei a garrafa ouvindo aquele vinil de gal. sabe aquele que a gente comprou junto naquela barraquinha na cinelândia? nossa, aquele álbum é lindo. você também.
perdoe minhas bobagens. controlar-me-ei. rs.
estou tão bêbado que estou usando mesóclise. há quanto tempo não uso mesóclise? rs. usei uma vez num joguinho contigo. lembro que você disse que mesóclise era um pouco sedutor. "penetrar-te-ei com meu pau", foi o que disse. agora me parece uma incrível bobagem. na hora também me pareceu. mas funcionou. rs.
estou tão bêbado que estou usando mesóclise. há quanto tempo não uso mesóclise? rs. usei uma vez num joguinho contigo. lembro que você disse que mesóclise era um pouco sedutor. "penetrar-te-ei com meu pau", foi o que disse. agora me parece uma incrível bobagem. na hora também me pareceu. mas funcionou. rs.
alex me disse que você estava querendo passar uns tempos fora do país. queria saber antes de você ir, para onde vai. sinto saudade de ser a pessoa para quem suas novidades sempre escorriam. aliás, antes de tudo, não tenho contado as minhas porque não as tenho.
...
carlos, eu preciso saber de você. quando tiver um tempo, manda um sms.
agora vou tomar um sorvete na lanchonete. os meninos vão passar aqui em casa pra vermos o pôr-do-sol no arpoador. talvez a gente ainda saia hoje. eles querem ir na cine ideal. não sei se vou. chapei demais durante o dia pra suportar uma noitada. nos falamos depois.
carlos, eu preciso saber de você. quando tiver um tempo, manda um sms.
agora vou tomar um sorvete na lanchonete. os meninos vão passar aqui em casa pra vermos o pôr-do-sol no arpoador. talvez a gente ainda saia hoje. eles querem ir na cine ideal. não sei se vou. chapei demais durante o dia pra suportar uma noitada. nos falamos depois.
sexta-feira, 25 de abril de 2014
sábado, 5 de abril de 2014
Pieguices
Andei cansado nos últimos dias. Comecei a escrever vários textos em terceira pessoa, mas não era eu. Daí abri e fechei o computador diversas vezes. Depois de muitos copos de uísque, durante toda a semana, muitos cigarros e noites em claro, resolvi que nunca mais escreveria.
Na verdade, estou farto de escrever sobre esses sentimentos ruins e pensei que poderia começar a escrever sobre algo alegre, algo que melhorasse o humor e que não soasse piegas. Talvez um texto fantástico, com duendes e magos e monstros subjugados a um bruxo malvado querendo dominar todo o mundo mágico e não-mágico. Desses textos que são sucesso na internet e nos livros e viram filmes e viram séries de TV e empolgam adolescentes.
Decidi que não. E então, escolhi escrever sobre mim mesmo. Contar minha vida em primeira pessoa, minhas histórias, como uma biografia, mesmo que eu seja ainda jovem.
Mas preferi não, também. Andei meio sem coisas pra dizer e decidi me calar. Amor, a falta de você é tão absoluta que o silêncio teu em minha vida faz minha mente esvaziar. Volta pra mim antes que eu emudeça finalmente, antes que não me reste nem sequer um 'eu te amo'.
Na verdade, estou farto de escrever sobre esses sentimentos ruins e pensei que poderia começar a escrever sobre algo alegre, algo que melhorasse o humor e que não soasse piegas. Talvez um texto fantástico, com duendes e magos e monstros subjugados a um bruxo malvado querendo dominar todo o mundo mágico e não-mágico. Desses textos que são sucesso na internet e nos livros e viram filmes e viram séries de TV e empolgam adolescentes.
Decidi que não. E então, escolhi escrever sobre mim mesmo. Contar minha vida em primeira pessoa, minhas histórias, como uma biografia, mesmo que eu seja ainda jovem.
Mas preferi não, também. Andei meio sem coisas pra dizer e decidi me calar. Amor, a falta de você é tão absoluta que o silêncio teu em minha vida faz minha mente esvaziar. Volta pra mim antes que eu emudeça finalmente, antes que não me reste nem sequer um 'eu te amo'.
domingo, 23 de março de 2014
Nada de Oscar
Lembrei do Scorsese que não vimos juntos no cinema e, de repente, lembrei que não estamos mais juntos. Mas quê? Não era um pacto de eternidade? Ouvi dizer que ele sequer esperou que as coisas se equilibrassem e já está rodando um novo filme. Talvez eu pare de ver os filmes que ele lança só pela falta de educação em me lembrar que toda história de amor tem um fim.
quarta-feira, 5 de março de 2014
De uma lembrança...
Eu esqueci como era teu sorriso. Ontem, chorei por mais de meia hora só por ter esquecido também o jeito que você me falava "boa noite". Eu não consegui sequer lembrar em qual posição você dormia e me aconchegava em teu corpo. Não lembrei se suas pernas iam por cima das minhas ou o contrário. E isso me fez lembrar que eu reclamava quando não conseguíamos o encaixe perfeito de nossos dedos dos pés. Um centímetro a menos e um frio assombroso quase congelava nossos pés.
Nossa! Esqueci também se você tomava café com duas ou três colheres de açúcar. A proporção de leite no teu copo eu ainda posso recordar. Quatro pra um. Risos. Outro dia, coloquei um pouco de leite em tua caneca para mim, a fim de ver se teu gosto ainda estaria lá, de alguma forma. Não estava, claro. Quem tomou todo o leite foi o Chico, que ainda procura teu colo todos os dias, a partir das 20 horas, em frente à nossa TV, na poltrona que era de meu avô e que você insistia em manter em casa, no meio daqueles móveis retilíneos.
A decoração da sala continua desequilibrada por conta da poltrona, mas eu decidi manter depois que você nos deixou. É uma cama para Chico e um dos meus jeitos de te fazer presente naquela casa. Ela continua lá, no mesmo canto onde você deixou quando a gente se mudou para este apartamento. A TV também está no mesmo lugar. Mesmo depois de assistir a todos os canais possíveis, prefiro deixar ela desligada sempre naquele canal que você adorava. É outro jeito de te manter perto. Ligar o aparelho e, de repente, ouvir a voz no noticiário é como olhar a poltrona e ainda te encontrar sentado, meio de lado, tomando um café, fumando um cigarro ou enrolando um baseado.
Outro dia, a Luana esteve aqui e me perguntou se você tinha parado de fumar, já que nunca mais tinha sentido nenhum cheiro invadindo o quarto dela. Dei uma desculpa qualquer para ela, disse que você não estava em casa, disse que eu estava de saída. Ela deve ter percebido tua ausência. Todos percebem. Essa casa é enorme sem você. Sou capaz de ouvir o eco de meus soluços, toda vez que sento à mesa de jantar sozinho. O bater dos talheres nos pratos. No prato. Só tem um na mesa, sempre. A geladeira não tem mais comida saudável. Vive cheia de caixas e enlatados, todos pela metade. Preciso aprender a comprar porções únicas.
Esta manhã, pensei em você. Acordei com dor de cabeça. Quando falei alto, imaginando alguém me ouvindo reclamar, lembrei de como você me mandava, todas as vezes que tinha dor de cabeça, procurar um médico. "Isso não é normal!", você dizia com uma cara de preocupação. Passaria dores de cabeça por todos os dias de minha vida, só pra ter certeza de tua preocupação com minha saúde. Era bom me sentir tão querido e cuidado. Agora só minha mãe faz perguntas do tipo "comeu bem?", uma vez por semana quando ela lembra de me ligar.
Ah, não tenho usado mais o ar condicionado de nosso, digo, de meu quarto. E também parei com o descongestionante. Acho que você ia gostar de me ver tão saudável. Tirando a parte dos enlatados. O Chico chegou nos meus pés pedindo comida. Vou colocar o pratinho de ração dele. Ainda bem que você não pôde levá-lo para tua casa nova. Ele tem me feito companhia. Bom, estou indo, este gato é um esfomeado. Risos. Quando for dormir, volto a tentar lembrar qual nossa posição. Vai ser mais uma tentativa frustrada, tenho certeza. Já vai, Chico!
Nossa! Esqueci também se você tomava café com duas ou três colheres de açúcar. A proporção de leite no teu copo eu ainda posso recordar. Quatro pra um. Risos. Outro dia, coloquei um pouco de leite em tua caneca para mim, a fim de ver se teu gosto ainda estaria lá, de alguma forma. Não estava, claro. Quem tomou todo o leite foi o Chico, que ainda procura teu colo todos os dias, a partir das 20 horas, em frente à nossa TV, na poltrona que era de meu avô e que você insistia em manter em casa, no meio daqueles móveis retilíneos.
A decoração da sala continua desequilibrada por conta da poltrona, mas eu decidi manter depois que você nos deixou. É uma cama para Chico e um dos meus jeitos de te fazer presente naquela casa. Ela continua lá, no mesmo canto onde você deixou quando a gente se mudou para este apartamento. A TV também está no mesmo lugar. Mesmo depois de assistir a todos os canais possíveis, prefiro deixar ela desligada sempre naquele canal que você adorava. É outro jeito de te manter perto. Ligar o aparelho e, de repente, ouvir a voz no noticiário é como olhar a poltrona e ainda te encontrar sentado, meio de lado, tomando um café, fumando um cigarro ou enrolando um baseado.
Outro dia, a Luana esteve aqui e me perguntou se você tinha parado de fumar, já que nunca mais tinha sentido nenhum cheiro invadindo o quarto dela. Dei uma desculpa qualquer para ela, disse que você não estava em casa, disse que eu estava de saída. Ela deve ter percebido tua ausência. Todos percebem. Essa casa é enorme sem você. Sou capaz de ouvir o eco de meus soluços, toda vez que sento à mesa de jantar sozinho. O bater dos talheres nos pratos. No prato. Só tem um na mesa, sempre. A geladeira não tem mais comida saudável. Vive cheia de caixas e enlatados, todos pela metade. Preciso aprender a comprar porções únicas.
Esta manhã, pensei em você. Acordei com dor de cabeça. Quando falei alto, imaginando alguém me ouvindo reclamar, lembrei de como você me mandava, todas as vezes que tinha dor de cabeça, procurar um médico. "Isso não é normal!", você dizia com uma cara de preocupação. Passaria dores de cabeça por todos os dias de minha vida, só pra ter certeza de tua preocupação com minha saúde. Era bom me sentir tão querido e cuidado. Agora só minha mãe faz perguntas do tipo "comeu bem?", uma vez por semana quando ela lembra de me ligar.
Ah, não tenho usado mais o ar condicionado de nosso, digo, de meu quarto. E também parei com o descongestionante. Acho que você ia gostar de me ver tão saudável. Tirando a parte dos enlatados. O Chico chegou nos meus pés pedindo comida. Vou colocar o pratinho de ração dele. Ainda bem que você não pôde levá-lo para tua casa nova. Ele tem me feito companhia. Bom, estou indo, este gato é um esfomeado. Risos. Quando for dormir, volto a tentar lembrar qual nossa posição. Vai ser mais uma tentativa frustrada, tenho certeza. Já vai, Chico!
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
O efeito do banho dura pouco
Chove muito lá fora. Corri pra fechar as janelas e evitar que minha cama ficasse molhada com a torrente que não parava desde oito da noite. Graças a deus ou alguma divindade, eu tinha acabado de chegar em casa quando a tempestade começou. Não me molhei.
Mas a casa está fria. Chegar, tirar os sapatos, pisar o chão gelado me fez arrepiar um pouco. Até pensei em você, saindo do quarto com aquele lençol estampado na cabeça, correndo sem roupa pela casa com um sorriso no rosto. Lembra?
Só que não tinha você. Nem lençol estampado. Sequer alegria no rosto de ninguém. No meu, pelo menos, não havia nenhuma expressão de felicidade. Era só o cansaço de um dia cheio e a chateação das horas dentro de um ônibus preso em um engarrafamento.
Acendi um cigarro. Tinha parado de fumar depois que você foi embora, mas quando a saudade apertou, o sabor do cigarro em minha boca me fazia lembrar o gosto de sua língua quando roçava a minha. Sim, tenho tentado te encontrar nessas besteiras. Meu risco maior é me viciar em alguma droga. Ou me viciar em cheirar as roupas que estão em sua gaveta de gravatas. O cheiro delas ainda está lá. Agora eu uso para minhas cuecas. É estranho, eu sei. Mas minha loucura se explica na saudade.
Bom, a chuva parou por aqui. Deve ter ido molhar o rosto de outro cara sozinho em casa e ainda apaixonado. Deixou um rastro estranho de passado. Trouxe as fotos rasgadas que estavam empilhadas perto do lixo da cozinha. O cigarro acabou e o banho quente me aqueceu do frio. Está bem... Por essa noite eu deixo pra lá, não vou me preocupar que você não volte.
Acho que te ligarei amanhã pela tarde, pra perguntar como está Finho. Já sabe que vou querer saber como anda sua vida também, né? Então, não deixe de me atender. E não se esqueça de voltar logo pra perto de mim. O efeito do banho dura pouco.
Mas a casa está fria. Chegar, tirar os sapatos, pisar o chão gelado me fez arrepiar um pouco. Até pensei em você, saindo do quarto com aquele lençol estampado na cabeça, correndo sem roupa pela casa com um sorriso no rosto. Lembra?
Só que não tinha você. Nem lençol estampado. Sequer alegria no rosto de ninguém. No meu, pelo menos, não havia nenhuma expressão de felicidade. Era só o cansaço de um dia cheio e a chateação das horas dentro de um ônibus preso em um engarrafamento.
Acendi um cigarro. Tinha parado de fumar depois que você foi embora, mas quando a saudade apertou, o sabor do cigarro em minha boca me fazia lembrar o gosto de sua língua quando roçava a minha. Sim, tenho tentado te encontrar nessas besteiras. Meu risco maior é me viciar em alguma droga. Ou me viciar em cheirar as roupas que estão em sua gaveta de gravatas. O cheiro delas ainda está lá. Agora eu uso para minhas cuecas. É estranho, eu sei. Mas minha loucura se explica na saudade.
Bom, a chuva parou por aqui. Deve ter ido molhar o rosto de outro cara sozinho em casa e ainda apaixonado. Deixou um rastro estranho de passado. Trouxe as fotos rasgadas que estavam empilhadas perto do lixo da cozinha. O cigarro acabou e o banho quente me aqueceu do frio. Está bem... Por essa noite eu deixo pra lá, não vou me preocupar que você não volte.
Acho que te ligarei amanhã pela tarde, pra perguntar como está Finho. Já sabe que vou querer saber como anda sua vida também, né? Então, não deixe de me atender. E não se esqueça de voltar logo pra perto de mim. O efeito do banho dura pouco.
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
Tudo sobre a noite
Longe de mim há menos de dois passos. E eu não consigo pensar em outra coisa que não seja te olhar. E quando penso em tocar tua mão, você se afasta mais de um milhão de anos-luz e eu acordo de um sonho lindo. O mais lindo que já sonhara. Então levanto, acendo um cigarro e escrevo um poema.
terça-feira, 14 de janeiro de 2014
sonho de uma noite de verão
as lágrimas mancharam mais de uma vez o papel em que ela escrevia a carta de despedida. ele cantarolava uma canção antiga, ainda do início do relacionamento. ela tentava desesperadamente escrever algo que não a fizesse morrer aos poucos. ele acendeu um cigarro, encostado na janela, olhava para baixo. ela descansava os olhos marejados na parede branca do quarto de dormir. ele respirava fundo da janela do vigésimo terceiro andar. ela lembrava de todas as palavras ditas, carinhosas, rudes, amáveis, afiadas. ele ainda cantarolava a canção. ela voltou a escrever e seu rosto não secava. ele encostou a cabeça na parede. ela deitou um pouco, olhou para cima e imaginou estrelas. ele sentou no chão, enquanto olhava fixamente o cigarro, como desejasse apagá-lo com a mente. ela deixou escorrer pelo rosto as lágrimas; não limpou. ele colocou a cabeça entre os joelhos, rezou uma ave maria. ela sentou e tomou a caneta novamente às mãos. ele abriu a boca em um lamento surdo. ela soluçou cinco gotas de lágrimas. ele tragou. ela suspirou. ele parou de cantarolar. ela secou as lágrimas em seu rosto. ele terminou o cigarro, finalmente. ela terminou a carta, finalmente.
não sei quanto tempo demorei para sair dali. saí daquela sala enquanto o nilo me banhava a face. olhei para seu rosto também úmido, suas mãos ainda trêmulas. não sabia onde chegaria, nem para onde ia, nem como seria o futuro distante planejado naquele último minuto. saí cantarolando uma música qualquer cheia de dor. queria sentir como era ser machucado. a autoflagelação, a mais cristã das minhas atitudes. era o que me restava naquele meio de tarde de outono. saí sem acender nenhum cigarro. a carta estava em cima da mesa. a chave de casa estava sobre o sofá. abri a porta. fechei a porta. beijei o papel. beijei também seu rosto. sequei o pouco resto de lágrima que ainda tinha. levantei os olhos para o teto. imaginei estrelas. acendi o cigarro. abri a porta. parti em um adeus que nem eu mesmo pude escutar.
ela acordou.
ele acordou.
não sei quanto tempo demorei para sair dali. saí daquela sala enquanto o nilo me banhava a face. olhei para seu rosto também úmido, suas mãos ainda trêmulas. não sabia onde chegaria, nem para onde ia, nem como seria o futuro distante planejado naquele último minuto. saí cantarolando uma música qualquer cheia de dor. queria sentir como era ser machucado. a autoflagelação, a mais cristã das minhas atitudes. era o que me restava naquele meio de tarde de outono. saí sem acender nenhum cigarro. a carta estava em cima da mesa. a chave de casa estava sobre o sofá. abri a porta. fechei a porta. beijei o papel. beijei também seu rosto. sequei o pouco resto de lágrima que ainda tinha. levantei os olhos para o teto. imaginei estrelas. acendi o cigarro. abri a porta. parti em um adeus que nem eu mesmo pude escutar.
ela acordou.
ele acordou.
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
A felicidade de Rodolfo (ou Aquele sobre o Finho)
Trouxemos Finho para casa. Finalmente ele parecia melhor. Sabe aquela história de depois da tempestade vir a bonança? Pois é como eu me sentia. Frente à bonança. Já podia respirar tranquilo depois de algumas semanas sem conseguir parar de pensar que o pior poderia acontecer. Mas graças a Deus, ou ao deus dos cães, Finho estava novamente em casa, conosco.
Os dias foram seguindo e parecia que nada poderia afastar tamanha felicidade de nossas vidas. Finho corria, brincava com seu urso de pelúcia de estimação e pulava em nossa cama toda manhã pedindo sua comida e que o levássemos para fora. Éramos novamente uma família feliz.
Mas o diabo se faz de bonzinho para conquistar as almas menos espertas. E foi isso que ele fez com a gente. Encheu nossas vidas de felicidade e alegria ao lado de Finho. E de uma vez por todas, sem nos fazer nenhuma pergunta, o levou embora. Sem nos dá nenhum sinal de alerta, Finho morreu depois de latir seguidamente por 30 segundos. E nós dois, nos perguntando o que estava acontecendo, apenas descobrimos que era um adeus, depois que ele, finalmente se calou e fechou os olhos.
Ainda não estamos recuperados de sua ida. E sua cama ainda espera por você. Tomara que você esteja bem, aí no céu dos cachorros.
Os dias foram seguindo e parecia que nada poderia afastar tamanha felicidade de nossas vidas. Finho corria, brincava com seu urso de pelúcia de estimação e pulava em nossa cama toda manhã pedindo sua comida e que o levássemos para fora. Éramos novamente uma família feliz.
Mas o diabo se faz de bonzinho para conquistar as almas menos espertas. E foi isso que ele fez com a gente. Encheu nossas vidas de felicidade e alegria ao lado de Finho. E de uma vez por todas, sem nos fazer nenhuma pergunta, o levou embora. Sem nos dá nenhum sinal de alerta, Finho morreu depois de latir seguidamente por 30 segundos. E nós dois, nos perguntando o que estava acontecendo, apenas descobrimos que era um adeus, depois que ele, finalmente se calou e fechou os olhos.
Ainda não estamos recuperados de sua ida. E sua cama ainda espera por você. Tomara que você esteja bem, aí no céu dos cachorros.
domingo, 17 de novembro de 2013
um canção para a noite toda
de onde vens? da casa para onde foges toda vez que cansa de estar ao meu lado? da barra do vestido daquela mulher que pinta os lábios com o vermelho da cor de sangue? da cama daquela uma que deve ter os lençóis sujos com o pecado? é de lá? e vens assim com esse cheiro de perfume barato? com essas flores murchas, compradas ainda ontem à noite na florista em frente ao cemitério?
é isso, que me ofereces? o cansaço de uma noite inteira sem dormir? se lambuzando no corpo daquela mulher devassa que quase não cobre os seios? não venha me beijar com os lábios sujos do corpo daquela! fique longe de mim, com tuas falsas lágrimas de arrependimento. eu te esperei durante o dia e a noite de ontem. esperei encontrar teu sorriso depois de um dia inteiro de trabalho, mas o que me trouxeste foi um ramalhete roubado de algum futuro velório? é isso?
não sabes quantas lágrimas derramei, enquanto imaginava aquela mulherzinha te despindo e se deixando despir. imaginando que ela estava te tocando, enquanto eu, morria um pouco, sozinha nesta casa enorme.
onde estão as crianças? na casa de minha mãe. mandei os meninos para lá, a fim de que não vissem seu estado ao chegar. e o meu estado ao te ver passar por esta porta.
por que choras? por que não tens coragem de me olhar no rosto? aquela vagabunda engoliu a tua língua enquanto beijava-te? responda? achas, por acaso, que irei acreditar em teu arrependimento silencioso? que apenas aceitarei que me digas alguma mentira sobre ontem à noite e que ficará tudo bem?
achas que calar-me com um beijo agora poderá secar as lágrimas que chorei ontem?
estou indo à casa de minha mãe buscar as crianças. deixei no forno a comida do jantar de ontem. se quiseres comer, podes, tu mesmo, esquentar.
é isso, que me ofereces? o cansaço de uma noite inteira sem dormir? se lambuzando no corpo daquela mulher devassa que quase não cobre os seios? não venha me beijar com os lábios sujos do corpo daquela! fique longe de mim, com tuas falsas lágrimas de arrependimento. eu te esperei durante o dia e a noite de ontem. esperei encontrar teu sorriso depois de um dia inteiro de trabalho, mas o que me trouxeste foi um ramalhete roubado de algum futuro velório? é isso?
não sabes quantas lágrimas derramei, enquanto imaginava aquela mulherzinha te despindo e se deixando despir. imaginando que ela estava te tocando, enquanto eu, morria um pouco, sozinha nesta casa enorme.
onde estão as crianças? na casa de minha mãe. mandei os meninos para lá, a fim de que não vissem seu estado ao chegar. e o meu estado ao te ver passar por esta porta.
por que choras? por que não tens coragem de me olhar no rosto? aquela vagabunda engoliu a tua língua enquanto beijava-te? responda? achas, por acaso, que irei acreditar em teu arrependimento silencioso? que apenas aceitarei que me digas alguma mentira sobre ontem à noite e que ficará tudo bem?
achas que calar-me com um beijo agora poderá secar as lágrimas que chorei ontem?
estou indo à casa de minha mãe buscar as crianças. deixei no forno a comida do jantar de ontem. se quiseres comer, podes, tu mesmo, esquentar.
terça-feira, 12 de novembro de 2013
Amor à primeira vista
Nunca pensei que fosse tão fácil se apaixonar por alguém. Bastou uma simples troca de olhares e foi suficiente para que eu me derramasse do mais absoluto e imbecil amor por aquele sorriso.
Os olhos brilhantes, como os de um menino que acaba de ganhar o brinquedo que desejava há tempos. Ou que ganhou um beijo da garota mais bonita da turma do colégio. Um olhar que brilhava ao encontrar o meu. Era como se eu pudesse mergulhar naquele brilho e sentisse como se fosse minha própria casa.
O sorriso cativante, aberto, largo, expressivo. Um sorriso sincero e cheio de alegria. Um sorriso meu. Pra mim, que bastava um leve movimento para me fazer sentir a segurança do mundo inteiro. O sorriso tão claro e límpido que era capaz de pintar de quantas cores fosse possível meus dias mais cinzentos.
A mão no cabelo, como a alisar a minha pele. A maneira única de passar a mão pelo cabelo, começando com os dedos abertos e fechando quando chegava perto da nuca. O jeito maroto e desengonçado de enrolar os fios atrás da orelha, como a desligar-se do mundo por alguns instantes.
E só de fechar o olho posso sentir que estou perto dela. Mas ao abrir os olhos, meu mundo desaba por não encontrar mais o amor da vida inteira que conheci há tanto tempo que nem lembro mais quando.
Os olhos brilhantes, como os de um menino que acaba de ganhar o brinquedo que desejava há tempos. Ou que ganhou um beijo da garota mais bonita da turma do colégio. Um olhar que brilhava ao encontrar o meu. Era como se eu pudesse mergulhar naquele brilho e sentisse como se fosse minha própria casa.
O sorriso cativante, aberto, largo, expressivo. Um sorriso sincero e cheio de alegria. Um sorriso meu. Pra mim, que bastava um leve movimento para me fazer sentir a segurança do mundo inteiro. O sorriso tão claro e límpido que era capaz de pintar de quantas cores fosse possível meus dias mais cinzentos.
A mão no cabelo, como a alisar a minha pele. A maneira única de passar a mão pelo cabelo, começando com os dedos abertos e fechando quando chegava perto da nuca. O jeito maroto e desengonçado de enrolar os fios atrás da orelha, como a desligar-se do mundo por alguns instantes.
E só de fechar o olho posso sentir que estou perto dela. Mas ao abrir os olhos, meu mundo desaba por não encontrar mais o amor da vida inteira que conheci há tanto tempo que nem lembro mais quando.
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
e sempre volta ao mesmo ponto
nossos olhares se encontraram mais uma vez. e dessa vez foi tudo meio diferente, sabe? diferente do que costumava ser. quando minhas mãos tocaram as suas, eu não parecia conhecer as rugas nos dedos que costumava reconhecer como a mão que me acariciava o rosto entre os beijos.
depois de nossas mãos, naturalmente, se afastarem, como pólos semelhantes de imãs, nossos olhares cruzarem caminhos diferentes, depois de um não e um sim. uma simples discordância, nada grave para um casamento tão longo. depois disso, nos deparamos com o maior medo de toda nossa vida.
não podíamos estar pensando no fim de tudo. afinal, nossa promessa era a eternidade. o amor eterno, até ficarmos velhinhos e de cabelos brancos e podermos sentar à varanda contando histórias de juventude.
nós não conseguimos olhar um para o outro. apenas sentimos como seria se tivéssemos coragem para deixar ali o sentimento que havia naquele exato momento. não havia mais sentimento, era isso.
e então emudecemos diante da possibilidade de ficar longe um do outro. nós não sabíamos viver um sem o outro. mentira. eu não sabia viver sem ela. mas sabia perfeitamente que ela não precisava de mim para nada. nem para ser infeliz. até isso ela conseguia sem minha participação.
quando não deu mais para sustentar, caí. uma queda tão grande, que parecia estar junto com alice. mas não tinha queda. era apenas a sensação de uma vida inteira sendo deixada pra trás.
ela voltou. eu entendi. não era pra me levantar, me reerguer. era pra me ajudar a começar a andar com minhas próprias pernas. eu não conseguia. ela era meu guia. segura e forte, não me deixava pensar em nada.
nada.
agora é isso que somos. nada um do outro. nem passado nem presente. somos apenas lembranças de boas lembranças querendo esquecer as tragédias.
depois de nossas mãos, naturalmente, se afastarem, como pólos semelhantes de imãs, nossos olhares cruzarem caminhos diferentes, depois de um não e um sim. uma simples discordância, nada grave para um casamento tão longo. depois disso, nos deparamos com o maior medo de toda nossa vida.
não podíamos estar pensando no fim de tudo. afinal, nossa promessa era a eternidade. o amor eterno, até ficarmos velhinhos e de cabelos brancos e podermos sentar à varanda contando histórias de juventude.
nós não conseguimos olhar um para o outro. apenas sentimos como seria se tivéssemos coragem para deixar ali o sentimento que havia naquele exato momento. não havia mais sentimento, era isso.
e então emudecemos diante da possibilidade de ficar longe um do outro. nós não sabíamos viver um sem o outro. mentira. eu não sabia viver sem ela. mas sabia perfeitamente que ela não precisava de mim para nada. nem para ser infeliz. até isso ela conseguia sem minha participação.
quando não deu mais para sustentar, caí. uma queda tão grande, que parecia estar junto com alice. mas não tinha queda. era apenas a sensação de uma vida inteira sendo deixada pra trás.
ela voltou. eu entendi. não era pra me levantar, me reerguer. era pra me ajudar a começar a andar com minhas próprias pernas. eu não conseguia. ela era meu guia. segura e forte, não me deixava pensar em nada.
nada.
agora é isso que somos. nada um do outro. nem passado nem presente. somos apenas lembranças de boas lembranças querendo esquecer as tragédias.
como não conseguir dormir entre um dia e outro
meu maior lamento é não poder tocar o céu. eu nunca pude tocar o céu. e também acho que nunca poderei. assim, na verdade, não sei se meus braços são curtos demais para tocar o céu ou se minhas pernas pesam demais para sair do chão.
domingo, 6 de outubro de 2013
Metal contra as nuvens
A torneira da pia está ligada e não para de derramar água. De dentro do box embaçado eu consigo ver a água transbordando da pia e escorrendo pelo chão. Estou imóvel e não posso fazer nada para conter que ela tome todo o banheiro. A temperatura do chuveiro está alta, talvez queime um pouco a minha pele, mas não consigo sair daqui. A água quente escorre pelo meu rosto e eu já não posso distinguir entre ela e as lágrimas que também insistem em cair e se juntar ao monte de cabelo que entope o ralo.
Caminhando pela casa, a água está em toda parte. Cozinha, sala de estar, quarto. Molhou todo o tapete branco que ficava sob os pés da minha cama. Meus pés estão molhados. O vento que vem da janela arrepia meu corpo inteiro. Esqueci de me cobrir depois de sair do banho. Mentira. Não quis me cobrir ou secar meu corpo.
Ignorando a possibilidade de morrer, ou talvez contando com as chances de tudo dar errado, insisti em usar eletrônicos, ligar tomadas, usar um secador para secar as lágri... digo, meu cabelo. Nada aconteceu. Nada que viesse, de repente, livrar um mundo inteiro de um peso inútil.
A água da pia ainda escorre e o barulho infernal irrita minha mente a ponto de me fazer gritar o mais alto que posso. Até que um vizinho que raramente falo e só encontro no elevador começa a bater em minha porta. Amaury é o nome dele. Abri a porta com um sorriso claramente forçado por detrás de todos os soluços que Amaury já tinha escutado.
Amaury desligou o chuveiro, a torneira do banheiro e o secador. Me trouxe uma toalha com alguma peça de roupa que ele mesmo pegara em meu guarda-roupa. Ele nunca tinha entrado em minha casa antes. Eu nunca permitira a mim conhecê-lo, nem deixei que ele me conhecesse.
Me perguntou o motivo de toda aquela bagunça, reclamou comigo por eu ter usado o secador, disse que poderia ter causado um acidente grave e graças a algum deus, que eu não lembro qual ele nomeou eu estava vivo.
Depois de tudo ele me preparou um chá. E decidiu que só sairia de minha casa quando eu aparentasse estar bem. Conversamos sobre um monte de coisas banais. Ele me contou que era seu aniversário de 44 anos, me falou sobre as mulheres que tivera na vida, que não fumava cigarros de nicotina, só maconha, mas que não tinha levado nenhum baseado para minha casa. Me disse que foi muito apaixonado por uma namorada quando era jovem, mas que deixava ela em casa e ia para o brega. Disse que gostava das duas coias: do amor e da putaria.
Antes de ir embora, Amaury me pediu para tomar cuidado e lembrar que nós não temos outra vida para viver. "Só há uma, lembre disso". A essa altura, minhas lágrimas tinham secado e eu já estava vestido. Liguei a TV para ver o jornal da meia-noite.
Caminhando pela casa, a água está em toda parte. Cozinha, sala de estar, quarto. Molhou todo o tapete branco que ficava sob os pés da minha cama. Meus pés estão molhados. O vento que vem da janela arrepia meu corpo inteiro. Esqueci de me cobrir depois de sair do banho. Mentira. Não quis me cobrir ou secar meu corpo.
Ignorando a possibilidade de morrer, ou talvez contando com as chances de tudo dar errado, insisti em usar eletrônicos, ligar tomadas, usar um secador para secar as lágri... digo, meu cabelo. Nada aconteceu. Nada que viesse, de repente, livrar um mundo inteiro de um peso inútil.
A água da pia ainda escorre e o barulho infernal irrita minha mente a ponto de me fazer gritar o mais alto que posso. Até que um vizinho que raramente falo e só encontro no elevador começa a bater em minha porta. Amaury é o nome dele. Abri a porta com um sorriso claramente forçado por detrás de todos os soluços que Amaury já tinha escutado.
Amaury desligou o chuveiro, a torneira do banheiro e o secador. Me trouxe uma toalha com alguma peça de roupa que ele mesmo pegara em meu guarda-roupa. Ele nunca tinha entrado em minha casa antes. Eu nunca permitira a mim conhecê-lo, nem deixei que ele me conhecesse.
Me perguntou o motivo de toda aquela bagunça, reclamou comigo por eu ter usado o secador, disse que poderia ter causado um acidente grave e graças a algum deus, que eu não lembro qual ele nomeou eu estava vivo.
Depois de tudo ele me preparou um chá. E decidiu que só sairia de minha casa quando eu aparentasse estar bem. Conversamos sobre um monte de coisas banais. Ele me contou que era seu aniversário de 44 anos, me falou sobre as mulheres que tivera na vida, que não fumava cigarros de nicotina, só maconha, mas que não tinha levado nenhum baseado para minha casa. Me disse que foi muito apaixonado por uma namorada quando era jovem, mas que deixava ela em casa e ia para o brega. Disse que gostava das duas coias: do amor e da putaria.
Antes de ir embora, Amaury me pediu para tomar cuidado e lembrar que nós não temos outra vida para viver. "Só há uma, lembre disso". A essa altura, minhas lágrimas tinham secado e eu já estava vestido. Liguei a TV para ver o jornal da meia-noite.
domingo, 22 de setembro de 2013
tudo ou nada (ou quando, na verdade, preferi esquecer o que vi e o que ouvi)
ei, amor, porque você nunca me contou sobre esses desenhos guardados nesta caixa, em seu armário? são seus? você desenha bem. mas porque a o nome assinado não é seu? ah, então não são seus. entendi. mas de quem são, meu amor? ah, sim, claro, de um amigo muito querido. tem certeza de que não se trata de um amor do passado? (rsrs) claro que compreendo, meu amor. mas, espere, a data é atual, foi rabiscado este ano, ainda. você ganhou desse amigo querido ainda este ano. por que não me diz, amor? entendo. eu desisto de tentar te fazer falar algo. vamos fazer de conta que nunca vi nenhum desses desenhos. não quero te aborrecer. venha aqui, me dê um beijo! pronto. estamos sem problema, certo? te amo, meu amor!
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
Alberto, seu bom filho da puta
Alberto. Esse é o nome do comedor de criancinhas que arruinou minha vida. Quando o conheci ele era apenas o vendedor de uma loja de roupas onde, por engano, fui parar. Logo depois ele viria a se tornar o namorado de meu melhor amigo.
Essa foi a pior maneira do destino fazer nossos caminhos se cruzarem novamente. Começamos a sair, sempre juntos, os quatro. Alberto e meu amigo, eu e meu namorado. Íamos a festas e jantávamos juntos. Assistíamos espetáculos de teatro, tomávamos vinho e discutíamos arte depois à noite.
Fumávamos juntos também. Conversávamos sobre sexo, partilhávamos intimidades e, algumas vezes, a cama. Não pense que fazíamos sacanagem juntos. Não! Dormíamos juntos, eventualmente flagrava Alberto e meu amigo em movimentos denunciantes. E não duvido que eu e meu namorado já não tenhamos sido flagrados.
Éramos jovens e desapegados de demais pudores.
Triste foi o dia que meu olhar cruzou o olhar de Alberto e seu sorriso me pareceu iluminar todo o canto escuro da sala. Já não sentia mais por meu namorado o que sentia em início do namoro. Nenhuma paixão dura para sempre. Mas nunca também sentira por outro homem, que não ele, algo tão forte quanto sentira agora por Alberto. Decerto é apenas a força da convivência, pensei.
Dias se passaram e meu fascínio por Alberto e desfascínio por meu namorado só cresciam. Eu não compreendia muito bem, mas sentia. E não tinha sequer vontade de transar com ele. Mas as cenas de sexo que eu presenciava, agora mais frequentemente, já que moramos, os quatro, na mesma casa, só com essas cenas eu conseguia gozar.
Até que o dia de hoje chegou. Antes desse texto, escrevi uma carta. Deixei dentro do cinzeiro. Alguém lerá. Depois de escrevê-la, peguei minhas malas, minha coleção de discos de vinil e parti. Ainda não sei para onde vou. Talvez para longe da mais profunda dependência, longe do mais triste desquerer e perto de minha sanidade.
Agora, com o vento quase fechando minhas pestanas, já me sinto mais livre. Estou na estrada.
Essa foi a pior maneira do destino fazer nossos caminhos se cruzarem novamente. Começamos a sair, sempre juntos, os quatro. Alberto e meu amigo, eu e meu namorado. Íamos a festas e jantávamos juntos. Assistíamos espetáculos de teatro, tomávamos vinho e discutíamos arte depois à noite.
Fumávamos juntos também. Conversávamos sobre sexo, partilhávamos intimidades e, algumas vezes, a cama. Não pense que fazíamos sacanagem juntos. Não! Dormíamos juntos, eventualmente flagrava Alberto e meu amigo em movimentos denunciantes. E não duvido que eu e meu namorado já não tenhamos sido flagrados.
Éramos jovens e desapegados de demais pudores.
Triste foi o dia que meu olhar cruzou o olhar de Alberto e seu sorriso me pareceu iluminar todo o canto escuro da sala. Já não sentia mais por meu namorado o que sentia em início do namoro. Nenhuma paixão dura para sempre. Mas nunca também sentira por outro homem, que não ele, algo tão forte quanto sentira agora por Alberto. Decerto é apenas a força da convivência, pensei.
Dias se passaram e meu fascínio por Alberto e desfascínio por meu namorado só cresciam. Eu não compreendia muito bem, mas sentia. E não tinha sequer vontade de transar com ele. Mas as cenas de sexo que eu presenciava, agora mais frequentemente, já que moramos, os quatro, na mesma casa, só com essas cenas eu conseguia gozar.
Até que o dia de hoje chegou. Antes desse texto, escrevi uma carta. Deixei dentro do cinzeiro. Alguém lerá. Depois de escrevê-la, peguei minhas malas, minha coleção de discos de vinil e parti. Ainda não sei para onde vou. Talvez para longe da mais profunda dependência, longe do mais triste desquerer e perto de minha sanidade.
Agora, com o vento quase fechando minhas pestanas, já me sinto mais livre. Estou na estrada.
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
Eu sou camaleão, cara caramba cara caraô
Mandei que ela parasse com essas coisas de me comparar com qualquer pessoa que já tivesse a beijado. Mesmo que eu fosse igual a muita gente por aí, detestava ter que ouvi-la falar sobre como eu me portava diferente de seu ex-namorado, ou como meu pau era menor que o pau do primo dela. Essas comparações imbecis...
Insisti também, diversas vezes, que ela não falasse sobre nossas intimidades no meio dos amigos. Pelo menos, não quando eu estivesse presente. Ficava constrangido toda vez que ela reclamava para as amigas, e amigos também, sobre eu não conseguir gozar muitas vezes e como isso a frustrava. Segundo ela, seu ex era muito melhor na cama que eu.
Mas os pedidos não adiantaram de nada. Ela prosseguia com a mania insuportável de rir com aqueles dentes que lembravam uma hiena, na frente das pessoas. Uma risada horrorosa, cheia de humor de mau gosto.
Então, num belo dia de primavera - sim, já era primavera - eu acordei na casa dela e joguei todas as calcinhas que estavam penduradas no banheiro em sua cara. Claro, ela acordou assustada. Algumas nem eram dela. E depois falei o quanto achava insuportável ouvir ela rir, ver as calcinhas no banheiro e ter que chupar sua boceta toda depilada.
E com ares de superioridade, cruzei a porta e saí cantando alguma música de Chiclete com Banana, acho que Cara Caramba Cara Caraô.
Insisti também, diversas vezes, que ela não falasse sobre nossas intimidades no meio dos amigos. Pelo menos, não quando eu estivesse presente. Ficava constrangido toda vez que ela reclamava para as amigas, e amigos também, sobre eu não conseguir gozar muitas vezes e como isso a frustrava. Segundo ela, seu ex era muito melhor na cama que eu.
Mas os pedidos não adiantaram de nada. Ela prosseguia com a mania insuportável de rir com aqueles dentes que lembravam uma hiena, na frente das pessoas. Uma risada horrorosa, cheia de humor de mau gosto.
Então, num belo dia de primavera - sim, já era primavera - eu acordei na casa dela e joguei todas as calcinhas que estavam penduradas no banheiro em sua cara. Claro, ela acordou assustada. Algumas nem eram dela. E depois falei o quanto achava insuportável ouvir ela rir, ver as calcinhas no banheiro e ter que chupar sua boceta toda depilada.
E com ares de superioridade, cruzei a porta e saí cantando alguma música de Chiclete com Banana, acho que Cara Caramba Cara Caraô.
quinta-feira, 1 de agosto de 2013
Conversa de cabelos enrolados
Tinha acabado de fumar um baseado com uma amiga e fechei os olhos. Ela, chapada, como todas as vezes em que nos encontrávamos, me perguntou se eu fumava pra dormir. Eu, prontamente, disse que sim e até mais que isso. Eu fumo pra sonhar.
terça-feira, 16 de julho de 2013
livre, livre, livre para amar
os dias de leveza ficaram para trás, assim como as lágrimas. as lágrimas que, de vez em quando, eram sinais de alegria. ele era jovem. ele nem sabia o quanto queria ser feliz. ele não sabia ser feliz, para ser sincero. ele cantou. ele dançou. pulou muitas vezes. ele chorou mais vezes ainda. e abraçou e amou muito. ele costumava sonhar com um futuro distante e belo. ele não tinha medo. ele apenas ia em frente. ele não se importava com o que as pessoas diziam e não enfrentava o mundo com tanta amargura e raiva. ele era muito amor. e o mundo era muito mais colorido do que parece ser hoje. ele ainda se confunde com o autor. mas ele sabe que muita coisa mudou e que não é mais o mesmo. e agora ele sorri sem graça para um mundo sem fim.
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domingo, 2 de junho de 2013
Bilhete de bom dia
"Eu encontrei as cartas e os presentes de seu amante. Não precisa mais mentir pra mim. Amanhã passo em sua casa para pegar minhas coisas. Não quero mais saber de você. Depois me diga se o filme que ele te mandou, e que você fez questão de assistir comigo, é bom. Vou adorar saber também se você está usando a pulseira banhada a ouro. Da próxima vez que me encontrar, refeito, pode crer, me diga se ele também gosta do mesmo lado da cama que eu gosto.
Sem beijos, dessa vez. Tenha um péssimo dia. E que todos os outros sejam piores, geometricamente piores."
E assim, parece que o dia começou.
domingo, 12 de maio de 2013
Você precisa saber de mim
- Você conversou com ela?
- Sim!
- O que ela falou?
- Sei lá! Um monte de coisa sem sentido.
Soluço.
- Ela me odeia...
- Imagina, Toni! Odeia nada! Vocês estavam juntos até ontem, jurando amores...
- A gente já num tá junto há um tempão. Nosso namoro já estava acabado há quase um ano. Nós não contávamos mais um com o outro pra nada. A gente tinha segredos entre nós.
- Mas segredos são normais entre casais, Toni! Oxente!!
- Eu sei...
Soluços. Soluços.
- Mas os nossos segredos não eram tão simples assim. Ela me escondia saídas com amigas, fotos em happy hour com colegas de trabalho.
Lágrima escorrendo pelo rosto. Silêncio.
- Ela me escondeu um presente que ganhou de um amigo. Por quê? Por quê?
- Mas você, por exemplo, conversa comigo coisas que não contava a ela. Assim espero, pelo menos.
- Claro!! Mas não é o fato de contar ou não o conteúdo das conversas particulares. É não me contar as pequenas coisas! Ela se divertia tanto, por que não me dizer isso?
- Às vezes ela não contou porque sabe de seu ciúme doentio.
- E eu sei do ciúme dela.
- Você sabe como você agiria se soubesse que ela sempre saía depois do trabalho, né?
- Eu nunca a proibi de nada. Nunca briguei por ela sair com as amigas no fim de semana. Ou quando ela me contava das cantadas que recebia na rua ou de alguns colegas de trabalho. Nunca!!
- Entendo... Mas ela te explicou os motivos de terminar?
- Falou... Disse que eu não confiava nela, que eu a perseguia, que escondia segredos dela... Mas eu nunca, nunca escondi nada dela.
- Hum. Talvez ela tenha desconfiado de você, se você paquera alguém.
- Você tá cansada de saber, Ângela, que eu não tenho paquera alguma fora de meu namoro.
Cigarro. Isqueiro. Trago. Baforada.
- Ela começou a despejar o ódio melancólico dela sobre mim, chorando desesperadamente. E eu comecei a chiara também. Parecia um velório.
- Deus é mais, Toni!
- E eu parado, escutando ela me destruir, me falando as piores barbaridades do mundo como a mais pura verdade. E eu não pude dizer nada. Não consegui nem me defender, mesmo porque não tinha do quê.
Trago. Baforada. Soluço. Tosse.
- Eu to aqui contigo, amigo. Pra sempre.
Sorriso
- Te amo!
- Também te amo, seu bobo. Fica calmo que as coisas vão se resolver.
- Não quero mais resolver as coisas. Só quero que essa dor passe e que eu fique livre da lembrança dela.
domingo, 28 de abril de 2013
Adeus também foi feito pra se dizer
Enquanto eu estava sentado no sofá fumando um cigarro, tomando uma dose de conhaque, ele arrumava as malas. Era uma despedida, eu sabia. E não havia o que questionar. Aliás, não questionava nada em nenhum momento. O fato de eu estar fumando já provava o quanto eu me incomodava com aquela situação. Mas um incômodo que não mexia tanto com meus sentimentos por ele. Pelo contrário, um incômodo que pedia que aquilo terminasse logo e eu pudesse deitar em minha cama sozinho e passar a noite inteira pensando em nossos momentos felizes.
Por um segundo pensei em impedir que ele fechasse o zíper da mala. Pensei em jogar a roupa dele toda na cama e falar que eu estava enganado, que não queria que ele se fosse. Mas não era isso que deveria ser feito. Por mais que tenhamos sonhado muitos sonhos juntos, acho que agora já é a hora de dizer adeus.
E assim foi feito. Ele cerrou a mala, abriu a porta e eu fechei meus olhos. A lágrima escorreu de meu rosto até meus lábios. O sabor era salgado. Porém haverá de se tornar doce e, no fim, sabor algum terá.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
o sono
As memórias de dois mil e passado voltaram. E agora eu já não sei por que choro. Se por aquela paixão boba não correspondida, se pela saudade da viagem mais legal de minha vida com os amigos mais legais praquela vida, se com as músicas que embalavam minhas viagens de ônibus naquele tempo.
Não sei se ainda encontro minhas lembranças. O espelho é velho, assim como elas, e está completamente manchado com as marcas da felicidade de outrora. Manchado com pasta de dente de ontem.
Eu levanto da cama pra cair de novo deitado sobre ela. Durmo como se não tivesse tomado qualquer remédio contra insônia essa noite, enquanto a cartela vazia cai no chão.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
Segue o trem
Naquela noite conversamos sobre um monte de coisas. Menos sobre tudo que tínhamos costumes de falar. Essas coisas nos passaram imperceptíveis, mas na volta pra casa, no silêncio da viagem, forçadamente separados pelas poltronas compradas às pressas na estação. Quase nem íamos no mesmo vagão. Meu olhar fugia pela janela e encontrava as pedras da ferrovia, a ponte, o rio sobre a ponte, os carros que passavam devagar na estrada bem ao longe. Lembrava de como há um ano as conversas fluíam como se nunca faltasse assunto. Hoje em dia tínhamos que nos forçar a falar. Chegará o dia em que nos esforçaríamos para não falar?
Quando em todas as nossas falas cabiam sorrisos, gargalhadas, beijos. Quando em nosso silêncio cabia o amor que nunca faltava. E agora tínhamos mil assuntos não nossos a tratar enquanto estávamos juntos. Seria a velhice de nossa relação? Seria o sono e cansaço? Seria o cansaço? Talvez a rotina tenha ferido a nossa paisagem. Talvez o costume de nos dar abraços assim que nos víamos fez o abraço perder o sentido e parecer uma formalidade qualquer como em uma cerimônia entre Estados.
O meu olhar ainda passeava pela paisagem. Mas vez em quando parava sobre o meu anelar esquerdo. Nossa aliança, trocada no dia de nosso casamento, casamento de mentira, quando nos mudamos para a mesma casa. Minha aliança era o símbolo máximo de meu amor e minha fidelidade. Uma prova de amor, sinceridade, compromisso, companheirismo, luta diária, amor próprio.
Amor próprio. Era isso que me faltava. Perceber isso era fácil, matar o desamor não era. O trem parou na última estação. Já não ia mais sozinho, pelo menos não fisicamente. Um beijo no rosto, um olhar perdido, um sorriso. Tudo que, antes, me deixava aquecido o resto do dia, agora sequer acendia uma faísca em meu peito.
Levantamos, demos a mão e saímos do trem. E deixei, com infelicidade todos os meus pensamentos na poltrona doze do quinto vagão.
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
Equinócio
De repente uma brisa leve tocou meu rosto. Era como mãos infantis me fazendo carinho. E um breve sorriso me escapou dos lábios. Há tanto tempo não sorria. Que estranho! Algo parecia escandalosamente estranho naquele momento. Era como se não houvesse mais motivos para esconder alegria. E não havia, de fato. A estranheza era parte de nem lembrar como era sorrir com liberdade de ser feliz.
Tão repentino quanto a alegria foi a tristeza que se seguiu, no entanto, uma tristeza vazia. Um vazio que agora podia ser preenchido. Era essa ideia de que alguém pudesse habitar o lugar que foi de outro por tanto tempo que deixava tudo tão confuso. Um verdadeiro misto de alegria, liberdade, dor, medo, angústia. Saudade. É, acho que essa é a palavra certa. Saudade sem dor. Uma saudade boa e leve, como a brisa.
Levantei da cama, abri as cortinas e a chuva lá fora também tinha parado. O inverno finalmente acabara. E as pessoas já não estavam mais usando guarda-chuvas. Saí do quarto e corri para a sala. A luz brilhante do sol tocava o chão e a mobília e me fazia, ao mesmo tempo, sentir que tudo estava pronto para recomeçar.
terça-feira, 8 de janeiro de 2013
Sobre dois adolescentes (ou Há quase 40 anos)
Quando o vi pela primeira vez, só enxerguei seu sorriso. Era lindo. Apenas isso vinha em minha mente. Seu convite para que eu o seguisse era como um chamado aos mais incríveis encantos. Acabávamos de nos conhecer e era como se já soubéssemos um do outro desde sempre. Naquele dia decidi que o queria perto de mim pra sempre.
Enquanto conversávamos, me encantava por seu olhar. Um brilho escapava de lá, a cada piscar de olho. E era mágico. Em seu rosto as espinhas estouravam. Eu também as tinha, não me incomodava. Pelo contrário, me deixava mais inebriado. Tinha uma beleza juvenil, um menino. Duvidava que seus pais o deixasse sair de casa sozinho. Mais um convite com brilho no olhar e sorriso no rosto e infelizmente eu não podia ir com ele, mesmo que minha vontade fosse de abandonar tudo que eu estava fazendo para o seguir.
Naquele fim de semana não pensei em outra coisa. Contava as horas para nosso próximo encontro. Esperei ansiosamente uma semana inteira para que pudesse abraçá-lo novamente. Minha alma não se continha de tamanha excitação. Meu corpo também não. Incontáveis foram as vezes que, durante essa semana, imaginei seu corpo junto ao meu e, claro, aliviei como qualquer adolescente, tamanha vontade de tê-lo pra mim. Um abraço era tudo que eu precisava. E sonhei que nos víamos muito mais que uma vez por dia e, mais de uma vez por dia o rendia homenagens solitárias em meu quarto, banheiro, quintal...
E finalmente pude revê-lo, com os mesmos sorrisos com os quais havia me deixado no fim de semana anterior. A cada dia aumentava o meu desejo de reencontrá-lo. Aumentava também minha vontade de estar com ele todos os dias de minha vida. E se ficava um dia sem falar com ele era como estar mais próximo da morte. A dor da saudade me matava aos pouquinhos, mas qualquer palavra dita, qualquer que fosse, era um sinal de alívio e esperança. Eu o amava e sabia disso. E ele sabia disso. E era recíproco. Nos amávamos como dois adolescentes que éramos.
E nos amamos por todos os dias, sem nunca beijar-nos, sem nunca tocarmos o sexo um do outro, sem nunca sequer contar para o outro o quanto estávamos apaixonados. E então, o destino, o mesmo que o trouxe até mim, tratou de tirá-lo de minhas mãos. E assim, da mesma maneira que a paixão surgiu, foi-se, depois de algumas lágrimas e de uma dá qual não me lembrava há 37 anos.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
how do you feel?
é apenas isso que me pergunta? rsrs!! como se fosse alguma novidade!
sério? quer mesmo que eu fale aqui como eu me sinto?
...
tá bom! apesar de achar essa a pior maneira de se começar uma conversa.
não, não me entenda mal, eu sei que as conversas começam com um "como cê tá?", mas é que hoje eu não gostaria de responder a essa pergunta.
posso escolher pular? rsrsrs
não, espera! eu vou responder, na verdade tem charminho no que falei até agora também. =P
...
...
...
estou bem.
...
mentira, a quem eu quero enganar?
não estou nada bem, estou desencontrado.
sempre soube que essa hora chegaria e, na verdade, não tenho a menor ideia do que fazer.
eu sei que você me avisou. como não lembrar de sua voz cada vez que eu paro pra pensar naquelas palavras. nas muitas que trocamos, aliás. nas todas.
...
eu criei um monstro dentro de mim e ele não me faz bem.
eu deveria saber como matá-lo, afinal de contas criador >>>>>>> criatura.
mas a verdade é que eu não tenho a mínima ideia.
...
não, não quero te importunar com minhas besteiras infanto-juvenis.
elas servem pra derrubar algumas lágrimas e me fazer escutar todos os CDs que eu comprei quando tinha 14 anos e sofria de amores por uma garota de minha sala.
...
no mais, estou bem. o que eu tenho é o desejo de paz de espírito e de sonhos.
acho que estou meio triste porque o vasco perdeu também.
e, pra ser sincero, to chateado porque muitos dos meus já nem lembram que eu existo.
...
...
eu sei. não precisa me lembrar que a culpa é minha também. você não é a única pessoa que me diz isso. RISOS.
outra coisa, nada a ver, minha camisa do cachorrinho com cara molhada está na sua casa?
...
eu posso passar aí pra pegar? quero ir pra faculdade com ela na quarta.
...
aproveitamos e conversamos mais. eu não quero jogar todas as minhas tristezas aqui. quero gastar minhas lágrimas em seu ombro.
e poder contar tudo tomando vinho. eu vou levar coxinha também, acho que meu espírito merece.
...
depois falamos, beijos.
sério? quer mesmo que eu fale aqui como eu me sinto?
...
tá bom! apesar de achar essa a pior maneira de se começar uma conversa.
não, não me entenda mal, eu sei que as conversas começam com um "como cê tá?", mas é que hoje eu não gostaria de responder a essa pergunta.
posso escolher pular? rsrsrs
não, espera! eu vou responder, na verdade tem charminho no que falei até agora também. =P
...
...
...
estou bem.
...
mentira, a quem eu quero enganar?
não estou nada bem, estou desencontrado.
sempre soube que essa hora chegaria e, na verdade, não tenho a menor ideia do que fazer.
eu sei que você me avisou. como não lembrar de sua voz cada vez que eu paro pra pensar naquelas palavras. nas muitas que trocamos, aliás. nas todas.
...
eu criei um monstro dentro de mim e ele não me faz bem.
eu deveria saber como matá-lo, afinal de contas criador >>>>>>> criatura.
mas a verdade é que eu não tenho a mínima ideia.
...
não, não quero te importunar com minhas besteiras infanto-juvenis.
elas servem pra derrubar algumas lágrimas e me fazer escutar todos os CDs que eu comprei quando tinha 14 anos e sofria de amores por uma garota de minha sala.
...
no mais, estou bem. o que eu tenho é o desejo de paz de espírito e de sonhos.
acho que estou meio triste porque o vasco perdeu também.
e, pra ser sincero, to chateado porque muitos dos meus já nem lembram que eu existo.
...
...
eu sei. não precisa me lembrar que a culpa é minha também. você não é a única pessoa que me diz isso. RISOS.
outra coisa, nada a ver, minha camisa do cachorrinho com cara molhada está na sua casa?
...
eu posso passar aí pra pegar? quero ir pra faculdade com ela na quarta.
...
aproveitamos e conversamos mais. eu não quero jogar todas as minhas tristezas aqui. quero gastar minhas lágrimas em seu ombro.
e poder contar tudo tomando vinho. eu vou levar coxinha também, acho que meu espírito merece.
...
depois falamos, beijos.
quarta-feira, 21 de novembro de 2012
Estranho (ou Transeunte na avenida)
Quando teus pés cansarem, eu poderei te carregar no colo, como uma mãe a um filho. Quando o teu cabelo cobrir teu rosto, eu poderei guiar os teus caminhos como um bom cão ao seu cego. Quando teu coração parar, poderei eu arrancar o que sobra em mim de emoção para soprar em ti alguma vida. E se ainda assim, não conseguires perceber o mais breve e insólito sentimento, eu correrei para cobri-lo de toda a alma que te falta.
sábado, 27 de outubro de 2012
João
O salto parecia tão grande. E na verdade, ninguém deu atenção ao que estava acontecendo. Nem mesmo ele. Sim, ele que vivia aquela história toda. Ele não sabia o que estava acontecendo de fato. Ignorava o que os outros, os amigos, os amigos dos amigos diziam. Não por maldade, mas apenas por ignorar, por não conseguir compreender o que diziam. E assim foi levando adiante sua pobre vida, sua vidinha, como ele chamava. Sem sequer pensar em dar o salto que pudesse levá-lo a algum outro lugar que não seu lugar qualquer.
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
A paixão assistida por uma janela todos os dias
Deixe! Deixe eu me apaixonar, deixe. Não é pedir demais. Deixa eu ficar contigo enquanto você olha as fotos que tirou ontem. Deixe eu acender seu cigarro, enquanto você se preocupa com a máquina de lavar ligada. Deixa eu encher sua taça de vinho, enquanto você canta uma baladinha italiana pra nós dois. Deixa eu arrumar seus souvenires num canto da mesinha de centro, para que possamos jantar juntos. Deixa eu secar as suas mãos em minha camisa, antes de comermos alguma coisa. E deixe eu correr minhas mãos sobre seus cabelos e entrelaçar meus dedos em seus fios. Deixe eu roçar minha barba na sua. Deixe eu beijar sua barriga te fazendo rir com as cócegas que só eu sei fazer você sentir. Deixa eu encostar meu corpo no seu, devagarinho, como se fosse encaixar uma peça de quebra-cabeça. Deixa eu mirar seu olhar quando me diz que não devo fazer nenhuma dessas coisas, sabendo que farei, mesmo assim. Deixa eu perceber quando devo mudar de lugar de seu corpo quando você quiser sentir minhas mãos em algum outro canto. Deixe eu fechar seus olhos com uma de minhas mãos e te levar pro seu quarto. Deixe eu fechar a porta pra que seu gato não escute nenhuma de nossas sacanagens ditas entre gemidos. Deixa a comida esfriar no prato porque o universo é só nosso.
terça-feira, 16 de outubro de 2012
Sobre o amor e o mar
E quando vem o medo e a confusão, o coração bate mais forte que o costumeiro. E a sensação é de perder algo que nunca foi seu. E de estar dando um ponta-pé no mundo inteiro. Mas levando uma ferida amarga sobre a língua, que nem uma palavra sequer pode falar pois está presa embaixo de toneladas de remorso. E de amor e ódio. E de rancor e piedade. E de tesão.
Quando a vontade de sonhar é maior que a realidade que cerca. Quando as imagens aparecem sem foco e sem sentido. Como se vivesse num barato de um alucinógeno. Aos poucos vai acalmando, mas não passa.
Coração batendo, tá fingindo que não tá.
Quando a vontade de sonhar é maior que a realidade que cerca. Quando as imagens aparecem sem foco e sem sentido. Como se vivesse num barato de um alucinógeno. Aos poucos vai acalmando, mas não passa.
Coração batendo, tá fingindo que não tá.
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
O ósculo
Beije-me. Vamos! Beije-me, agora! Minha boca tem sede de você! Tal como a história da corsa ou da terra seca que necessita de chuva. Então? Beije-me, com todos os beijos de tua boca. É só o que desejo em meio a essa noite fria, nessa capital fria, com almas perambulantes... Frias. Tão esquisitas que suas sombras parecem não ser de seus corpos. Não fuja de um simples pedido. Venha, como um vampiro sugar minha seiva de vida.
Onde estás tu que não percebes meu calor, morfina para tuas dores? Não sente que, ao aproximar-me, ficas arrepiado? Estou perto, cada vez mais perto. Posso sentir tua respiração quente em cima de meus lábios. Desvia um tanto de teu olhar. Abrace quem te espreita de muito perto.
Agora sentes? Fecha teus olhos e quero que possa me sentir tocar teus lábios. É a minha língua umedecendo-os. E agora que minha barba, ainda por fazer, arranha teu rosto, teu pescoço, teu peito e barriga? Deseja-me o suficiente para um beijo? Apenas um beijo, é o que peço. Não quero teu corpo por inteiro, nem tuas mãos me tocando, nem teu sexo. Quero um beijo. Uma única prova de como somos iguais. Isso. Agora mais perto e mais perto e mais perto. Já posso senti-lo tão dentro de mim, com tua língua a roçar a minha. Agora mais ainda.
Posso imaginar que tu me desejas? Não por acreditar que me sentirei melhor. Mas por acreditar que tu te sentirás melhor assim. Pronto. Já percebes que assim me tens nas mãos? E que podes fazer o que quiseres comigo? Era o que gostaria de provar-te. Vamos, solte-me. Deixa que eu siga meu caminho. E se quiseres, chama-me.
Onde estás tu que não percebes meu calor, morfina para tuas dores? Não sente que, ao aproximar-me, ficas arrepiado? Estou perto, cada vez mais perto. Posso sentir tua respiração quente em cima de meus lábios. Desvia um tanto de teu olhar. Abrace quem te espreita de muito perto.
Agora sentes? Fecha teus olhos e quero que possa me sentir tocar teus lábios. É a minha língua umedecendo-os. E agora que minha barba, ainda por fazer, arranha teu rosto, teu pescoço, teu peito e barriga? Deseja-me o suficiente para um beijo? Apenas um beijo, é o que peço. Não quero teu corpo por inteiro, nem tuas mãos me tocando, nem teu sexo. Quero um beijo. Uma única prova de como somos iguais. Isso. Agora mais perto e mais perto e mais perto. Já posso senti-lo tão dentro de mim, com tua língua a roçar a minha. Agora mais ainda.
Posso imaginar que tu me desejas? Não por acreditar que me sentirei melhor. Mas por acreditar que tu te sentirás melhor assim. Pronto. Já percebes que assim me tens nas mãos? E que podes fazer o que quiseres comigo? Era o que gostaria de provar-te. Vamos, solte-me. Deixa que eu siga meu caminho. E se quiseres, chama-me.
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
Sem Título (Segredos)
Contava agora os seus segredos para outro homem. Um homem que não era o seu. Sentiu falta do colo de outros dias. O colo que fora seu por tanto tempo, por mais de quinze anos. Uma fraca lágrima surgiu em seu olhar e ele foi incapaz de impedir que ela se derramasse pelo seu rosto. Limpou com um lenço rapidamente, sem deixar que o outro percebesse a tristeza em seu olhar. E na verdade, não queria que ninguém soubesse que ele já não sorria há algum tempo.
Quando Carlos o deixou, ele achava que não conseguiria nunca mais levantar da cama. Claro que era um exagero. Ele conseguiu não só levantar da cama. Conseguiu também sobreviver cada dia que se seguiu. Não fazia a menor ideia de como ele podia realizar todas as tarefas que se propunha a fazer diariamente. No início, mesmo lavar o rosto era quase impossível. E já conseguia, hoje em dia, ao menos cantar alguns versos. Decerto, era uma canção que lembrava a bela história deles dois. E a cada semana, a lembrança tinha menos dor, menos peso, menos amargura.
Um dia conseguiu mudar a lembrança. Já não era a imagem de Carlos cruzando a porta que vinha à sua mente ao cantarolar. E talvez nunca mais seria. Começou a arrumar malas e pôs nelas todas as esquecidas memórias. Deixou na portaria junto com um envelope. Ligou para o dono e pediu que ele pegasse. Este pensou que poderia se tratar de um reencontro, mas recebeu o recado
quinta-feira, 23 de agosto de 2012
João Alberto e a gaveta de meias
Era segredo. E quem soubesse dele, poderia tê-lo nas mãos para sempre. João Alberto guardava a sete chaves o que não queria que ninguém, além dele mesmo, soubesse. E era muito bem guardado. Jamais tinha comentado com alguém ou escrito em nenhum diário, jamais tinha sequer postado em um blog, aquilo que guardava. Nem pensar alto ele costumava pensar, para que ninguém pudesse descobrir por acaso.
E chegou um dia em que pensava com seus botões sobre o assunto. E João Alberto não quis mais guardar esse segredo com ele mesmo. Não repartiria com ninguém, apenas escreveria num pedaço de papel e guardaria na gaveta de meias. E assim o fez.
João passou anos sem nem lembrar de seu segredo, mas ao escutar novamente uma música que costumava embalar seu sono no passado, lembrou-se da gaveta. Seu segredo nunca tinha sido retirado de lá. Ao reler a própria carta para si mesmo, lembrou-se de como fora feliz, como vivera os melhore momentos de sua vida e o maior amor dela também. E passou a noite cantarolando canções do passado.
E chegou um dia em que pensava com seus botões sobre o assunto. E João Alberto não quis mais guardar esse segredo com ele mesmo. Não repartiria com ninguém, apenas escreveria num pedaço de papel e guardaria na gaveta de meias. E assim o fez.
João passou anos sem nem lembrar de seu segredo, mas ao escutar novamente uma música que costumava embalar seu sono no passado, lembrou-se da gaveta. Seu segredo nunca tinha sido retirado de lá. Ao reler a própria carta para si mesmo, lembrou-se de como fora feliz, como vivera os melhore momentos de sua vida e o maior amor dela também. E passou a noite cantarolando canções do passado.
terça-feira, 21 de agosto de 2012
Alguém precisava dizer (ou Alex e Bruna)
Porque você achou que nada disso era de verdade. Porque você achou que estaríamos criando ilusões desde que nos vimos pela primeira vez. Talvez seja por isso que nada foi verdade enquanto andávamos de mãos dadas o trocávamos beijos apaixonados na areia da praia ou ainda as juras de amor em bilhetinhos papel cartão. Eu sempre soube que não poderia ser assim, mas você nunca quis me ouvir. Agora que nós já entendemos do que se trata, sim, se trata exatamente da hora em que acenamos sem graça e com olhar encharcado, agora podemos cumprir a promessa de nos deixar quando déssemos conta de que a história acabara de chegar ao fim.
segunda-feira, 28 de maio de 2012
escorpião
acendeu o último cigarro que encontrou no maço. tomou uma média pra tirar o bafo dos pesadelos. ainda estava acordando. e na mente, ainda podia ver o escorpião caminhando pelo seu corpo. não podia sequer fechar os olhos para um bocejo que voltava a sentir o passeio do escorpião por seu pescoço. e quando abria os olhos não se sentia aliviado por parecer que ainda sonhava. pelo contrário, ficava até desapontado em ser tudo um produto de sua cabeça. o escorpião ia sumindo de sua mente, como qualquer sonho faz depois do despertar, mas ele se esforçava para lembrar. forçava os olhos fechados para que as patas do escorpião não pudessem sair do emaranhado formado com seus cabelos. tentava manter na memória as pinças que numa cena prendia seus lábios e o impedia de falar. pesadelo. sonho. não sabia o que era, de fato. mas queria deixar isso guardado. já no final do cigarro, lembrou de como fizera para se livrar. apenas um sopro e o escorpião mudara de forma. passava a ser imagem, desenho no papel. inofensivo. inofensivo. acordou e no mesmo papel pintado com o veneno do escorpião, enrolou um baseado.
quarta-feira, 28 de março de 2012
Sem título
Quantos querem os desejos mais internos
Explanar a essência e algo a descobrir
Nunca mais o resumo foi
O meio de aprendermos a novela
E me parece que ela não deseja mais
E quando será que a nova poesia vai surgir?
Se ele nem sequer sabe se vai mesmo ter poesia nessa história
Esqueceu o que queria dizer no meio dessas palavras
Deixa pra mais tarde essa arte de brincar
Não dá pra saber se vai ser sim ou não.
domingo, 22 de janeiro de 2012
Tereza
Andava pela areia catando conchinhas
Cada passo deixando marcas
Deixava o cabelo solto ao vento flamular como uma bandeira
A barra do vestido molhada
E ela apenas ia.
Cada passo deixando marcas
Deixava o cabelo solto ao vento flamular como uma bandeira
A barra do vestido molhada
E ela apenas ia.
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
Tranquilizante
Derramei um punhado dos comprimidos em apenas uma das mãos. Apanhei o copo de água que estava sobre a mesa. Com um em cada mão. Não sabia qual passo dar em seguida. Na verdade, sabia. Tive medo. Medo de sentir dor, medo do inferno. Fiquei pensando nas prováveis lágrimas de minha mãe. Mas será que ela choraria? Claro, mães sempre choram. Pensei. Tomei só o copo d'água.
domingo, 13 de novembro de 2011
miserere nobis
porque eram todos papéis em verdade. não eram nada bons. não eram nada ruins. eram apenas personagens do grande espetáculo armado pelo destino. e deus o dono do palco, brincando com as vidas, dono da festa e da balbúrdia inteira. quando morreu não sabia se queria mesmo a morte, mas deus, sabido que era, matou-o antes mesmo dele o fazer. deus sabe tudo. até da hora de acabar com a história de alguém. esse deus de vocês é um grandissíssimo fanfarrão. um diretor medíocre. um péssimo ator de si mesmo. um bêbado sentado no meio-fio.
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Antônia e Alfredo
Antônia sentou na cama. Era a mesma cama há 50 anos. É claro que havia passado por algumas reformas, alguns riscos feitos pelos filhos, netos, afilhados e sobrinhos que passaram por lá. Nada que tivesse destruído a beleza do móvel de madeira de lei. Era mogno, puro mogno. Umas repinturas em verniz e estava boa de novo. Antônia se orgulhava do presente de casamento de sua já ausente madrinha.
Lembrou nesse instante em que sentava na cama de todas as histórias já passadas naquele quarto. Seus filhos brincando, suas netas escondendo-se do avô debaixo da cama, a empregada que volta e meia tropeçava numa tábua de madeira solta do chão. E riu. Riu da cara de raiva que a empregada sempre fazia resmungando e ameaçando retirar a tábua para nunca mais bater o pé. Ela nunca tirara. E a tábua continuava ali, onde sempre estivera. Agora não fazia mais ninguém tropeçar. Todos já tinham aprendido que não deviam andar por ali ou que deveriam ter cuidado ao passar por ela.
Lembrou-se de outra coisa. Na verdade, se deu conta de como a cama estava fria. No inverno era a única coisa que odiava, ter que deitar na cama fria. Desde que Alfredo morrera, ninguém nunca mais esquentara a cama com ferro de passar antes dela deitar. Para Antônia. era assim que Alfredo provava seu amor por ela, mesmo tantos anos depois de casados. E Antônia se sentiu afagada por sua lembrança. Mas Alfredo não estava mais com ela.
Há sete anos dormia sonhando em acordar do lado de seu amado. Há sete anos nutria a esperança dele buscá-la. Sempre antes de dormir colocava seu vestido azul e o broche que usara no dia de seu casamento. Era como um ritual, um novo sim que dizia a cada noite. Fazia suas preces e incluía nela sempre a memória do marido. Deitava do lado direito da cama e nunca ultrapassava o limite imaginário que existia nesta, que guardava o lado esquerdo para Alfredo. Ainda colocava um punhado do perfume do marido no travesseiro do lado. Toda noite se preparava para recebê-lo.
Na manhã seguinte, Antônia terá realizado seu sonho. Já estará arrumada, pronta para o encontro. E estará tão feliz por isso que as lágrimas dos outros derramadas por sua ida serão em vão. A alegria do reencontro será muito maior que a perda e a saudade que ficarão. Enfim Deus unirá de novo o que por teimosia separou e Antônia e Alfredo poderão viver seus felizes para sempre.
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
Insônia
Era madrugada de terça-feira e Marcelo não conseguia dormir. Trabalharia, no dia seguinte, com os olhos vermelhos. Era um conjunto de emoções que nunca tinha experimentado. Putz! Em pensar que Marcelo era só um jovem apaixonado. Não sabia que a paixão doía tanto. Todas as vezes que dissera-se apaixonado, mentira para si e para todas as que escutavam. Mas dessa vez era diferente. Estranhamente diferente.
Insônia era uma realidade nova, medo de perder também. As lágrimas de saudade também. E que droga estava fazendo que não tinha ligado ainda. Mas era alta noite. Não devia ligar para ninguém uma hora dessas. Deitou na cama e olhava para o teto, como contemplasse o universo inteiro. Daí então, pode sorrir. Gargalhou, na verdade. E só uma cena lhe vinha à mente. Um beijo inesperadamente recebido, um susto, um olhar encabulado e uma fuga desajeitada.
Marcelo queria entender. Era jovem, mas não a ponto de não ter tido experiências de amor. Sentia como se fosse explodir. E tinha no peito um ardor. Queimava como nunca antes sentira. Parecia que ia morrer. Pensou que não deveria estar se sentindo assim. E quanto mais pensava, mais doía. E mais sentia. E mais gostava de sentir. Desistiu de lutar contra.
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Ana
A chuva fina caía sobre ela, enquanto caminhava pelo largo corredor de árvores centenárias. Não sabia o que estava fazendo ali. Se sentia perdida, mas ao mesmo tempo, era como se pudesse ser feliz. Ana olhou para cima e viu as folhas balançarem no alto, os fios da rede elétrica pingando gotas de água. Começou a sorrir. Na verdade, gargalhava. Era uma felicidade que não sabia de onde vinha. Uma felicidade que nunca mais tinha sentido. E os pingos da chuva foram ficando mais fortes. E confundiram-se com suas lágrimas. E era uma alegria tamanha. Era loucura. Ela gritou. Gritou como se nunca tivesse dito uma palavra sequer. Como se o mundo inteiro a pudesse escutar. Mas ninguém a ouvia. E o que importa nisso tudo? Para Ana, era só saber ser feliz enquanto podia. Logo o sol sairia novamente, a chuva e a alegria iriam embora. Os sorrisos lhe fugiriam à face, como a água escorreria pelos esgotos e secaria no asfalto. Aproveitou os últimos instantes que sabia ser feliz e viveu a melhor de todas as experiências.
terça-feira, 26 de julho de 2011
Por Todo Ontem
Olhando para o rosto no espelho, a barba por fazer, o sorriso amarelo e sem graça. Ele era um menino na alma. Não sabia se comportar diante de tantas mudanças. Lavou o rosto e voltou a olhar o espelho. É, era capaz de se reconhecer. Mas não sabia ao certo o quanto queria ser daquele jeito. De qualquer forma, ele era capaz de ver no espelho um rosto com o qual ele conseguia se sentir agradável.
Mas por fora de seu banheiro, nada era como ele queria. Ele, decerto, tinha sonhos, mas nenhum deles era tão próximo quanto desejava que fosse. Era apaixonado, mas não sabia como externar esse sentimento. Tudo em sua realidade era tão distante. Ele era jovem, mas não era assim que se sentia. Ele era um rapaz bonito, mas não fazia sucesso algum com as garotas. Ele não se importava com isso. Sucesso com garotas era o que ele menos queria fazer. Nem com garotos, antes que concluam que era gay. Assim, pregava sua liberdade de beijar qualquer um que quisesse beijar.
Ele se sentia mesmo um viajante. Não se achava em casa, mesmo morando naquele endereço desde que nascera. Seus pais, já mortos e sua irmã, um ano mais velha que ele, nunca fizeram questão de sair de lá. Ele não, sempre sonhou como seria o mundo longe da rua estreita e arborizada onde morava. Sempre pensou que seria um lugar bonito lá fora. Lá longe, onde não pudesse lembrar de como as folhas caídas do outono tremilicavam quando os carros silenciosos dos ricos vizinhos passavam por cima delas. Ou ainda onde não precisaria ver o ônibus escolar passar toda manhã carregando as crianças para o colégio. O mesmo motorista que um dia também o levou.
Saiu do quarto, olhou ao redor, as roupas de seu affair jogadas pelo chão. Achou graça daquilo tudo. Arrumou as roupas num canto da cama, olhou pra ele e pensou que se fosse outra pessoa qualquer, estaria sentindo a mesma coisa. Nada. Não sentia nada.
Decidiu, ali, que passaria um tempo fora daquela cidade, morando num lugar qualquer longe de todas as coisas que aprendera a odiar com o tempo. Começou, então, a fazer as malas.
Local:
Salvador - BA, Brasil
quarta-feira, 6 de julho de 2011
Tarde de Outubro
Amadeu estava correndo atrás de seu passado. Escreveu uns números num pedaço de papel. Não era nada importante. Não com essa importância pensada por todos os normais. Eram só números. Sentou na poltrona que um dia fora de seu avô, já reformada por três vezes, acendeu um cigarro, pegou a xícara que estava na mesa ao lado e tomou um gole de café.
Sentiu saudades, de repente, de um sentimento do passado. Amadeu não era tão velho assim, portanto seus sentimentos não eram tão velhos também. Mas ele sentia uma falta repentina de algo que não sabia o quê. Sentiu-se vazio. Sentiu-se desnecessário. Sentiu que ainda precisava sentir esse algo de novo. Essa sensação boa de pertencimento. Era assim que Amadeu estava se sentindo hoje. E ele preferiu não sair de casa.
Amadeu não era cristão ou religioso. Na verdade tinha até um pouco de asco da religiosidade alheia. Não era comunista, nem liberal. Fazia suas compras, pagava seus impostos, contratava serviços, como qualquer ser humano. Até se deu ao luxo, certa feita, de pagar uma dessas mulheres da internet. Não era de Deus que ele sentia falta. Talvez fosse maior que Deus, o que procurava. E era mesmo. Ele só não sabia o que era.
Mas Amadeu sabia que não podia encontrar isso em lugar algum. Ao menos era a experiência que ele tinha. Sentado, no seu segundo cigarro, com sua terceira caneca de café, lembrava-se de todos os espaços que já tinha frequentado na vida: entre eles a igreja, não mentia pra si mesmo.
Por um momento, lembrou dos sonhos de sua mãe para a sua vida. Faculdade, esposa, filhos. Não, ele nunca quis isso. Sempre sonhou pra si mesmo uma viagem pela Ásia, fotografias na Austrália, um café num bistrô em Paris. Não realizou nenhuma. Mas ainda sonhava. E não. Não era disso que sentia falta.
Hoje era um dia atípico. Ele não era assim todos os dias. E na verdade nem se dava tanto a esses luxos. Acendeu mais um cigarro, dessa vez um baseado. Quando se sentia assim, perdido no mundo e desencontrado, fumava um pouco. Mas não pra se sentir melhor, pra poder fazer a situação se agravar e tentar no caos, buscar a solução para as suas faltas.
Chegou a uma conclusão importante: não era o único a se sentir assim. Mas isso não o fazia se sentir melhor, ainda. Não fazia mais ideia do que sentia. Mas já não estava mais tão abatido quanto tinha acordado. Abriu os olhos e viu que tinha ficado horas pensando em si. Levantou da poltrona que um dia fora de seu avô, reformada por três vezes e saiu da sala catando pontas de cigarro e levando a caneca para a pia. Lavou a caneca. E a água que escorria pela torneira era só a água que escorria pela torneira, nada além disso.
Local:
Salvador - BA, Brasil
sexta-feira, 27 de maio de 2011
O Boteco: Helena Candy
Saiu do banheiro, ainda pingando. Enxugou o corpo andando pelo quarto. Estava atrasado. Não sabia porque tinha dormido tanto. Mas agora que estava acordado, precisava correr contra o relógio. Alberto abriu o guarda-roupa, não o da direita. Essa noite era o dia de abrir o guarda-roupa da esquerda. E ele adorava. Escolheu o vermelho com lantejoulas. Ele sempre arrasava vestido daquele jeito. Depois de vestido, sentou numa penteadeira que herdara de sua avó. Uma penteadeira dessas de camarim! Sua avó era uma atriz. Não era nenhuma estrela, mas muito boa atriz. E isso fazia ele se sentir muito agraciado!
Sentado na penteadeira, tomou o estojo de maquiagem, algumas coisas estavam acabando, mas ele não precisaria delas essa noite. Começou a se maquiar e depois de algum tempo, quem olhasse para ele não reconheceria mais o Alberto. Na verdade ele não era mais Alberto naquela hora. Agora de chamava Helena Candy! Mas faltava ainda algo pra que Helena fosse, de verdade, ela!
Tomou uma peruca ruiva, corte Channel, colocou na cabeça e se olhou no espelho. Deu uns últimos toques na maquiagem e saiu. Diva em si mesma, não precisava da aprovação de ninguém pra ser.
E quando todos estavam desatentos subiu no palco cantando: "Babaluuuuuuuuu"!!!
sexta-feira, 8 de abril de 2011
Bastian Baltasar Bux
Escrevendo num papel de pão algo que sentia há algum tempo no coração. Sofreu muito antes de escrever. Mesmo porque não sabia se queria de verdade escrever aquilo. Era uma poesia. Uma moça, um moço, um monte de sonhos. Soube, sete minutos após começar, que não sentia mais nada daquilo que escrevia. Mas ele não se importava em mentir pra quem o lesse. Era isso! Ele não era um escritor. Ele é um mentiroso.
No final, assinou um outro nome que não o seu. Assinou com o nome de alguém que nem conhecia. Sei lá! Talvez nem se conhecesse o suficiente.
E deixou o escrito jogado no primeiro banco de praça que viu. Provocaria os olhares e corações curiosos por ali.
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
Do Rapaz Mentiroso (ou Abortado)
Ele falou primeiro em esperar a maré baixar. Mas depois pensou melhor e falou em deixar as coisas acontecerem. Ele ainda falou, e eu me lembro, que não acreditava em ninguém. Mas ele mentiu diversas vezes, e o pior, mentiu pra todo mundo. E ninguém na sua cidade sabia de fato quem ele era. E com os olhos cheios de água, saiu a despedir-se de um e outro na cidade como se nunca mais ele fosse voltar. Encontrou a dona dos seus sonhos velhos. Jogou nela os novos sonhos. Pôs um tanto de rancor e rispidez na voz e se deixou abandonar pelo texto decorado desde outrora.
A madame, então, chorou muito, como era de se esperar, como estava no script. E todos da cidade ficaram impressionados e não sabiam o porque daquilo estar acontecendo.
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Céu
Abriu um sorriso que
guardara por tanto tempo
Colocou em cima da cama as fotografias velhas
E ria como nunca mais rira
As estrelas presas no seu céu brilhavam como numa
Noite de baile
Como se casais estivessem se apaixonando naquele
Exato momento
guardara por tanto tempo
Colocou em cima da cama as fotografias velhas
E ria como nunca mais rira
As estrelas presas no seu céu brilhavam como numa
Noite de baile
Como se casais estivessem se apaixonando naquele
Exato momento
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
A Apaixonada
Se animou e tomou a caneta e um papel cartão vermelho. Enquanto no rádio tocava uma música francesa que ela sempre ouvia quando seu pai ainda era vivo, ela acendia um cigarro e bebia pequenos goles de um vinho que há muito queria abrir. Sozinha na sala de casa. Suas personagens estavam todas dormindo. Ela não podia mais escutar suas vozes em sua cabeça.
Escreveu uma carta apaixonada à mulher de sua vida. A mulher que prometera nunca mais amar. A mulher que estava em sua cabeça há anos. Como um passe de mágica, ouviu a voz de Paulo Henrique. E como não pudesse ser vista com esta carta de amor proibida, escondeu-a embaixo da almofada do sofá.
Paulo Henrique saudou sua esposa com um beijo. Ela correspondeu fisicamente. Em sua cabeça não era ele que a beijava.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
O Boteco: A Cena
Estava com um vestido lindo. Era novo. Acabara de comprar numa dessas lojas de gente rica. Tinha comprado especialmente para aquela ocasião. Então, tinha entrado naquele boteco pra saber como era e tinha adorado. Prometeu que voltaria tão logo quanto achasse um bom motivo para beber. Acendeu um cigarro. Ela aceditava parecer uma dessas damas de revista chique ou da novela da televisão. Era loucura, ela sabia. Mas queria uma vez apenas se sentir como se sentem essas mulheres.
Pediu uma mesa pra dois ao garçom. Não teria um encontro. Não era do tipo de mulher que tem encontros. Apenas não tinham mesas pra uma pessoa neste lugar e o balcão não era lugar para uma dama como ela.
Sentou, com seu cigarro ainda incensando o ambiente, pediu gin e tônica e bebeu devagar, como degustasse um bom vinho.
Pensava em algo vivido no passado, como a morte de sua mãe, ou a despedida de seu pai no dia de sua mudança para a capital. Pensava em algo triste para fazer as lágrimas descerem seu rosto. E elas desceram.
E a maquiagem, com tanto trabalho colocada, escorria pela sua face, como a chuva lavando a areia de uma colina. E borrada, a maquiagem tornava mais trágica aquela cena. Uma mulher. Uma dama.
Estava como ela queria. A cena estava completa. Não precisou ter um amor perdido, um animal de estimação morto ou um grande desespero. Só queria saber como era ser a mulher estranha de maquiagem suja e com cigarro na mão, para quem todos olhavam naquele ambiente.
Como se nada tivesse acontecido, pediu a conta. Ainda em lágrimas, pagou ao garçom, levantou-se e saiu. Saiu sem olhar para trás, sem limpar o rosto e sem apagar o cigarro
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
O Boteco: Aniversário de Pierre
Acendeu um cigarro. Sentado sozinho numa mesa de bar, pediu um chopp e fumava. Sentia falta disso. Há muito tempo não se dava esse pequeno mimo. Mas era véspera de seu aniversário, podia fazer isso e não se preocupar com o mundo à sua volta.
Apesar de não estar dando a mínima atenção ao mundo que girava em seu redor, Pierre notou a entrada de Solano no bar. Como não notar? Era o cara mais bonito que seus olhos haviam visto.
Solano tinha a boca bem vermelha, olhos castanhos e pele bronzeada de sol. Não era forte, nem franzino, tinha uma cara de homem, com a barba por fazer, sobrancelhas grossas, mas desenhadas pela natureza a fim de garantir bom resultado à escultura de Deus. Assim que Solano percebeu o olhar tão encantado de Pierre, abriu um sorriso. Era o sorriso mais belo e mais gracioso de todo o ambiente.
Solano sentou próximo ao balcão, pediu uma dose de whisky e rezou ter coragem de falar com o homem mais gostoso e, no entanto, solitário do bar.
Pierre, como estivesse escutando as preces de Solano, levantou-se, perguntou se poderia sentar ao lado dele. Claro que sim, respondia o sorriso de Solano. Conversaram, Pierre disse que no dia seguinte seria seu aniversário e então, seu mais novo conhecido decidiu que comemorariam a partir daquele instante. Um beijo selou este momento e o resto da noite passaram agarrados um ao outro. O resto dessa noite e as outras noites seguintes dos treze anos seguintes e até hoje.
domingo, 28 de novembro de 2010
A mulher ao pé do prédio (ou Bóris escreve histórias das quais não se sente dono)
Bóris passou, então, a rabiscar algum papel que encontrara na sua mesa de trabalho. Riscou quase todo o papel, mas deixou no centro uma figura que lembrava um triângulo, nada muito regular, ou desenho digno de um arquiteto. Era apenas o desenho de um cara desencantado com a meia dúzia de histórias que era obrigado a escrever todos os dias. Histórias que não lhe pertenciam, que não saíam de sua boca, nem sequer de seu coração. Escrevia assim, todo dia, a fim de pagar suas contas. Não, não sairia dali apenas porque queria ser livre para colocar no papel as suas histórias, não sairia dali porque sonhava em ver as pessoas no palco representando o que escrevera. Não sairia dali pois sabia que não teria sucesso em lugar algum, em momento algum da vida. Sabia que não seria aceito fora dali, que seus conhecidos todos não o apoiariam nessa loucura. E, a propósito, não sairia dali pois tudo o que conquistara estava ali e ali era o melhor lugar onde estivera toda a vida, mesmo não sendo o lugar do seu coração.
Enquanto tomava um café, olhou para baixo do prédio não muito alto, no centro da cidade. Conseguiu avistar de lá de cima uma mulher parada em frente ao prédio que parecia num impasse entre entrar e não entrar no prédio. A mulher olhava o relógio, tomava o celular na mão, colocava a mão na cintura, ou no bolso, ou alisava o cabelo. Ele reconheceu a mulher. Sabia quem ela era, mas não queria descer e encontrá-la. Lembrou de suas histórias, não a meia dúzia diária, mas aquelas que guardava na gaveta do criado-mudo herdado de sua vó. Lembrou que ela o inspirara numa delas e lembrou perfeitamente toda a história.
A mulher continuava lá na porta do prédio. Não demorou muito e tomou coragem de dar um passo. Mas a coragem não era suficiente para fazê-la entrar, era descoragem. Saiu da frente do prédio onde Bóris trabalhava. Saiu do ângulo de visão de Bóris. E como num passe de mágica, saiu da cabeça dele, a história que escrevera pensando naquela mulher.
Voltou à sua mesa onde achou o triângulo desenhado. Lembrou que precisava fazer novas histórias, ainda não chegara na quarta. Tossiu e recomeçou a escrever.
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
Bóris
E como fazia todas as manhãs, acordou com vontade de mudar o mundo. Colocou sua roupa de super herói, penteou os cabelos, escovou os dentes, comeu uma maçã do herói e abriu a porta. Saiu da toca secreta do herói. Mas ao chegar ao portão se deu conta que era herói de nada algum e, então, saiu de casa apenas tentando não morrer naquele dia!
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
American Pie
Eram sete e meia da manhã e ela não acordara, porque ainda não dormira. Mantinha os pés quentes, apesar do inverno que fazia do lado de fora do cobertor. Não conseguia fechar os olhos e relaxar. Parecia que estava com algum estimulante, mas nem uma trepada, nem sequer uma tinha dado. Não trepava há algum tempo. Mas isso também não importava. Há muito não achava o pau ideal. E preferia ter em suas mãos, boca e boceta o pau ideal. Não, qualquer pau não servia.
E ao invés de passar as noites nos bares com as amigas à procura de alguém, matava suas noites em café, chocolate e cerveja, mas esta última só de vez em quando. Só nos momentos em que queria se sentir parte de um mundo normal.
Então o rádio-relógio apitou oito horas e ainda nenhum sono tinha chegado em seus olhos. Pensou que seria melhor se levantar e se vestir para o trabalho, afinal às oito já estava um pouco atrasada. Lembrou-se que era feriado nacional. E o desfile com carros e cavalos, provavelmente estaria, dali a instantes, na televisão. Mas não ligou a TV. Preferiu não ver nenhum cavalo cagando a rua inteira. Preferiu apenas continuar deitada. Por ela, morreria naquela situação. Deitada na cama, sozinha.
A cama não era de casal. Era uma cama de solteiro. E ela sempre preferiu. A cama de casal lhe dava sempre a impressão de estar só. E isso, apesar de se seu desejo, não era muito bom. Gostava de ser a mulher independente e solteira e dona de seu próprio nariz, mas não lhe apetecia a solidão em noites como a anterior, de inverno.
Não suportava ver o relógio de parede caminhar e os pássaros cantarolando felizes apesar do frio, já lhe davam certa agonia. Desejou naquele momento controlar os pássaros e fazê-los calar a boca. Calar o bico, quis dizer. Desejou no instante seguinte que seus vizinhos não conversassem na varanda, que o moço vendedor de pamonha não tivesse nunca comprado aquele megafone e que o rádio-relógio não apitasse a cada hora.
Bom, estava cansada de não conseguir dormir. Ligou a TV. Talvez os cavalos a entretesse. Calçou as pantufas com estampa de cachorro pra aquecer mais ainda do inverno denso que invadia impiedosamente seu quarto. E então, como mágica provocada pelas crianças do coral que, neste momento, na TV, cantavam a música que seu pai costumava cantar antes dela dormir, ela caiu em um sono profundo de mais de quinze horas e não quis saber de mais nada. Nem da saudade do pau, nem da saudade do pai. Nem da vontade de calar os passarinhos, nem de calar a pamonha. Nem na cama de casal ela pensava mais, muito menos na possibilidade de um dia chegar a ter uma. E a TV, ao invés de feriado, anunciava a morte de um cantor lenda do Rock, cuja principal canção embalava o sono da insone moça.
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Um Monte de Palavras Descontroladas e Sem Sentido Algum
Vidro.
Papel.
Estrela.
Canhão.
Vidro.
Vinho.
Leite.
Esquema de Intrigas.
Raiva.
Revira.
Volta.
Bota.
Mosca.
Cortina.
Vômito.
Padre.
Marinho.
Bené.
Dito.
E feito e faço e faca.
E medo.
Papel.
Estrela.
Canhão.
Vidro.
Vinho.
Leite.
Esquema de Intrigas.
Raiva.
Revira.
Volta.
Bota.
Mosca.
Cortina.
Vômito.
Padre.
Marinho.
Bené.
Dito.
E feito e faço e faca.
E medo.
Noite de Desafetos
Odeio esse coração amargurado que carrego batendo a cada segundo.
E esse samba que não pára de tocar em minha cabeça.
E odeio quando não encontro minhas lembranças.
E quando fica mais fácil chorar do que rir.
Odeio quando o dia nasce e eu ainda não aprendi a viver o ontem.
Odeio quando a TV só tem notícias sobre caretas.
Odeio quando a minha caneta falha no meio de um poema.
E odeio quando a esperança é a primeira que morre.
E esse samba que não pára de tocar em minha cabeça.
E odeio quando não encontro minhas lembranças.
E quando fica mais fácil chorar do que rir.
Odeio quando o dia nasce e eu ainda não aprendi a viver o ontem.
Odeio quando a TV só tem notícias sobre caretas.
Odeio quando a minha caneta falha no meio de um poema.
E odeio quando a esperança é a primeira que morre.
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