sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Seu rosto na tevê

Hoje eu morri de saudade de novo. Bastou te ver na TV falando sobre sua exposição para um repórter (que eu odeio, por sinal) para que tudo voltasse. Obviamente me benzi e pedi a Iemanjá que afastasse qualquer sentimento que estivesse ressurgindo.

Sou mais forte que isso. Sou mais forte que qualquer coisa do passado que venha a perturbar minha energia de agora. Eu mato qualquer coisa que queira reviver. Amor zumbi não é comigo. Não sei aonde essas forças de satã acham que vão tentando me fazer pensar em você só porque te vi sorrindo, lindo, para a câmera. Quase como se sorrisse para mim.

Mas eu disse não, mais uma vez.

É foda quando eu imagino que poderíamos estar juntos se você quisesse. Quantas vezes te liguei para tentar te ver e você recusava qualquer investida minha? Em um determinado momento comecei a me sentir um stalker louco. Foi quando me dei conta que você não merecia minha atenção.

Mas se você estiver por aí me lendo, fique sabendo que, caso queira me ligar e me chamar para ir ao teatro contigo assistir àquela peça da Marieta, não recusaria. Talvez até tome um vinho contigo depois do espetáculo. Mas não passará disso, pois os gatos só dormem quando eu chego em casa.

...

Que inferno, não acredito que escrevi isso. À merda essa história toda. Deve ser o sono que está me deixando assim. Melhor ir dormir.


sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Deixa eu te amar

Oi, como vai? Soube que você tem andado cheio de trabalho, cheio de coisas para entregar e sem tempo nem para tomar uma cerveja em um boteco com velhos amigos. Espero que esteja bem com isso tudo. Sempre conversamos sobre o tempo que destinávamos ao trabalho e sempre fui eu a pessoa que precisava dar um tempo. Acho que nunca combinou com você isso de ficar afogado em trabalho de segunda a segunda.

Soube por amigos seus que você não tem atendido às ligações de alguns deles, parece que está brigado com o mundo. Espero que seja só trabalho demais o que tem o afastado das pessoas que você gostava tanto. Por falar em trabalho, vi que você vai expor novamente aquelas obras. Para mim são as suas melhores criações, sabia? Mesmo que você não goste tanto delas e que tenha jurado nunca mais expô-las.

Fiquei pensando se devo ou não aparecer na vernissage, já que não estamos nos vendo muito nos últimos meses. Mas confesso que adoraria rever suas obras e, claro, te rever também. Tomara que você não fique a noite toda rodeado de fãs e jornalistas.

Bom, trabalho logo mais, acho que vou dormir. Preciso estar um pouquinho descansado, pelo menos, amanhã de manhã. Nos falamos depois. Ou melhor, eu falo sem saber se você vai sequer me escutar. Até...

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Não fode, Alberto

Prometi a mim mesmo, mais de uma vez, que não aceitaria mais seus convites para sair, para tomar cerveja em bares, para comer sanduíches de mortadela. Mas tamanha minha vontade de olhar novamente para seus olhos que esqueci minhas promessas. E aqui estou eu, há duas horas sentado neste bar, já na quarta caneca de chopp, já escrevendo poemas sem sentido no guardanapo, contando minha história para o garçom e acendendo o quinto cigarro da noite.

Porra, Alberto. Eu tinha parado de fumar, sabia? E agora todos os meus esforços foram pra casa do caralho porque, mais uma vez, você teve muito trabalho ou teve que buscar bagulho na casa de alguém ou outro alguém terminou o namoro ou meu cu, velho.

Eu vou mandar você à merda se foder na puta que te pariu mais uma vez. Tomara que eu consiga manter a promessa que fiz hoje ao garçom, de nunca mais voltar a falar com você ou a este bar contigo.

Vou deixar o seu nome gravado na árvore e embaixo escrever "filho da puta", com o perdão de todas as putas, que não merecem um filho como você.

domingo, 12 de julho de 2015

Dois de Fevereiro

Escutei ao longe o canto da Rainha. Era madrugada do dia dois. Tenho certeza que ela cantava para abençoar seus filhos. Cheguei na beira do mar, na pedra de onde pulava na meninice, competindo com os outros garotos para ver quem tinha o salto mais bonito. Fechei meus olhos e comecei a cantar com ela. Para ela.

A rainha me acompanhava diariamente desde meu nascimento. É dela de onde flui toda a fertilidade. De onde eu nasci. Foi dentro d'água que minha mãe sentiu as primeiras dores do parto. Foi no mar que ela caiu ajoelhada. E eu nasci ali, já com duas mães, no mesmo dia dois de fevereiro.

Em meus primeiros segundos de vida eu já tinha no coração os dois carinhos que me acompanham em meus caminhos na Terra. Eu era um presente de minha mãe para a Rainha e um presente dela a minha mãe. Foi para estar perto dela que eu aprendi a nadar e a pescar com meu avô, que sempre me contava histórias de seus encontros com Janaína.

Sentado à beira da pedra, o balanço do mar tocava meus pés. Eu sabia que era ela me fazendo carinho. E no balé das águas, escutando a Rainha cantar, adormeci.

E meus sonhos me levaram direto para Aiocá, terra onde ela é princesa. E ali fiquei até sentir o sol na pele e ouvir os filhos dela levando presentes em procissão e louvor.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Mudança

Conversando com minha mãe sobre tudo que estou passando: essa mudança de cidade, a minha demissão, a grana que deve entrar com a venda de nosso apartamento. Ela me perguntou sobre você. Como não soube o que responder, disse que você está bem. Está?

Soube que você também se demitiu e decidiu investir no cinema. Sua irmã que me disse isso, assustada. Ela se preocupa em saber como você vai pagar suas contas. Afinal todo mundo sabe que cinema não dá dinheiro pra ninguém nesse país. Aquele filme Crô nem foi completamente pago ainda, sabia? Também, é péssimo. Lembra que vimos juntos e olhávamos na cara um do outro com uma expressão pior a cada cena? Nem gostar de Ivete Sangalo salvou aquele filme.

Mas, além de sair do trabalho pra virar cineasta, você tem mais novidades? Aquele projeto de montar uma empresa foi por água abaixo? Desistiu de vez? Ou só adiou os planos mais uma vez? E quanto a Otávio? Esse casamento sai ou não sai? Devo estar parecendo sua mãe te enchendo de perguntas bobas.

Não vou mais questionar nada, relaxe. Bom, manda beijos pra d. Lucia e seu Olavo. E diga a Natália que eu disse que confio em você (já falei diretamente, mas ela insiste em se preocupar). Quando o bebê dela nascer você me avisa? Quero mandar uma lembrancinha... 

Em quinze dias me mudo para o Rio e queria tomar um café contigo antes da viagem. Sem cigarro (parei de fumar), sem açúcar (também parei) e com creme (porque eu não sou de ferro).

Beijos

quarta-feira, 17 de junho de 2015

A força desse amor nos invadiu

Sabe, Colombo, estive pensando sobre as minhas escolhas para este ano. Não foram nada corretas, sabia? Sei lá, sinto que cometi erros horrorosos e que não posso corrigi-los. É como se eu estivesse no meio de uma roda de erros e tenho que melhorar tudo a partir dessa grande merda que se tornou viver.

Pensando aqui, esse tem sido um bom ano, sabia? Não tem tanta tristeza quanto 2014, poucas mudanças, todas as que tenho eu posso controlar. Mas sinto que uma coisa está bem errada... E eu ainda não sei o que é. Talvez seja só uma vontade de fazer a coisa certa. Uma vontade que vem misturada ao desejo de ter deixado um monte de coisa pra trás.

É, Colombo, vou comprar mais cerveja porque a nossa acabou. E eu parei de fumar.

Taí, talvez seja a minha decisão mais acertada em 2015: parar de fumar.

Vou ali.

sábado, 6 de junho de 2015

Feitiço do alho pra amarrar homem (ou Sandro e o ex sem nome, mas que todos já sabem quem é)

Sandro, de repente, fechou o livro que estava lendo, algo sobre religiões pagãs, e olhou para o souvenir da torre de Piza que tinha ganhado de seu ex-namorado. Abriu um meio riso, achando meia graça naquela miniatura de torre torta. Inclinou levemente a cabeça para corrigir o erro da torre, deixou o livro de lado e tomou mais um gole de vinho. Procurou a ponta que tinha deixado no cinzeiro, reacendeu, puxou umas duas ou três vezes e continuou a fitar a torre. E ela se inclinou mais ainda. Ou foi sua cabeça que inclinou para o lado contrário. A uma altura dessa, vinho, maconha, sono, já não sabia.

Sandro tentou continuar a ler, mas as lembranças de seu ex-namorado que fora à Itália começaram a surgir e surgir e voltavam e ele já tinha mergulhado na bad trip. E começou a lembrar de como se conheceram trocando olhares na escadaria da faculdade. Sandro ainda era casado com Adriana e não entendeu porque sorriu para o desconhecido bonitinho que subia a escada e que também sorria para ele. Eles nem se conheciam e Sandro já sabia que o queria por perto o mais rápido possível. E depois ele contou a Sandro que não virou só para não dar ousadia, mas que perguntou aos amigos se sabiam quem era o de aliança na mão.

Sandro nunca traiu sua esposa e quando viu que seu pau subia agora por um rapaz decidiu separar. A onda bateu ruim de novo, sentiu-se péssimo em abandonar a mulher com quem sonhou ter filhos, até. Tomou mais um gole de vinho e deu mais um pau no baseado, que a essa altura já era quase ponta. Precisava mudar a vibe da noite. A torre se entortou mais ainda e ele já nem sabia mais se era Piza ou Eiffel. Piza, decidiu. Lembrava pizza, que lembrava Itália que lembrava seu ex. Decidiu homenagear o souvenir e resolveu matar a fome, aquela famosa fominha, com uma macarronada.

Decidiu cortar tomate, cebola, pimentão, alho, tudo isso enquanto a massa cozinhava. Chorou muito enquanto cortava o alho. Não entendeu nada pois, apesar de se parecerem, ele sabia que alho não faz chorar igual a cebola. Mas a gente sabe, Sandro, a gente, que está sem fumar nada, sabe que você morre de tesão nesse cheiro de alho. Não é bem tesão, não sei o que é pois não sou você. Mas sei que você morre de saudade desse homem, esse capeta disfarçado de homem, e que alho te faz lembrar como vocês começaram esse romance esquisito.

Sandro chorou e cortou o dedo enquanto tentava cortar pedaços de bacon para colocar no molho. Essa não era a noite de Sandro. Decidiu que ligaria para ele. E ligou:
- Alô! - aos prantos e nem conseguia abrir os olhos e sentado no chão cozinha
- Hum...
- Eu não consigo esquecer de você, inferno...
- Hum...
- Que feitiço você me rumou que eu não posso me desligar desse amor? Tem alho nele?
- Hum... - riu um pouco, mas disfarçou.
- Por mim você morria.
- Arram...
- Mas vem se despedir de mim aqui em casa antes de morrer? - desligou o telefone achando que já tinha dado ousadia suficiente para aquele babaca.

Ele não foi, mas alguém apareceu por lá meia hora depois e encontrou sangue na cozinha e o macarrão queimando no fogão. Sandro estava no banheiro lavando o rosto e o machucado. Quando viu que alguém batera a porta correu feliz ao seu encontro e viu que era Thiago, seu melhor amigo. Este, espertamente trocara o nome dele com o do tal ex na agenda do celular de Sandro para evitar esse tipo de atitude que acabaria em ressaca moral, afinal todos sabemos como é vergonhoso ligar para o ex durante embriaguez.

Thiago ligou para a pizzaria, guardou o souvenir, fez um curativo na mão de Sandro, enrolou mais um baseado e decidiu que passariam a madrugada assistindo a sitcoms juntos, falando mal dos ex, comendo besteira e sem pensar em nenhum país além-mar.

Sandro riu e esfregou bastante sabonete na mão para sair o cheiro de alho. Mas sabia que se encostasse o nariz no indicador esquerdo poderia sentir o cheiro maldito da mais gostosa paixão que já teve.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Quase quatro da manhã

Você não tem nada a ver com isso, não me peça para te explicar nada sobre a minha vida. O que te importa se agora eu ando com a cabeça baixa? Quando foi para me dizer adeus você não fez questão de olhar em meu rosto e observar as lágrimas caindo. Desde quando você se foi que eu espero esse dia chegar, Espero te encontrar para te ouvir querer saber de mim, me dizer o quanto sente saudades... E, depois, te contar que venho até remoçando, e até canto, às vezes. Mas nada por sua conta ou por por você.

Agora que você já está sabendo o quanto fico feliz de te ver longe, faça-me o favor de não aparecer nem em meus pensamentos de vingança. Não quero macular meus dias com o desprezo que tenho por você. Espero que minha devolução de todo o sentimento ruim que você me criou esteja te alcançando e que você sinta na alma o quanto me fez sofrer, Espero também que esteja com tanta saudade de nossos dias quanto eu fiquei da vez que você me deixou e que você ache alguém que te faça sofrer de amor tanto quanto ou mais do que você me fez.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

O melhor beijo de toda a minha vida

Lembrei do dia em que nos conhecemos, lembra? A gente estava naquela festa - chata, diga-se de passagem - da Mariana. Só ficou boa quando a Lúcia colocou Os Mutantes pra tocar, lembra? A cara de Juliano, aquele crente, quando ouviu Ave Lúcifer... Hilário!!

A gente nem tinha sido apresentados, mas começamos a conversar sobre Rita e como ela era linda. Como nós dois passaríamos por cima das nossas convicções sexuais pra uma noite de amor e LSD com ela. Que doideira, cara! Como se Rita fosse liberar pra algum de nós dois. Pior! Como se bastasse ela pra "curar" a gente. Naquele dia eu tava louco de tanto uísque na cabeça. E otras cositas más...

Acho que começou tudo ali. Sua boca e a minha tão perto uma da outra... Aquela fumaça compartilhada era como nossas almas se misturando. Não deixamos quase nada escapar. E aquele beijo com a cabeça feita...

Foi o melhor beijo que eu dei em um desconhecido em toda a minha vida.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Eu vou ficar bem (ou Manda notícias)

Sabe, naquela manhã que você me deixou, eu achei que morreria. Foi doloroso pra caralho assistir a você arrumar as malas, uma por uma, em silêncio. Nossa, cada camisa que você colocava na sacola era uma ferida aberta em meu peito. Você não faz ideia de como eu me rasguei por dentro. O zíper se fechando era como uma navalha rasgando a minha pele. As lágrimas escorrendo em meu rosto eram como uma sangria de um novilho. Eu morri mais de trinta e duas vezes naquela manhã. E não tive sequer um olhar de piedade. Eu quis sua piedade, cara.

Eu não dormi durante três dias. Eu precisei ligar pra meus melhores amigos. Eu não tinha forças pra levantar da cama. Sabe aquela sua corrente, que eu mesmo dei de presente no verão que passamos em Búzios? Eu desejei que ela fosse uma corda e, assim, eu poderia dar cabo de minha vida com um pedaço seu. Eu a escondi achando que você, ao menos, voltaria pra tomá-la de mim. Mas você parece ter desistido dela, da mesma forma que desistiu de nós.

Ainda não entendo por que você se foi. Será que um dia teremos a chance de conversar sobre isso? A cada manhã eu imagino que ainda acordarei de seu lado, mas, porra, você não tá lá, caralho!

Sonhei com você, dia desses. Você morria em um acidente de moto. Eu acordei aos prantos, mas confesso, me sentia aliviado, no sonho, por saber que meu sofrimento teria acabado pra sempre. Prefiro que você morra a saber que você consegue ser feliz sem mim. Não sei se posso te esquecer. Não sei sequer se eu consigo imaginar a minha vida sem você, mas sei que prefiro que você esteja morto a imaginar que me deixou porque era infeliz.

Entendi, agora. Eu nunca te fiz feliz. É isso. Eu errei o tempo inteiro, meu Deus. Eu quero te pedir desculpas, eu posso ser diferente. Deixa eu te provar que posso mudar. Preciso de você ao meu lado.

À merda essa porra de carta do inferno. Eu não quero que você volte. Eu vou ficar bem.

Por favor, manda notícias.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Segue em construção

Aquele que tem um arco e flecha nas mãos mirou certeiro e profundo bem no peito do animal mais pesado que podia ver. Da melhor maneira possível, fez questão de marcar o peito do animal com a seta que indica sua propriedade. Mas o fez de forma oculta, para que ninguém soubesse. Dizem as boas línguas que essa é uma boa marca. E dizem as más que a marca só aumenta o desejo de outros pela carne. Dito ou não dito, o animal e o seu algoz não eram parte de nenhuma realidade. E desapareceram, como um sonho de uma noite de verão qualquer.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

para meu amigo pablo

lembro de você escrevendo durante a madrugada. aqueles textos com cara de seu. eram meus preferidos. quando quero sorrir, fecho os olhos e me coloco a pensar em você, sentado à mesa com seu laptop. a tevê ligada, mas nem eu nem você prestávamos atenção. enquanto eu via um pornô, você escrevia sem parar, sem olhar para o lado, alternando as frases com as conversas de sua namorada. e eu, depois de um baseado, só ria de sua cara compenetrada tentando assistir a aquele desenho do cachorro amarelo. eu procurando o que comer na geladeira cheia de água mineral, comida pronta, verduras cruas e um pote de maionese. e você rindo de mim, paloso como nunca, achando incrível que seu primo tinha chegado lá em casa depois das duas da manhã, bêbado e desempregado. velho, durou apenas três meses. mas parece que éramos irmãos de vidas passadas. sumimos aos poucos, como naquela fotografia do filme de volta para o futuro. e no dia 31 de agosto eu também arrumei as minhas malas. já não éramos mais seis.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Depois daquela noite no teatro ( ou Antes de você decidir enviar a carta)

Depois de nos encontrarmos uma, duas, três, quatrocentos e setenta e nove vezes, me dei conta de que não sentia mais por você a mesma coisa que senti da primeira vez que vi seus olhos brilharem para mim.

É como se eu soubesse que seu corpo, que já passou pelo meu muito mais que quinhentas e noventa e duas vezes, não me dá o mesmo tesão.

Acho que a culpa foi sua, pois depois que te beijei, você virou para mim e disse que não poderíamos ficar juntos, porque você tinha outra pessoa. Mesmo estando essa outra pessoa agora a mais de oito mil e cinquenta e cinco quilômetros de distância, espero que vocês passem bem.

E espero que estejam sofrendo de saudade. Ou de desamor.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

madrugada

estamos deitados e essa cama me parece pequena demais para nós dois. levanto no meio da madrugada com calor. a energia tinha acabado na rua inteira. até no quarteirão das flores.

levanto da cama ainda sem roupa. meus óculos estão no criado mudo amarelo. um que comprei de um amigo, quando da mudança dele para brasília.

olho pela janela e começo a lembrar de todas as minhas paixões. uma a uma, elas vêm como se eu nunca as tivesse esquecido. uma a uma.

são meninas, mulheres, rapazes. todas avassaladoras, como precisam ser as paixões. avassaladoras e sem cura.

acendo um cigarro, enquanto olho para você deitado na cama. é um sonho. um sonho meu estar te olhando sem roupa, tão perto, depois de desejar presenciar essa cena por tanto tempo.

a fumaça do cigarro embaça a cena e me faz levar você para o tempo em que era apenas um desejo. eu prometia nunca me render a ele, já que você era um rapaz sério, noivo, quase casado.

morria sempre que seu sorriso encontrava meus olhos e o seu perfume... e o seu perfume invadia meu corpo como um relaxante, um desses que a gente inala para poder ficar bem.

morria de tesão, mesmo, toda vez que você fazia questão de me abraçar e de me contar segredos que nem existiam, ao pé do ouvido, sussurrando. provocando meus mais sujos e excitantes pensamentos.

mas hoje, ao olhar você na cama, a sensação de dever cumprido e de caça abatida me toca. é como se seu corpo ali fosse a cabeça de um alce na parede. é meu. é meu?

não é meu, eu sei. ainda é de outra pessoa que, dessa vez, eu ignorei completamente.

acabo o cigarro, vou à sala tomar um gole de água. a energia volta. tomo também um dedo de uísque. ligo o ar condicionado, tomo um cobertor.

beijo sua bunda suas costas, seu pescoço, sua boca, te cubro e volto a deitar.

fecho o olho e mentalizo um mantra: "não é meu". é mais fácil pegar no sono assim. é mais fácil não me apegar a você assim.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Carta de Paulo a Tiago

Oi, Tiago,

Nossa! Hoje, depois que cheguei do trabalho, depois que passei no mercado, depois que dei comida pra Lica, depois disso tudo, lembrei que fazem seis meses desde que você se foi. Ou melhor, que eu me fui.

Aquele dia ainda está em minha cabeça como se tivesse acontecido ontem. Palavra por palavra que trocamos, seu rosto encharcado. O meu também. Nossas lágrimas molhando o chão. Pior dia da minha vida.

Em segundo lugar vem o dia em que descobri sua traição.

Eu realmente achei que ficaríamos juntos para sempre. Até prometi nem levar adiante esse seu deslize. Afinal, acontece sempre com os melhores casais. O nosso não seria isento.

Ainda ontem conversava com uma amiga, Clara, você deve lembrar dela. Ela me perguntou se existia chance de voltar a ficarmos juntos. "O mundo ainda está desequilibrado, você não sente essa energia ?", me perguntava, como se todos os males do mundo fossem por culpa do fim de nosso namoro.

Não, não há como voltarmos. Nem que eu queira. Nossas almas, de tão livres que ficaram, tomaram rumos diferentes. Te encontro e nem te reconheço, às vezes. É pior que isso. Reconheço um não que nunca desejei que fôssemos. E procuro o sim que se esconde atrás de seus olhos, mesmo esquecendo que os meus olhos estão fechados.

Vou mandar a conta do veterinário, como você pediu, apesar de achar que não precisa. Manda um beijo para sua mãe.

Com amor carinho,

Paulo

P.S.: Espero não ter mais que recorrer a cartas para falar qualquer profundidade.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Estaremos de pé

Por Cristo, jurou que não mais se atreveria a olhar as mensagens no celular. E prometeu que seria a última vez. Ia apagando uma por uma e, como se cada uma fosse um pedaço seu que se ia, derramava lágrimas mudas. Até não haver mais uma palavra sequer que pudesse trazer à lembrança todos os dias tão azuis. E não aconteceu como desejou.

Não pôde conter o desespero que teve ao se dar conta que até as lembranças boas não existiam mais. Ao que recorreria quando quisesse lembrar o cheiro de pós-barba que sentia toda manhã ao levantar da cama e beijar o pescoço de Ricardo? O que faria se sentisse vontade de tomar o café com menta de Ricardo, que só ele parecia saber fazer?

As lágrimas agora vinham acompanhadas de pequenos soluços e uma feição de tristeza profunda. Correu para o armário, na esperança de encontrar algum casaco dele guardado. Mas lembrou no mesmo momento que já havia enviado todas as roupas junto com as cartas e as lembrancinhas da viagem que fizeram juntos à Bolívia. Definitivamente não queria lembrar que ele existia. Mas adoraria encontrar de novo a toalha sempre molhada em cima da cama.

Agora os soluços, antes finos, se tornavam mais graves e seus olhos não podiam mais sustentar qualquer lágrima que lhe chegasse. Calou. Deitou na cama e ocupou apenas o lado que costumava ser seu, enquanto imaginava que Ricardo, a qualquer momento, atravessaria a porta, jogaria o palitó numa poltrona à esquerda da cama e deitaria por cima dele dizendo que estava morrendo de saudades.

Então, sairiam abraçados e tomariam chá juntos. Ricardo acenderia um cigarro e ficaria olhando os carros pela janela. Ele encostaria e fariam planos para o futuro. Não mais fariam. Era hora de abrir os olhos. Assim Gil fez.

Enxugou as lágrimas com a fronha do travesseiro, foi ao álbum de fotografias, tomou nas mãos uma tesoura e voltou a destruir as lembranças. Não podia esperar mais nada de Ricardo. Sua vida já estava plena ao lado de outro alguém.

E ele precisava recomeçar também.

Chá com sequilhos (ou Penúltima Carta de Amor)

Sinto que esses dias são dias bons para sair de casa e ver como a vida vai dar conta das coisas que você sempre duvidou que fossem dar certo.

Tudo porque as coisas tem dado certo sem que eu questione ou peça a deus. O mais legal é agradecer.

Uma pena que você não esteja por perto para ver que eu estou sorrindo novamente.

Manda um beijo para sua mãe e diz que um dia passo por aí para tomar aquele chá com sequilhos.

Beijos, 
David Luiz

P.S.: Ontem eu saí com um cara que conheci na festa de um colega do trabalho. Acho que vamos nos ver novamente no fim de semana. Achei que você devia saber. Desculpe se exagerei na informação

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Não há mais estrada (ou Não tenho certeza se é sonho ou realidade)

Acordei lembrando daquela viagem. A última que fizemos juntos, antes do acidente de moto. Tava lembrando da gente quase deitado naquelas poltronas reclináveis do ônibus. Lembra que pegamos o primeiro que encontramos na rodoviária sem sequer saber aonde ele ia? E eu, rezando por dentro pra que a viagem demorasse tempo suficiente pra eu cansar de ficar de teu lado. A gente viajou durante três dias e eu queria mais.

Mas que loucura, aquilo! Será que a gente teria a mesma coragem, hoje em dia? Nunca vou me esquecer de nossas risadas no meio da madrugada tapando a boca um do outro, pra não acordar ninguém. Ou de nosso sexo, que foi quase um contorcionismo, na tentativa de não fazer as pessoas perceberem nada. E aquele tiozinho da poltrona do lado ainda acordou...

Acho que foi a viagem mais longa que já fiz. Mas os três dias pareceram minutos, quase segundos... Eu faria tudo novamente. Até as mesmas fotografias. Pois é, eu que reclamava a cada foto que você queria fazer, eu faria todas de novo e de novo e de novo. Só pra ter você por perto. Seu cheiro de perfume vagabundo comprado na beira da estrada porque esqueceu o desodorante em casa. Nossa, que coisa horrenda era aquilo.

Mas veja no que me  tornei. Um saudosista notívago. Quase um vampiro, sugando o pouco de felicidade que ainda resta das pessoas ao redor. Na verdade, estou no meio de uma festa sem graça, nesse exato momento. Com muita pouca paciência pro João Alfredo, o Augusto e o George, que passaram a noite inteira cheirando. Sem saco algum pra aturar as risadas altas e desnecessárias de Mirela e os baseados que ela fumou. Acho que estou um pouco bêbado e só queria ficar no meu canto, com as cabras.

Colocaram o Transa pra tocar e tá na faixa 4. A sua música preferida. Eu vou vomitar a batata frita que comi no jantar. Mentira. A quem eu quero enganar. Todo mundo aqui sabe que eu me tranquei no banheiro pra chorar. Eu ainda não aprendi a lidar com sua falta. E não consigo passar por aquela curva. Era pra eu estar sem capacete. Me arrependo tanto de ter te permitido me convencer a usar, enquanto o experiente e destemido você viajava sem. Eu devia ter evitado.

Estão batendo na porta do banheiro, devem estar com medo que eu me mate. Por mais que minha vontade seja estar contigo nesse momento, eu não sou tão corajoso assim. Mesmo que os remédios de Sara estejam no armário e a tentação seja uma forte aliada do álcool...

Eu preciso saber viver sem você. Não sei ainda quando vou conseguir.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

I cried for you on a kitchen floor

Essa noite, lembrei de você. Funcionava como o amanhecer e o sol entre as nuvens de agosto pintava de luz os pontos mais escuros de sua rua. E eu, apaixonadamente, ridiculamente, suspirava ao sentir a brisa de seu perfume cruzar a esquina. Pra te ver cantar em outros palcos.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

O amor em tempos de cozinha

Fica difícil pra mim, viver em um mundo em que não posso tocar você. É difícil pensar que estamos tão distantes um do outro e que nossas vidas ainda estejam ligadas. Mas que diabo de querer é esse que não se desfaz? Que inferno!

Queria eu poder estar nesse mundo vadiando e fazendo todas as loucuras que sempre sonhei fazer. Queria mesmo estar me metendo em festas e sair sem lembrar o nome das pessoas que eu beijei. Mas todas elas só tem um nome: o seu.

O que tinha naqueles sucos que tomei nas tardes que passei em tua casa. O que tinha naquele doce que tomamos juntos? O que tinha naquela cebola que cortamos juntos na pia?

Lembro cada canto de sua casa, como um pedaço de um conto erótico. Deve ter um pouco de amor em cada cômodo. Tem um pouco de amor teu em mim.

Tem você em cada canto meu. Inclusive quando não canto.