sexta-feira, 14 de abril de 2017

Vésperas

Sempre que ele se senta à minha direita, olha para mim e sorri eu lembro de como foi o nosso primeiro encontro. Não foi a primeira troca de olhares, não foram as primeiras palavras trocadas, não foi a primeira vez que nos vimos vivos e nos mexendo. Mas foi o primeiro registro de minha vontade de que aquela noite demorasse a passar. 

E vocês precisam ver meu coração acelerando quando marcamos de nos encontrar e eu o vejo andando em minha direção. Ele tem um sorriso tão bonito que eu não consigo ficar sem sorrir também. E parece sempre que é algo por descobrir. Como se nosso encontro fosse sempre o primeiro.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Sala de Estar

Luiz Alberto entrou no apartamento. Estava vazio há meses. Era como ele sentia. Desde o fim de seu namoro não pisara lá. “Ele passou aqui depois de minha viagem”, pensou enquanto colocava a mala no chão. Olhou para todos os lados da sala. Não estava necessariamente vazia. Ainda tinha algumas coisas ali dentro. Um sofá, a TV, a luminária de chão. Os DVDs. Só dramas. As comédias tinham sido levadas. Alberto riu-se um pouco. “Deve estar rindo agora também.” Fechou a porta, continuou olhando a sala, deu a volta por trás do sofá, abriu a janela, voltou e sentou. Ligou a TV. Num desses programas de fofoca algo sobre um casal de famosos que acabaram de terminar um casamento de 23 anos. “Muito tempo.” Uma brisa correu a sala. Um vento. Derrubou um porta-retratos de cima da estante. Não havia foto alguma. Olhou o espaço vazio como contemplara a televisão. Mais do que contemplara a televisão. “Tempo o suficiente.” Desligou a TV, tomou a mala na mão, saiu para o quarto cantarolando.

domingo, 25 de dezembro de 2016

cartinha para noel (ou um conto de natal ou seja meu daddy, noel)

querido papai noel

esse ano, hein? foi um ano daqueles... eu sei que me comportei bem. juro! não lembro de ter feito nada de mais, assim. tirando aquela vez que cuspi na cara de vanessa no meio da sala. mas aí ela também pediu, né? ninguém mandou me chamar de bichinha na frente de todo mundo do trabalho. tudo isso por pura birra, só porque transei com o namorado dela. mas não foi culpa minha, papai.

nossa, nunca tinha pensado como isso é sexy, pensa que em inglês seu nome não é daddy claus, seria um tesão te chamar de daddy, enquanto sento em seu colo. mas voltando...

a culpa de eu ter transado com guto foi toda dele. tudo bem que eu deixei ele beber um pouco mais e fiquei falando aquelas putarias. mas eu sempre falo, cê me conhece. bom, e ele não precisava ter colocado o pau pra fora só pra me mostrar como tava. daddy, de onde eu venho, isso é sinal pra "quero uma mamada, faça". e foi o que eu fiz. foi bom, papi? foi ótimo. e ele gostou? ele adorou! tanto que da segunda vez ele estava sóbrio. e foi ele quem insistiu, inclusive, pra me comer. eu não queria, mas dei, só porque sou um cara legal (o que reforça a ideia de meu bom comportamento esse ano) e não sei dizer não. ainda mais pra um homão daqueles... se você curtisse homens, saberia o que eu estou dizendo.

eu nunca quis que aquele namoro terminasse. e você sabe que não foi querendo que mandei aquela minha foto mamando o guto pra vanessa. foi total culpa da tecnologia. uma merda. e também, aquela piranha tinha que reconhecer a piroca do cara assim tão fácil? desculpa, ela não é piranha [cortar isso na versão final].

poxa, daddy claus, posso te chamar assim? queria me defender também naquela história do professor. essa eu não tive um porcento de culpa. você deve saber. se a esposa dele descobriu as mensagens no celular dele e se separou, a culpa é minha? eu nem respondia nada pra ele. todas as vezes que ele deu em cima de mim eu disse que não. eu juro. só daquela vez que eu dei a entender que um dia poderia ficar com ele, mas era só pra conseguir a nota na disciplina dele. eu nunca faria nada. odeio pegar homem casado. com filho, pior ainda. (viu que eu sou um bom rapaz? eu penso nas famílias).

tudo bem, não penso tanto na minha. eu sei, daddy. mas é que meu irmão é um escroto, né? traindo minha cunhada com a irmã dela. era muito errado. eu tinha que contar. mas como eu ia saber que minha cunhada tinha problemas cardíacos. ela parecia tão saudável. mas graças a deus está tudo bem. e aquela tonta ainda voltou pra ele, sabia? burra, nem tem como defender.

bom, daddy, nesse natal, eu queria que o senhor me trouxesse um grande amor. estou cansado de ser biscate e pegar o porteiro de meu prédio. tenho pena da esposa dele quando a encontro. seria legal ter alguém pra mim.

pode ser você, mas só se você largar a mamãe noele.

te amo, beijos.

p.s.: essa parte de ser você era brincadeira, não quero ser responsável por mais esse fim de relacionamento.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

De volta para o futuro

Se você pudesse se ver daqui a dez anos, teria coragem de ir até lá? Ou iria preferir esperar esse tempo passar para saber aonde suas escolhas te levariam? 

"Como ter boa notícias em tempos como esse?" - me pergunto.

Meia-noite, dizem ser a hora de Exu, deus africano da comunicação. Que ele saiba nos guiar para um futuro sem desentendimentos. Tá aí, deve ser isso. Não estão fazendo oferendas suficientes para ele. 

Que os deuses e as deusas nos protejam.

Queria só garantir um futuro bonito. Mas só tentando...

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

miríade de sonhos

tem que sonhar, menino. minha vó me disse isso tantas vezes. eu nunca acreditava muito. colocando minha fé nas minhas certezas. todas inúteis e completamente fluidas.

como sonhar, minha avó?

sonhar como ela sonhava.

ela sempre desejou uma cama de madeira com um colchão que não fosse de palha. aos 76, conseguiu. um sonho a menos. ela quis a vida inteira uma casa própria. grande foi a surpresa quando conseguiu a papelada da casa onde morava.

sonhar. é isso.

mas só sonha quem dorme? posso sonhar acordado?

mais uma vez, a resposta veio dela, que só sonhava acordada. e tinha medo de dormir e dormir.

não só é possível como é a única forma. o sono se alimenta de sonhos.

domingo, 25 de setembro de 2016

Tarde de inverno

Acordei de um cochilo no meio da tarde. Estava frio. Vesti um casaco que estava jogado num canto do quarto. Muito vento na janela fechada. Sabe quando a chuva vem acompanhada por vento? E se torna violenta? Como aquelas palavras que trocamos quando com raiva. Que, na verdade, nem são violentas, mas a força com que saem de nossos pulmões pode até ferir.

Abri a janela e senti a chuva fina e fria molhar meu rosto. Precisava de um café para compor a cena de comédia romântica. Aquela sequência em que os casais se separam e todo mundo no cinema só espera a solução da distância, que é só fruto de uma grande confusão dos personagens. Providenciei o café e o cigarro (cigarros, claro, como sofrer sem café e cigarro?).

Falta ainda uma coisa. Faltou a música. De todas as comédias românticas que eu vi, qual delas me daria uma trilha sonora? Olhei todos os meus discos. Dos que estão em minha biblioteca no iPod. The Winner Takes It All. Que música linda do caralho. Já chorei tanto escutando. Cantei com Meryl Streep todas as 16 vezes que assisti a Mamma Mia! (e todas as outras que coloquei o DVD apenas para ouvir as músicas).

Café, cigarro, música. O que mais faltava? Lágrimas? Não.

A chuva diminuiu sua força contra a vidraça. Voltei a abrir a janela e, dessa vez, nenhum pingo veio em minha direção. Acho que a magia estava se encerrando.

O café já tinha acabado, o cigarro também.

Takes it all. Has to fall. And it's plain. I complain.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Do livro de Samuel

Sabe o que eu lembrei hoje pela manhã? De como me senti ao ler em seu diário, as peripécias que você aprontou enquanto eu estive na Argentina naquele meu trabalho.

Foi uma cara de cu a que eu fiquei ao saber que você tinha aproveitado que eu estava fora do país para realizar uma de suas fantasias. E, pra dizer a verdade, nem sabia que você sonhava em transar com meu irmão. Foi lindo descobrir isso.

Sabia que na hora até pensei que a gente poderia trepar os três, sei lá, uma foda a três com você sendo dominado por nós dois. Não era isso que você queria? Sentir um macho de verdade te dominando? Pois, teria dois. E pra mim isso seria extremamente excitante. Ainda é.

Depois de ler aquilo tudo, fiquei me perguntando por que você nunca me disse isso. Cê sabia que eu não ligaria. Até porque eu mesmo já tinha falado sobre como meu irmão era gostoso, das vezes que a gente tinha batido punheta juntos, que eu já tinha assistido a ele transar com várias meninas que levava lá pra casa, sem ele saber, claro. Já tinha falado a você tantas vezes sobre o pau dele, a bunda, como ele metia bem, rebolando, como ele chupava bem uma boceta, que nunca tinha deixado uma garota sair sem gozar.

E você se fazendo de puritana, como se eu não percebesse seu pau duro sempre que narrava essas histórias. E você sabia que eu sabia. Mas preferiu que eu fosse para longe para poder liberar pra ele. Idiota.

E ainda negou quando perguntei. Me fazendo de burro. Amor, não precisava mentir. Era só ter dito tudo desde o início. Você tentando esconder como se eu ligasse para isso, quando você sabe que a única coisa que eu não perdoo é deslealdade. Sua fidelidade é ao seu desejo, não a mim. Minha raiva é de mentira.

Em falar nisso, Tamar está muito bem. Voltou a namorar aquela menina. Mandou lembranças. Risos. Jamais saberá que eu sei que ele te comeu.

A propósito... Foi bom?