Porque você achou que nada disso era de verdade. Porque você achou que estaríamos criando ilusões desde que nos vimos pela primeira vez. Talvez seja por isso que nada foi verdade enquanto andávamos de mãos dadas o trocávamos beijos apaixonados na areia da praia ou ainda as juras de amor em bilhetinhos papel cartão. Eu sempre soube que não poderia ser assim, mas você nunca quis me ouvir. Agora que nós já entendemos do que se trata, sim, se trata exatamente da hora em que acenamos sem graça e com olhar encharcado, agora podemos cumprir a promessa de nos deixar quando déssemos conta de que a história acabara de chegar ao fim.
terça-feira, 21 de agosto de 2012
segunda-feira, 28 de maio de 2012
escorpião
acendeu o último cigarro que encontrou no maço. tomou uma média pra tirar o bafo dos pesadelos. ainda estava acordando. e na mente, ainda podia ver o escorpião caminhando pelo seu corpo. não podia sequer fechar os olhos para um bocejo que voltava a sentir o passeio do escorpião por seu pescoço. e quando abria os olhos não se sentia aliviado por parecer que ainda sonhava. pelo contrário, ficava até desapontado em ser tudo um produto de sua cabeça. o escorpião ia sumindo de sua mente, como qualquer sonho faz depois do despertar, mas ele se esforçava para lembrar. forçava os olhos fechados para que as patas do escorpião não pudessem sair do emaranhado formado com seus cabelos. tentava manter na memória as pinças que numa cena prendia seus lábios e o impedia de falar. pesadelo. sonho. não sabia o que era, de fato. mas queria deixar isso guardado. já no final do cigarro, lembrou de como fizera para se livrar. apenas um sopro e o escorpião mudara de forma. passava a ser imagem, desenho no papel. inofensivo. inofensivo. acordou e no mesmo papel pintado com o veneno do escorpião, enrolou um baseado.
quarta-feira, 28 de março de 2012
Sem título
Quantos querem os desejos mais internos
Explanar a essência e algo a descobrir
Nunca mais o resumo foi
O meio de aprendermos a novela
E me parece que ela não deseja mais
E quando será que a nova poesia vai surgir?
Se ele nem sequer sabe se vai mesmo ter poesia nessa história
Esqueceu o que queria dizer no meio dessas palavras
Deixa pra mais tarde essa arte de brincar
Não dá pra saber se vai ser sim ou não.
domingo, 22 de janeiro de 2012
Tereza
Andava pela areia catando conchinhas
Cada passo deixando marcas
Deixava o cabelo solto ao vento flamular como uma bandeira
A barra do vestido molhada
E ela apenas ia.
Cada passo deixando marcas
Deixava o cabelo solto ao vento flamular como uma bandeira
A barra do vestido molhada
E ela apenas ia.
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
Tranquilizante
Derramei um punhado dos comprimidos em apenas uma das mãos. Apanhei o copo de água que estava sobre a mesa. Com um em cada mão. Não sabia qual passo dar em seguida. Na verdade, sabia. Tive medo. Medo de sentir dor, medo do inferno. Fiquei pensando nas prováveis lágrimas de minha mãe. Mas será que ela choraria? Claro, mães sempre choram. Pensei. Tomei só o copo d'água.
domingo, 13 de novembro de 2011
miserere nobis
porque eram todos papéis em verdade. não eram nada bons. não eram nada ruins. eram apenas personagens do grande espetáculo armado pelo destino. e deus o dono do palco, brincando com as vidas, dono da festa e da balbúrdia inteira. quando morreu não sabia se queria mesmo a morte, mas deus, sabido que era, matou-o antes mesmo dele o fazer. deus sabe tudo. até da hora de acabar com a história de alguém. esse deus de vocês é um grandissíssimo fanfarrão. um diretor medíocre. um péssimo ator de si mesmo. um bêbado sentado no meio-fio.
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Antônia e Alfredo
Antônia sentou na cama. Era a mesma cama há 50 anos. É claro que havia passado por algumas reformas, alguns riscos feitos pelos filhos, netos, afilhados e sobrinhos que passaram por lá. Nada que tivesse destruído a beleza do móvel de madeira de lei. Era mogno, puro mogno. Umas repinturas em verniz e estava boa de novo. Antônia se orgulhava do presente de casamento de sua já ausente madrinha.
Lembrou nesse instante em que sentava na cama de todas as histórias já passadas naquele quarto. Seus filhos brincando, suas netas escondendo-se do avô debaixo da cama, a empregada que volta e meia tropeçava numa tábua de madeira solta do chão. E riu. Riu da cara de raiva que a empregada sempre fazia resmungando e ameaçando retirar a tábua para nunca mais bater o pé. Ela nunca tirara. E a tábua continuava ali, onde sempre estivera. Agora não fazia mais ninguém tropeçar. Todos já tinham aprendido que não deviam andar por ali ou que deveriam ter cuidado ao passar por ela.
Lembrou-se de outra coisa. Na verdade, se deu conta de como a cama estava fria. No inverno era a única coisa que odiava, ter que deitar na cama fria. Desde que Alfredo morrera, ninguém nunca mais esquentara a cama com ferro de passar antes dela deitar. Para Antônia. era assim que Alfredo provava seu amor por ela, mesmo tantos anos depois de casados. E Antônia se sentiu afagada por sua lembrança. Mas Alfredo não estava mais com ela.
Há sete anos dormia sonhando em acordar do lado de seu amado. Há sete anos nutria a esperança dele buscá-la. Sempre antes de dormir colocava seu vestido azul e o broche que usara no dia de seu casamento. Era como um ritual, um novo sim que dizia a cada noite. Fazia suas preces e incluía nela sempre a memória do marido. Deitava do lado direito da cama e nunca ultrapassava o limite imaginário que existia nesta, que guardava o lado esquerdo para Alfredo. Ainda colocava um punhado do perfume do marido no travesseiro do lado. Toda noite se preparava para recebê-lo.
Na manhã seguinte, Antônia terá realizado seu sonho. Já estará arrumada, pronta para o encontro. E estará tão feliz por isso que as lágrimas dos outros derramadas por sua ida serão em vão. A alegria do reencontro será muito maior que a perda e a saudade que ficarão. Enfim Deus unirá de novo o que por teimosia separou e Antônia e Alfredo poderão viver seus felizes para sempre.
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
Insônia
Era madrugada de terça-feira e Marcelo não conseguia dormir. Trabalharia, no dia seguinte, com os olhos vermelhos. Era um conjunto de emoções que nunca tinha experimentado. Putz! Em pensar que Marcelo era só um jovem apaixonado. Não sabia que a paixão doía tanto. Todas as vezes que dissera-se apaixonado, mentira para si e para todas as que escutavam. Mas dessa vez era diferente. Estranhamente diferente.
Insônia era uma realidade nova, medo de perder também. As lágrimas de saudade também. E que droga estava fazendo que não tinha ligado ainda. Mas era alta noite. Não devia ligar para ninguém uma hora dessas. Deitou na cama e olhava para o teto, como contemplasse o universo inteiro. Daí então, pode sorrir. Gargalhou, na verdade. E só uma cena lhe vinha à mente. Um beijo inesperadamente recebido, um susto, um olhar encabulado e uma fuga desajeitada.
Marcelo queria entender. Era jovem, mas não a ponto de não ter tido experiências de amor. Sentia como se fosse explodir. E tinha no peito um ardor. Queimava como nunca antes sentira. Parecia que ia morrer. Pensou que não deveria estar se sentindo assim. E quanto mais pensava, mais doía. E mais sentia. E mais gostava de sentir. Desistiu de lutar contra.
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Ana
A chuva fina caía sobre ela, enquanto caminhava pelo largo corredor de árvores centenárias. Não sabia o que estava fazendo ali. Se sentia perdida, mas ao mesmo tempo, era como se pudesse ser feliz. Ana olhou para cima e viu as folhas balançarem no alto, os fios da rede elétrica pingando gotas de água. Começou a sorrir. Na verdade, gargalhava. Era uma felicidade que não sabia de onde vinha. Uma felicidade que nunca mais tinha sentido. E os pingos da chuva foram ficando mais fortes. E confundiram-se com suas lágrimas. E era uma alegria tamanha. Era loucura. Ela gritou. Gritou como se nunca tivesse dito uma palavra sequer. Como se o mundo inteiro a pudesse escutar. Mas ninguém a ouvia. E o que importa nisso tudo? Para Ana, era só saber ser feliz enquanto podia. Logo o sol sairia novamente, a chuva e a alegria iriam embora. Os sorrisos lhe fugiriam à face, como a água escorreria pelos esgotos e secaria no asfalto. Aproveitou os últimos instantes que sabia ser feliz e viveu a melhor de todas as experiências.
terça-feira, 26 de julho de 2011
Por Todo Ontem
Olhando para o rosto no espelho, a barba por fazer, o sorriso amarelo e sem graça. Ele era um menino na alma. Não sabia se comportar diante de tantas mudanças. Lavou o rosto e voltou a olhar o espelho. É, era capaz de se reconhecer. Mas não sabia ao certo o quanto queria ser daquele jeito. De qualquer forma, ele era capaz de ver no espelho um rosto com o qual ele conseguia se sentir agradável.
Mas por fora de seu banheiro, nada era como ele queria. Ele, decerto, tinha sonhos, mas nenhum deles era tão próximo quanto desejava que fosse. Era apaixonado, mas não sabia como externar esse sentimento. Tudo em sua realidade era tão distante. Ele era jovem, mas não era assim que se sentia. Ele era um rapaz bonito, mas não fazia sucesso algum com as garotas. Ele não se importava com isso. Sucesso com garotas era o que ele menos queria fazer. Nem com garotos, antes que concluam que era gay. Assim, pregava sua liberdade de beijar qualquer um que quisesse beijar.
Ele se sentia mesmo um viajante. Não se achava em casa, mesmo morando naquele endereço desde que nascera. Seus pais, já mortos e sua irmã, um ano mais velha que ele, nunca fizeram questão de sair de lá. Ele não, sempre sonhou como seria o mundo longe da rua estreita e arborizada onde morava. Sempre pensou que seria um lugar bonito lá fora. Lá longe, onde não pudesse lembrar de como as folhas caídas do outono tremilicavam quando os carros silenciosos dos ricos vizinhos passavam por cima delas. Ou ainda onde não precisaria ver o ônibus escolar passar toda manhã carregando as crianças para o colégio. O mesmo motorista que um dia também o levou.
Saiu do quarto, olhou ao redor, as roupas de seu affair jogadas pelo chão. Achou graça daquilo tudo. Arrumou as roupas num canto da cama, olhou pra ele e pensou que se fosse outra pessoa qualquer, estaria sentindo a mesma coisa. Nada. Não sentia nada.
Decidiu, ali, que passaria um tempo fora daquela cidade, morando num lugar qualquer longe de todas as coisas que aprendera a odiar com o tempo. Começou, então, a fazer as malas.
Local:
Salvador - BA, Brasil
quarta-feira, 6 de julho de 2011
Tarde de Outubro
Amadeu estava correndo atrás de seu passado. Escreveu uns números num pedaço de papel. Não era nada importante. Não com essa importância pensada por todos os normais. Eram só números. Sentou na poltrona que um dia fora de seu avô, já reformada por três vezes, acendeu um cigarro, pegou a xícara que estava na mesa ao lado e tomou um gole de café.
Sentiu saudades, de repente, de um sentimento do passado. Amadeu não era tão velho assim, portanto seus sentimentos não eram tão velhos também. Mas ele sentia uma falta repentina de algo que não sabia o quê. Sentiu-se vazio. Sentiu-se desnecessário. Sentiu que ainda precisava sentir esse algo de novo. Essa sensação boa de pertencimento. Era assim que Amadeu estava se sentindo hoje. E ele preferiu não sair de casa.
Amadeu não era cristão ou religioso. Na verdade tinha até um pouco de asco da religiosidade alheia. Não era comunista, nem liberal. Fazia suas compras, pagava seus impostos, contratava serviços, como qualquer ser humano. Até se deu ao luxo, certa feita, de pagar uma dessas mulheres da internet. Não era de Deus que ele sentia falta. Talvez fosse maior que Deus, o que procurava. E era mesmo. Ele só não sabia o que era.
Mas Amadeu sabia que não podia encontrar isso em lugar algum. Ao menos era a experiência que ele tinha. Sentado, no seu segundo cigarro, com sua terceira caneca de café, lembrava-se de todos os espaços que já tinha frequentado na vida: entre eles a igreja, não mentia pra si mesmo.
Por um momento, lembrou dos sonhos de sua mãe para a sua vida. Faculdade, esposa, filhos. Não, ele nunca quis isso. Sempre sonhou pra si mesmo uma viagem pela Ásia, fotografias na Austrália, um café num bistrô em Paris. Não realizou nenhuma. Mas ainda sonhava. E não. Não era disso que sentia falta.
Hoje era um dia atípico. Ele não era assim todos os dias. E na verdade nem se dava tanto a esses luxos. Acendeu mais um cigarro, dessa vez um baseado. Quando se sentia assim, perdido no mundo e desencontrado, fumava um pouco. Mas não pra se sentir melhor, pra poder fazer a situação se agravar e tentar no caos, buscar a solução para as suas faltas.
Chegou a uma conclusão importante: não era o único a se sentir assim. Mas isso não o fazia se sentir melhor, ainda. Não fazia mais ideia do que sentia. Mas já não estava mais tão abatido quanto tinha acordado. Abriu os olhos e viu que tinha ficado horas pensando em si. Levantou da poltrona que um dia fora de seu avô, reformada por três vezes e saiu da sala catando pontas de cigarro e levando a caneca para a pia. Lavou a caneca. E a água que escorria pela torneira era só a água que escorria pela torneira, nada além disso.
Local:
Salvador - BA, Brasil
sexta-feira, 27 de maio de 2011
O Boteco: Helena Candy
Saiu do banheiro, ainda pingando. Enxugou o corpo andando pelo quarto. Estava atrasado. Não sabia porque tinha dormido tanto. Mas agora que estava acordado, precisava correr contra o relógio. Alberto abriu o guarda-roupa, não o da direita. Essa noite era o dia de abrir o guarda-roupa da esquerda. E ele adorava. Escolheu o vermelho com lantejoulas. Ele sempre arrasava vestido daquele jeito. Depois de vestido, sentou numa penteadeira que herdara de sua avó. Uma penteadeira dessas de camarim! Sua avó era uma atriz. Não era nenhuma estrela, mas muito boa atriz. E isso fazia ele se sentir muito agraciado!
Sentado na penteadeira, tomou o estojo de maquiagem, algumas coisas estavam acabando, mas ele não precisaria delas essa noite. Começou a se maquiar e depois de algum tempo, quem olhasse para ele não reconheceria mais o Alberto. Na verdade ele não era mais Alberto naquela hora. Agora de chamava Helena Candy! Mas faltava ainda algo pra que Helena fosse, de verdade, ela!
Tomou uma peruca ruiva, corte Channel, colocou na cabeça e se olhou no espelho. Deu uns últimos toques na maquiagem e saiu. Diva em si mesma, não precisava da aprovação de ninguém pra ser.
E quando todos estavam desatentos subiu no palco cantando: "Babaluuuuuuuuu"!!!
sexta-feira, 8 de abril de 2011
Bastian Baltasar Bux
Escrevendo num papel de pão algo que sentia há algum tempo no coração. Sofreu muito antes de escrever. Mesmo porque não sabia se queria de verdade escrever aquilo. Era uma poesia. Uma moça, um moço, um monte de sonhos. Soube, sete minutos após começar, que não sentia mais nada daquilo que escrevia. Mas ele não se importava em mentir pra quem o lesse. Era isso! Ele não era um escritor. Ele é um mentiroso.
No final, assinou um outro nome que não o seu. Assinou com o nome de alguém que nem conhecia. Sei lá! Talvez nem se conhecesse o suficiente.
E deixou o escrito jogado no primeiro banco de praça que viu. Provocaria os olhares e corações curiosos por ali.
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
Do Rapaz Mentiroso (ou Abortado)
Ele falou primeiro em esperar a maré baixar. Mas depois pensou melhor e falou em deixar as coisas acontecerem. Ele ainda falou, e eu me lembro, que não acreditava em ninguém. Mas ele mentiu diversas vezes, e o pior, mentiu pra todo mundo. E ninguém na sua cidade sabia de fato quem ele era. E com os olhos cheios de água, saiu a despedir-se de um e outro na cidade como se nunca mais ele fosse voltar. Encontrou a dona dos seus sonhos velhos. Jogou nela os novos sonhos. Pôs um tanto de rancor e rispidez na voz e se deixou abandonar pelo texto decorado desde outrora.
A madame, então, chorou muito, como era de se esperar, como estava no script. E todos da cidade ficaram impressionados e não sabiam o porque daquilo estar acontecendo.
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Céu
Abriu um sorriso que
guardara por tanto tempo
Colocou em cima da cama as fotografias velhas
E ria como nunca mais rira
As estrelas presas no seu céu brilhavam como numa
Noite de baile
Como se casais estivessem se apaixonando naquele
Exato momento
guardara por tanto tempo
Colocou em cima da cama as fotografias velhas
E ria como nunca mais rira
As estrelas presas no seu céu brilhavam como numa
Noite de baile
Como se casais estivessem se apaixonando naquele
Exato momento
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
A Apaixonada
Se animou e tomou a caneta e um papel cartão vermelho. Enquanto no rádio tocava uma música francesa que ela sempre ouvia quando seu pai ainda era vivo, ela acendia um cigarro e bebia pequenos goles de um vinho que há muito queria abrir. Sozinha na sala de casa. Suas personagens estavam todas dormindo. Ela não podia mais escutar suas vozes em sua cabeça.
Escreveu uma carta apaixonada à mulher de sua vida. A mulher que prometera nunca mais amar. A mulher que estava em sua cabeça há anos. Como um passe de mágica, ouviu a voz de Paulo Henrique. E como não pudesse ser vista com esta carta de amor proibida, escondeu-a embaixo da almofada do sofá.
Paulo Henrique saudou sua esposa com um beijo. Ela correspondeu fisicamente. Em sua cabeça não era ele que a beijava.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
O Boteco: A Cena
Estava com um vestido lindo. Era novo. Acabara de comprar numa dessas lojas de gente rica. Tinha comprado especialmente para aquela ocasião. Então, tinha entrado naquele boteco pra saber como era e tinha adorado. Prometeu que voltaria tão logo quanto achasse um bom motivo para beber. Acendeu um cigarro. Ela aceditava parecer uma dessas damas de revista chique ou da novela da televisão. Era loucura, ela sabia. Mas queria uma vez apenas se sentir como se sentem essas mulheres.
Pediu uma mesa pra dois ao garçom. Não teria um encontro. Não era do tipo de mulher que tem encontros. Apenas não tinham mesas pra uma pessoa neste lugar e o balcão não era lugar para uma dama como ela.
Sentou, com seu cigarro ainda incensando o ambiente, pediu gin e tônica e bebeu devagar, como degustasse um bom vinho.
Pensava em algo vivido no passado, como a morte de sua mãe, ou a despedida de seu pai no dia de sua mudança para a capital. Pensava em algo triste para fazer as lágrimas descerem seu rosto. E elas desceram.
E a maquiagem, com tanto trabalho colocada, escorria pela sua face, como a chuva lavando a areia de uma colina. E borrada, a maquiagem tornava mais trágica aquela cena. Uma mulher. Uma dama.
Estava como ela queria. A cena estava completa. Não precisou ter um amor perdido, um animal de estimação morto ou um grande desespero. Só queria saber como era ser a mulher estranha de maquiagem suja e com cigarro na mão, para quem todos olhavam naquele ambiente.
Como se nada tivesse acontecido, pediu a conta. Ainda em lágrimas, pagou ao garçom, levantou-se e saiu. Saiu sem olhar para trás, sem limpar o rosto e sem apagar o cigarro
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
O Boteco: Aniversário de Pierre
Acendeu um cigarro. Sentado sozinho numa mesa de bar, pediu um chopp e fumava. Sentia falta disso. Há muito tempo não se dava esse pequeno mimo. Mas era véspera de seu aniversário, podia fazer isso e não se preocupar com o mundo à sua volta.
Apesar de não estar dando a mínima atenção ao mundo que girava em seu redor, Pierre notou a entrada de Solano no bar. Como não notar? Era o cara mais bonito que seus olhos haviam visto.
Solano tinha a boca bem vermelha, olhos castanhos e pele bronzeada de sol. Não era forte, nem franzino, tinha uma cara de homem, com a barba por fazer, sobrancelhas grossas, mas desenhadas pela natureza a fim de garantir bom resultado à escultura de Deus. Assim que Solano percebeu o olhar tão encantado de Pierre, abriu um sorriso. Era o sorriso mais belo e mais gracioso de todo o ambiente.
Solano sentou próximo ao balcão, pediu uma dose de whisky e rezou ter coragem de falar com o homem mais gostoso e, no entanto, solitário do bar.
Pierre, como estivesse escutando as preces de Solano, levantou-se, perguntou se poderia sentar ao lado dele. Claro que sim, respondia o sorriso de Solano. Conversaram, Pierre disse que no dia seguinte seria seu aniversário e então, seu mais novo conhecido decidiu que comemorariam a partir daquele instante. Um beijo selou este momento e o resto da noite passaram agarrados um ao outro. O resto dessa noite e as outras noites seguintes dos treze anos seguintes e até hoje.
domingo, 28 de novembro de 2010
A mulher ao pé do prédio (ou Bóris escreve histórias das quais não se sente dono)
Bóris passou, então, a rabiscar algum papel que encontrara na sua mesa de trabalho. Riscou quase todo o papel, mas deixou no centro uma figura que lembrava um triângulo, nada muito regular, ou desenho digno de um arquiteto. Era apenas o desenho de um cara desencantado com a meia dúzia de histórias que era obrigado a escrever todos os dias. Histórias que não lhe pertenciam, que não saíam de sua boca, nem sequer de seu coração. Escrevia assim, todo dia, a fim de pagar suas contas. Não, não sairia dali apenas porque queria ser livre para colocar no papel as suas histórias, não sairia dali porque sonhava em ver as pessoas no palco representando o que escrevera. Não sairia dali pois sabia que não teria sucesso em lugar algum, em momento algum da vida. Sabia que não seria aceito fora dali, que seus conhecidos todos não o apoiariam nessa loucura. E, a propósito, não sairia dali pois tudo o que conquistara estava ali e ali era o melhor lugar onde estivera toda a vida, mesmo não sendo o lugar do seu coração.
Enquanto tomava um café, olhou para baixo do prédio não muito alto, no centro da cidade. Conseguiu avistar de lá de cima uma mulher parada em frente ao prédio que parecia num impasse entre entrar e não entrar no prédio. A mulher olhava o relógio, tomava o celular na mão, colocava a mão na cintura, ou no bolso, ou alisava o cabelo. Ele reconheceu a mulher. Sabia quem ela era, mas não queria descer e encontrá-la. Lembrou de suas histórias, não a meia dúzia diária, mas aquelas que guardava na gaveta do criado-mudo herdado de sua vó. Lembrou que ela o inspirara numa delas e lembrou perfeitamente toda a história.
A mulher continuava lá na porta do prédio. Não demorou muito e tomou coragem de dar um passo. Mas a coragem não era suficiente para fazê-la entrar, era descoragem. Saiu da frente do prédio onde Bóris trabalhava. Saiu do ângulo de visão de Bóris. E como num passe de mágica, saiu da cabeça dele, a história que escrevera pensando naquela mulher.
Voltou à sua mesa onde achou o triângulo desenhado. Lembrou que precisava fazer novas histórias, ainda não chegara na quarta. Tossiu e recomeçou a escrever.
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
Bóris
E como fazia todas as manhãs, acordou com vontade de mudar o mundo. Colocou sua roupa de super herói, penteou os cabelos, escovou os dentes, comeu uma maçã do herói e abriu a porta. Saiu da toca secreta do herói. Mas ao chegar ao portão se deu conta que era herói de nada algum e, então, saiu de casa apenas tentando não morrer naquele dia!
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
American Pie
Eram sete e meia da manhã e ela não acordara, porque ainda não dormira. Mantinha os pés quentes, apesar do inverno que fazia do lado de fora do cobertor. Não conseguia fechar os olhos e relaxar. Parecia que estava com algum estimulante, mas nem uma trepada, nem sequer uma tinha dado. Não trepava há algum tempo. Mas isso também não importava. Há muito não achava o pau ideal. E preferia ter em suas mãos, boca e boceta o pau ideal. Não, qualquer pau não servia.
E ao invés de passar as noites nos bares com as amigas à procura de alguém, matava suas noites em café, chocolate e cerveja, mas esta última só de vez em quando. Só nos momentos em que queria se sentir parte de um mundo normal.
Então o rádio-relógio apitou oito horas e ainda nenhum sono tinha chegado em seus olhos. Pensou que seria melhor se levantar e se vestir para o trabalho, afinal às oito já estava um pouco atrasada. Lembrou-se que era feriado nacional. E o desfile com carros e cavalos, provavelmente estaria, dali a instantes, na televisão. Mas não ligou a TV. Preferiu não ver nenhum cavalo cagando a rua inteira. Preferiu apenas continuar deitada. Por ela, morreria naquela situação. Deitada na cama, sozinha.
A cama não era de casal. Era uma cama de solteiro. E ela sempre preferiu. A cama de casal lhe dava sempre a impressão de estar só. E isso, apesar de se seu desejo, não era muito bom. Gostava de ser a mulher independente e solteira e dona de seu próprio nariz, mas não lhe apetecia a solidão em noites como a anterior, de inverno.
Não suportava ver o relógio de parede caminhar e os pássaros cantarolando felizes apesar do frio, já lhe davam certa agonia. Desejou naquele momento controlar os pássaros e fazê-los calar a boca. Calar o bico, quis dizer. Desejou no instante seguinte que seus vizinhos não conversassem na varanda, que o moço vendedor de pamonha não tivesse nunca comprado aquele megafone e que o rádio-relógio não apitasse a cada hora.
Bom, estava cansada de não conseguir dormir. Ligou a TV. Talvez os cavalos a entretesse. Calçou as pantufas com estampa de cachorro pra aquecer mais ainda do inverno denso que invadia impiedosamente seu quarto. E então, como mágica provocada pelas crianças do coral que, neste momento, na TV, cantavam a música que seu pai costumava cantar antes dela dormir, ela caiu em um sono profundo de mais de quinze horas e não quis saber de mais nada. Nem da saudade do pau, nem da saudade do pai. Nem da vontade de calar os passarinhos, nem de calar a pamonha. Nem na cama de casal ela pensava mais, muito menos na possibilidade de um dia chegar a ter uma. E a TV, ao invés de feriado, anunciava a morte de um cantor lenda do Rock, cuja principal canção embalava o sono da insone moça.
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Um Monte de Palavras Descontroladas e Sem Sentido Algum
Vidro.
Papel.
Estrela.
Canhão.
Vidro.
Vinho.
Leite.
Esquema de Intrigas.
Raiva.
Revira.
Volta.
Bota.
Mosca.
Cortina.
Vômito.
Padre.
Marinho.
Bené.
Dito.
E feito e faço e faca.
E medo.
Papel.
Estrela.
Canhão.
Vidro.
Vinho.
Leite.
Esquema de Intrigas.
Raiva.
Revira.
Volta.
Bota.
Mosca.
Cortina.
Vômito.
Padre.
Marinho.
Bené.
Dito.
E feito e faço e faca.
E medo.
Noite de Desafetos
Odeio esse coração amargurado que carrego batendo a cada segundo.
E esse samba que não pára de tocar em minha cabeça.
E odeio quando não encontro minhas lembranças.
E quando fica mais fácil chorar do que rir.
Odeio quando o dia nasce e eu ainda não aprendi a viver o ontem.
Odeio quando a TV só tem notícias sobre caretas.
Odeio quando a minha caneta falha no meio de um poema.
E odeio quando a esperança é a primeira que morre.
E esse samba que não pára de tocar em minha cabeça.
E odeio quando não encontro minhas lembranças.
E quando fica mais fácil chorar do que rir.
Odeio quando o dia nasce e eu ainda não aprendi a viver o ontem.
Odeio quando a TV só tem notícias sobre caretas.
Odeio quando a minha caneta falha no meio de um poema.
E odeio quando a esperança é a primeira que morre.
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
A Canção Dos Esquecidos
La la la la la la la la la la la la
Canção de amor.
La la la la la la la la la la la la
Coragem de andar
La la la la la la la la la la la la
Sorriso amarelo com dentes em aparelho
Escreveu sem saber o que realmente queria dizer
Mas manteve as coisas escritas, ainda assim.
E depois de tudo, resolveu pensar em quanto tempo perdeu
E chorou uma pá de lágrimas que não tinha gosto de nada
Gritou um nome que ninguém pôde escutar
Uma melancolia estranha e de repente
Estava louco mais uma vez
Estava rouco mais uma vez
Estava pouco mais uma vez
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Olhar Encharcado
Lembra daquela vez, sentados no Porto?
Onde não podíamos explicar o que estava acontecendo?
E os olhos cheios de amor?
E os pés cheios de areia?
E a cabeça cheia de sonhos?
De lá até aqui, só mesmo restou o olhar encharcado.
E mesmo que estejamos na mesma areia,
Olhando o mesmo mar,
Sentados no mesmo lugar que
Outrora visitamos para sonhar com o futuro,
Mesmo que encontremos
O mesmo vendedor de cigarros
Que nos contou muitas de suas
Histórias de amor,
Ou que passemos perto dos velhinhos
Que sorriram ao nos ver apaixonados.
Mesmo isso!
Nada será suficiente para
Trazer de novo
Aquela brisa que vinha com os cafunés
E com as nossas mãos entrelaçadas.
Onde não podíamos explicar o que estava acontecendo?
E os olhos cheios de amor?
E os pés cheios de areia?
E a cabeça cheia de sonhos?
De lá até aqui, só mesmo restou o olhar encharcado.
E mesmo que estejamos na mesma areia,
Olhando o mesmo mar,
Sentados no mesmo lugar que
Outrora visitamos para sonhar com o futuro,
Mesmo que encontremos
O mesmo vendedor de cigarros
Que nos contou muitas de suas
Histórias de amor,
Ou que passemos perto dos velhinhos
Que sorriram ao nos ver apaixonados.
Mesmo isso!
Nada será suficiente para
Trazer de novo
Aquela brisa que vinha com os cafunés
E com as nossas mãos entrelaçadas.
domingo, 22 de agosto de 2010
A Carta de Letícia (ou Aquele Texto Pós-adolescente)
E agora?
Não, não o José!
E agora? Você?
Sem querer ser plágio.
Mas e agora?
Não havemos de ser tão pobres na alma
Não havemos de querer um mundo mais cinza do que colorido
Não há mais estradas tão tortuosas e tão cheias de neblina
As estradas são estradas, dentro da minha cabeça.
E as muitas horas perdidas e colchões manchados de tristeza?
E agora?
Não se farão mais presentes?
Nem virão com uma fita vermelha e um laço bonito?
Acho que não
A mesma água que tomamos ontem
A mesma água pela qual fomos batizados
Essa mesma água já lavou tudo que trouxemos de ruim.
E nos restou um travesseiro
Ao invés de espuma ou penas, há flores de camomila
Ao invés de insônia e maus pensamentos
Há sonhos e velhos desejos voltando à vida
E há beijos de boa noite
E há canções de ninar
E há, como nunca houve, vontade de acordar amanhã.
Não, não o José!
E agora? Você?
Sem querer ser plágio.
Mas e agora?
Não havemos de ser tão pobres na alma
Não havemos de querer um mundo mais cinza do que colorido
Não há mais estradas tão tortuosas e tão cheias de neblina
As estradas são estradas, dentro da minha cabeça.
E as muitas horas perdidas e colchões manchados de tristeza?
E agora?
Não se farão mais presentes?
Nem virão com uma fita vermelha e um laço bonito?
Acho que não
A mesma água que tomamos ontem
A mesma água pela qual fomos batizados
Essa mesma água já lavou tudo que trouxemos de ruim.
E nos restou um travesseiro
Ao invés de espuma ou penas, há flores de camomila
Ao invés de insônia e maus pensamentos
Há sonhos e velhos desejos voltando à vida
E há beijos de boa noite
E há canções de ninar
E há, como nunca houve, vontade de acordar amanhã.
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
Frida
Acendeu todas as velas que conseguiu encontrar em casa
Fez uma oração a todos os santos que conhecia
A todos os orixás, da terra e da água, aos caboclos.
Fez uma canção especial à Rainha das Águas, que é Iemanjá.
Dessa forma continuou a noite inteira entoando louvores e cânticos
Clamando à mãe natureza, aos seus deuses e deusas.
Escreveu num papel uma lista de desejos, já acendera o fogo
Agora queimava a lista,
E como a deixar que o vento soprasse seus desejos aos deuses
Deixou que o vento levasse as cinzas para longe
Cantava durante todo o ritual
Molhou os cabelos com a água abençoada por ela mesma,
Enquanto entoava as canções
Era parte do ritual, se fazer
Parte da natureza também.
Evocou mais uma vez todos os seus deuses, orixás, santos...
Podia sentir o poder de suas orações.
Como um sopro de energia
Não sabia no que resultaria aquilo, mas sentia-se plena
E sua alma já estava em êxtase
Continuou cantando às águas,
Pediu a benção dos céus,
Reza com a vela acesa
Entre dizeres ensaiados e espontâneos
Lágrimas e arrepios e vontade de ser tudo
Como se todo bem e todo mal se encontrasse nela
Como se todo o poder do universo estivesse em seu corpo
Como a magia da noite e do dia pudesse fazê-la completa
Era ela acompanhada por anjos e santos
Era ela comandando exército de bem e mal, numa equivalência
Nunca antes vista
E era nela que tudo parecia convergir
E num vento muito forte, o apagar de todas as velas
E um raio cortando o céu
E a chuva que começava a cair com muita força
E a certeza de estar sendo escutada
Já não entoava mais cântico algum
Calou-se
E ficou sentindo-se parte do universo
Sentido o universo girar contigo
E todos os deuses lhes soprarem segredos aos ouvidos
E caiu num sono tranquilo.
quarta-feira, 21 de julho de 2010
calmante
borboleta em cima da mesa
como um monte de cores em cima
da prancheta
e um
minuto apenas de sobriedade
e um gole na cachaça pra me fazer dormir
e um beijo e uma raiva e um veneno
e sem querer, explodi
desde que eu te vi ontem e me imaginei dentro
de seu corpo
e o meu corpo querendo sentir
contagem regressiva em nossa cama
e dez armar o gozo
pra não se fazer enxergar suor
vai dormir hoje com um pouco de remédios
e vai fazer efeito essa droga que ele fuma?
e esse pó que clareia seu rosto e esconde suas feições
e essa areia que está na sua boca
na sua pele
no seu chão
no chão da sala
se arrasta
moleque cheio de tremores
temores
terrores
atores em cena
e
luz e palco e aplauso
pra puta que pariu
no asfalto
deixou o sangue escorrer
suor e sêmen
escorrerem
e o pouco da noite passada
passar na lembrança
cachaça, porra, fumaça
sonos em borboleta de cores vic
domingo, 18 de julho de 2010
(sem título)
me sobra um olhar no restinho de madrugada
quando planos e sonhos e desejos e quereres
já não têm a mínima importância
se não fosse por um pedaço de lua que ainda se vê no alto
poderia dizer que era pura imaginação
contar estrelas com a cabeça num travesseiro de areia
nunca tinha sido tão gostoso
e as mãos entrelaçadas
e os cabelos
que são enovelados
enovelaram também os carinhos
sobre jogar, no início da manhã
presentes pra sereia
e desejar que o amor seja eterno
sobre acreditar em mandinga
a mandinga que uniu um e outro
num só
quando planos e sonhos e desejos e quereres
já não têm a mínima importância
se não fosse por um pedaço de lua que ainda se vê no alto
poderia dizer que era pura imaginação
contar estrelas com a cabeça num travesseiro de areia
nunca tinha sido tão gostoso
e as mãos entrelaçadas
e os cabelos
que são enovelados
enovelaram também os carinhos
sobre jogar, no início da manhã
presentes pra sereia
e desejar que o amor seja eterno
sobre acreditar em mandinga
a mandinga que uniu um e outro
num só
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Cotidiano (ou A História de Uma Madrugada)
Rafael levantou, vestiu-se, olhou para a cama, beijou quem nela dormia, saiu pela porta acendendo um cigarro.
Rafael não conseguiu sair. Sentou no sofá da sala e esperou quem estava na cama acordar pra poderem conversar. Tomou um iogurte.
Rafael esperou acendendo mais um cigarro. Sentia-se estranho. Ouviu um barulho que vinha do quarto. Estava quase na hora.
Rafael ficou apreensivo. Pôde ouvir a água do chuveiro cair, um cantarolar que vinha do banheiro. Levantou, quis ir até lá. Preferiu o não
Rafael sujeitou-se a esperar mais uma vez. O chuveiro desligado tornou a cena mais apreensiva.
Rafael olhou a porta do quarto abrir-se. Viu o sorriso de quem estava na cama. Não resistiu ao beijo que desejava.
Rafael pôde sentir a língua de quem estava na cama roçar a sua. Seu desejo era tão grande. Tudo podia esperar. Voltou à cama. Voltaram.
Cotidiano II (ou A Outra Parte da História de Uma Madrugada)
Augusto acordou, mas preferiu continuar deitado. Olhos fechados. Sentiu um beijo e fumaça de cigarro.
Augusto levantou, olhou pela janela, tentou ver quem tinha saído de seu quarto através dela. Não viu. Tomou um pouco de água.
Augusto pegou uma muda de roupa no closet. Esbarrou no criado-mudo e deixou cair o despertador.
Estava sentindo-se bem, apesar de nervoso. Tomou um banho, cantarolou algumas músicas. Desejou quem tinha saído do quarto junto a ele no banho.
Augusto terminou o banho. Secou seu corpo. Pensou em telefonar depois do café, marcar uma conversa e um vinho à noite. Estava tão apreensivo.
Augusto abriu a porta do quarto. Encontrou o sorriso de quem tinha saído do quarto no sofá da sala. Não resistiu ao beijo que desejava.
Augusto pode sentir os lábios quentes de quem tinha saído do quarto. Agradeceu por ele não ter ido embora. Voltou à cama. Voltaram.
sábado, 26 de junho de 2010
Medo
De sair do calor e segurança da barriga
De ficar sentado no chão sem nenhuma segurança
De levantar e dar o primeiro passo
De cair quando ficou de pé a primeira vez
De passar perto do cachorro
De acender o fóforo e se queimar
De colocar a tomada no plug e tomar um choque
De caminhar sozinho até a escola
De dormir no escuro sozinho
De acordar de madrugada
De ficar em casa sozinho aos sábados de manhã
De subir na escada da casa da vizinha da tia
De olhar pra baixo quando estava lá em cima
De tirar nota baixa
De sair de casa num domingo à tarde e ir pra capital estudar
De que seu pai estivesse passando mal e não lhe avisassem
De andar pelo bairro de sua escola
De morrer quando o que mais desejava era morrer
De perder as melhores pessoas da sua vida
De ficar sozinho e não conatar a ninguém sua história
De perder a memória das boas coisas que fez
De não sonhar mais nunca
De morrer sem ter acreditado em si
De deixar pela metade os escritos e choros e sorrisos.
segunda-feira, 7 de junho de 2010
Rodrigo
Subiu ao último andar.
No terraço daquele prédio velho
Ficava observando a cidade grande
Atrás daquelas antenas
E daqueles prédios descascados
Nem sequer sabia há quanto tempo estava ali
E o tempo pouco importava a ele
Não podia perder mais tempo lá dentro
Se o mundo aqui fora gritava sua presença
Era atuar numa peça mal escrita
Os textos borrados de chuva
As roupas amarrotadas de sempre
Um sorriso perdido no canto do lábio
Uma lágrima escorrendo pelo rosto
Como sinalizando o fim. Ou o princípio?
Quem mais, além dele mesmo, pra saber?
Era Outubro.
E um monte de coisas de Outubro aconteciam!
E um monte de coisas de Outubro aconteciam!
Nem em sonho o tempo passava tão rápido!
E num piscar de olhos via-se carros quase parados
Era a cidade
Grande
Era o verniz
Era um pouco de farinha
Ele e um cigarro no topo da cidade
Ele e as lágrimas correntes que vinham em seu olhar
Insistentes em saltar do olho
Ele e as lembranças dos sonhos
Ele era um sonho
Era errado acreditar em sonhos?
Fechou os olhos.
Daquele topo, do alto, podia voar
E planava sobra as nuvens
E voava sobre os carros parados na via pública
E fazia piruetas em cima das casas, entre os prédios
E virou capa do jornal do dia seguinte.
segunda-feira, 31 de maio de 2010
Amélia
Jogou as chaves num canto qualquer. Correu pra janela pra tentar ver os carros lá embaixo. Há muito tempo não se sentia tão feliz. Corria de um lado a outro de seu apartamento. Acendia e apagava as luzes. Riscava papéis. Rasgava outros. Queimava mais um tanto. Saltava e cantava como uma criança que ganha o brinquedo mais desejado. Era o melhor de todos os dias de sua vida. Era uma felicidade que não sabia nem de onde vinha. Mas sentia. Ligou a TV, conversou com ela um pouco e em seguida desligou. Ligou o rádio, que tocava a sua música predileta. Dançou como dançara no seu baile de debutantes. E sorria. Sorria muito. Pra tudo. Pra todos que passavam embaixo. Era como recomeçar a sua vida. Era como se encaixar perfeitamente no que ela sempre sonhara. Era como receber o primeiro sim de sua vida. e assim adormeceu.
sexta-feira, 28 de maio de 2010
Alessandra e Alberto
Segurou as lágrimas no olho. Achava a vista do mar tão bonita durante a tarde. Esperava sempre o pôr-do-sol sentada na mesma pedra há treze anos. Estava mais uma vez naquela pedra que já era amiga de suas alegrias, tristezas, euforias e dores, amores, paixões, medos...
Agora estava apenas admirando o mar. A beleza das ondas que iam e vinham e iam e vinham e iam. Alessandra sentada na pedra. A lágrima contida no olhar.
Conversava com o vento, com a areia. Colocava tudo o que sentia naquele momento em palavras jogadas.
Alessandra amava estar sozinha, mas agora sentia-se abandonada. Estava triste. A lágrima irremediavelmente escorreu pelo seu rosto.
Alberto passou, percebeu que uma mulher chorava sentada em sua pedra. Olhou para ela e perguntou o que se passava. Na mesma hora ela secou com a manga da camisa e disse: "Só uma lágrima!"
Alberto respondeu: "Então quando acabar, saia de cima da minha pedra, preciso eu chorar nela daqui a pouco."
Enquanto se punha o sol, Alessandra caminhava pela areia voltando para casa enquanto Alberto sentava na pedra.
Areia.
Mar.
sábado, 24 de abril de 2010
Juliana e Carlos (ou Você Não Gosta de Mim)
se foi pra
fazer de conta que
você me
chamou aqui,
pare agora
eu não
tenho vontade
de te contar sobre fantasias
nem sobre
a cama
nem sobra
o rádio
ligado
não sobra nada
nem pó
nem fumaça
se for
só pra fazer
de conta
eu apago a luz
e
fecho
a porta
fazer de conta que
você me
chamou aqui,
pare agora
eu não
tenho vontade
de te contar sobre fantasias
nem sobre
a cama
nem sobra
o rádio
ligado
não sobra nada
nem pó
nem fumaça
se for
só pra fazer
de conta
eu apago a luz
e
fecho
a porta
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Sávio
Apenas olhou o travesseiro ao lado
Meia cama vazia
Um copo de whisky pela metade
Pontas de cigarro sobre o criado-mudo
O telefone celular não tinha chamadas perdidas,
Nem mensagens de textos recentes
Apesar de ser isso que ele tanto esperava.
Não lembrava de como era chata essa espera
Na verdade, nunca passara por aquela agonia
Pareciam intermináveis horas
Minutos
Segundos
Parecia que a noite também não acabara
E ele ainda estava lá!
Esperando
Como era ruim ter que passar por isso!
Como era angustiante esse momento!
Apenas olhava o celular,
Verificava mais uma vez que não havia nada
E baixava a cabeça.
Pensou em ligar
Discou os números que correspondiam ao de Jorge
E ninguém atendeu
Acendeu mais um cigarro
Foi até a janela
Ver a chuva tocar o vidro
Olhou a tempestade que caía
E discou mais uma vez
Ninguém atendeu.
Desistiu.
Talvez hoje não fosse um bom dia
Deitou novamente
Ouviu o trinco da porta girar
Jorge apareceu com o sorriso mais bonito do mundo
Pediu desculpas
E sentou na beira da cama
E passaram o resto do dia
Fazendo com que ele fosse bom.
quinta-feira, 1 de abril de 2010
Salto (ou TV Sem Som)
O tempo passa
Assim como as pernas andando do lado de fora
Tal e qual passam todas as oportunidades
E você não faz ideia
De como a história termina.
Está dentro de seu quarto
E não se importa em ver a vida passar
A música que toca no rádio
Ou a personagem na TV, sem som
O engraçado peixe solitário no aquário
Todos assistem a você no seu tempo
E você, que canta enquanto tenta dormir
Acredita que amanhã será um dia melhor
Acorda, espera, sonha, canta, dorme
E acredita que amanhã será um dia melhor
Mas não vê o tempo passar
Não enxerga que é preciso levantar
Que acreditar é apenas um passo
Mas amanhã tem de ser melhor
E continuar seguindo em frente
Parece ser o mais óbvio
Até ver o sol brilhando num céu de agosto
E desligar a TV, enquanto canta sorrisos
Pra deixar passar o tempo perdido
Se abrindo pra ganhar o amanhã
segunda-feira, 29 de março de 2010
O Sorriso de Outro Homem (ou Carta)
Celebração
E ri
Cantando com as bordadeiras
E ri
E chorei
E depois do alvorecer,
Eu ri
Chorando os mortos de outrora
Morri cantando
Com as lágrimas
Caindo dos olhos
E molhando o papel de carta
Pra depois ouvir uma música
Alegre
No rádio de pilha na sala
E despedir a dor
Como se despedisse um velho amor
E fechou o caderno.
segunda-feira, 15 de março de 2010
Da Noite Em Que Se Pensou No Fim De Tudo
- Eu gosto muito de você!
Silêncio.
- Você não vai dizer nada? Como você pode ser indiferente a esse sentimento?! Como pode ser indiferente a minha declaração!?
Silêncio... Uma lágrima escorre pelo rosto.
Entre soluços:
- E eu que achei que você era, no mínimo, receptivo. No mínimo, que gostava de se sentir amado. Que apreciava toda minha dedicação, que gostava dos meus bons tratos...
Interrompe com dois dedos nos lábios do falante.
- Eu te amo, seu bobo!
Beijo de fim de novela.
domingo, 7 de março de 2010
Do Quase Sobrevivente Para A Quase Boneca (ou Apenas)
Toda alma é triste. Só os atores conseguem fingir que são felizes. E as pessoas sem coração não podem sentir o quanto são tristes. Quebrou o vaso. Aceitou sua condição de morte do espírito antes da morte do corpo. Anda pelo mundo contando histórias felizes, tentando disfarçar-se e enganar os trouxas.
Pretérito Imperfeito
A gente sempre acredita que vai ser feliz pra sempre né? Mas eu percebo no olhar da moça ao lado que isso é mentira. A moça não é feliz. Eu fico triste por ela. Ela era cheia de sonhos. E sonhava com seu feliz pra sempre. Mas não foi assim que se deu. Agora ela deve se perguntar: "Onde foi que eu errei tanto?"... Essa culpa católica que nos vem à cabeça de que a infelicidade nossa é nossa culpa. Ela chorou há poucos. Não lembrava de como era ruim esse choro de infelicidade. E agora eu fico apertando minha mente. Quando mirei seu olhar, revivi uma cena de cerca de dezoito anos atrás. E eu não fiquei feliz com isso. Me dei conta que preferia que ela fosse feliz. Ela faz questão de esconder de todo mundo, mas não sorri nunca. Ela deixou que os problemas e tristeza e a falta de amor e o mundo inteiro e suas sujeiras melassem a ideia de mundo legal que existia em seus sonhos. Ela acbou por destruir o mundo mágico da menina. Seus rosto é cansado e triste. Ela não ama mais o mundo como gostaria e desistiu de viver pra ser feliz. Agora ela espera que sua vida acabe por conta de não gostar de viver. Parece que toda a sua vida está pronta. Deixou-se abandonar na infelicidade e prefere ser assim na vida. Está tão seca quanto o jardim la fora. E das flores que embelezavam sua vida restou apenas as folhas no chão e os espinhos nos galhos. Nem haverá mais primavera em seu coração. Aconteceu que decidiu ficar assim. Até o dia que não for mais possível ser infeliz.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Diário de Alberto Sanches Malta de Bragança e Toledo
Tentando, entre as lágrimas de ontem, resgatar no mais profundo de minha alma algum resto de auto-estima. Apenas encontro um pouco de terra e um pouco de sementes secas. Nada que se possa plantar e colher de bom. A vontade que me vem ao coração é arrancar de mim todo o sentimento. Mas como fazê-lo? Eu perdi minha força de vontade. Eu perdi meu interesse em mim. Nem mais consigo me olhar no espelho e reconhecer o garoto cheia de vida que via. Algumas coisas destruiram em mim o que demorei uma vida inteira pra construir, tão facilmente como se sopra uma vela de aniversário. A verdade é que depois desse diário, eu devo escrever uma carta de suicídio. Meus amigos irão saber. Minha família irá saber. Minha alminha atordoada dentro desse corpo, ainda inadaptada. Ela não sabe como sobreviver nesse mundo, nesse corpo, nessa carne. É uma alminha nova, só pode. Inocente em tudo, não sabe como é que se dão as coisas por aqui. Sofrimento demais pra ela, que é obrigada a abrigar este pedaço de carne ruim. Sempre sentindo muito por tudo e clamando aos céus misericórdia de Deus, pra que a permita sair daqui de dentro. Na verdade, posso ouvi-la chorar. É só fechar os olhos e tentar escutar dentro do meu coração. Os gemidos são de minha alminha, fora de contexto nesse mundo. Quem dera encarasse em um animal. Mas encarnou em homem, fraco, medroso, covarde, metido a justo. Encarnou na escória da raça dos homens. Era uma experiência frustrada e insignificante de vida. Estava louca, a alminha, pra não mais encarnar tão cedo. Esperava e desejava sair daquele corpo e quem sabe, um dia voltar a ser rato, pois que o rato da vida passada, curta, diga-se de passagem, fora um rato corajoso, ao menos. Eu despeço a minha alma. coloco-a pra dormir numa dessas noite de destrução, desvalorização e medo. Encontrei um velho caderno. Talvez meus velhos segredos possam ajudar a relaxar minha alma e fazê-la descansar ainda em mim. Pra amanhã tentar começar tudo de novo, viver o que for preciso, esquentar o coração ou deixar-se abandonar no precipício.
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
O Que Sobrou da História de Nós Dois
Parou para ouvir os pingos da chuva na janela
Olhava as gotinhas escorregando pelo vidro
Sentiu um frio repentino, parecia que inverno chegara
Olhou uma xícara sobre a mesa
Pontas de cigarro e cinzas dentro dela
Ainda um resto de café da noite anterior, talvez.
A cama desfeita
Travesseiros pelo chão
Uma embalagem de chocolates no colchão
Um par de meias sujas no banheiro
Um par de escovas de dentes
Um par de chinelos de borracha
Um sofá grande e vazio
Uma TV desligada,
Parecia que acordara no último dia de sua vida
Todos os pensamentos voltados
Para fora de sua janela
Lá, passavam pernas e saias e calças desbotadas
Catou umas fotografias velhas
Juntou todas num prato velho
Tomou o álcool e o fósforo e pôs fogo na pilha de retratos
Fechou a cortina
Fechou a porta
Fechou os olhos
A fumaça parecia fazê-la
Esquecer de tudo e cair em sono
Assim levou os dias que se seguiram
Contas de Ogum
Refeito em sopro
Como um algo que surge
Sou apenas virtude
Virtude disfarçada de imperfeição
Enquanto as voltas
Do colar de contas
Me parecem enforcar o pobre garoto
Me sufoco em um beijo interminável
Onde há língua e lábios e saliva
E mais um resto de sedução
Que com fé em Ogum, salvará a noite.
Há mais que desejo entre nós e eu posso sentir
Há um tanto de sentimento
E eu sei disso, por que assim disse minha mãe
Quando a chuva veio e levou de mim toda a lama
Eu descobri que não era apenas um sonho bom
E então? Onde estavam mesmo as pétalas de rosas?
No buquê da noiva, esperando um sentido de estar
As contas em azul-marinho me davam tranquilidade
E era assim que eu esperava a noite
Aquele rapaz de Ogum, os conselhos de minha mãe
E a sedução irremediável de seus olhos
Negros como sua pele
E sua fé
E suas armas.
Aprisionando-me em braços e abraços, amarrando
Suas contas nas minhas
Um tanto folclórico e lendário
Um tanto irremediavelmente deslumbrante
Ao juntar o que há em nós de melhor.
Minha virtude e sua virilidade.
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
Vazio (ou Quinta-feira)
Mas é que agora não há telefonemas nem cartas
Não há taças, nem garrafa de vinho
Não há resto ou um prato sujo
Não há carinho ou cafuné
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Carta de Despedida em Enterro de Mário [ou O Adeus de Luisa para Mário]
Ver em minha cara
Um pouco de sua marca
É como lembrar o nosso tempo
Juntos
Olhar a marca de lágrima
Escorrendo em meu rosto
Através do espelho
É lembrar o passado glorioso
Estando perto de você
E resgatar na memória
As suas faltas de compostura
Suas falhas memoráveis
Madrugadas intermináveis
Esperando você ligar
Ouvir em minha mente seu sussurro
E seu "vem pra mim"
E depois lembrar
O seu levantar e pôr-de-calças...
Quase uma piada de Deus,
Esse amor maluco
Se as surpresas não tivessem
Me mostrado como são fracas
As histórias de amor
Que livros mentem
Que novelas são apenas
Novelas
Que na verdade,
Todo sentimento é um engodo na vida
Que apenas a carne era-nos importante
Estava eu, aqui, ainda
Falando bem do sentir-se apaixonada
Mas olhe bem pra mim
Sou eu, a mulher chorosa
Agora dizendo
Que o pouco pra você
É bem feito
Que a piada de Deus nos foi engraçada,
Mas eu ri muito mais, no final.
E apenas hoje posso comemorar
Pois definitivamente estás longe de mim.
Bem colocado, onde te cabe
Com amor, Luisa.
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