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sábado, 4 de junho de 2011
sexta-feira, 27 de maio de 2011
O Boteco: Helena Candy
Saiu do banheiro, ainda pingando. Enxugou o corpo andando pelo quarto. Estava atrasado. Não sabia porque tinha dormido tanto. Mas agora que estava acordado, precisava correr contra o relógio. Alberto abriu o guarda-roupa, não o da direita. Essa noite era o dia de abrir o guarda-roupa da esquerda. E ele adorava. Escolheu o vermelho com lantejoulas. Ele sempre arrasava vestido daquele jeito. Depois de vestido, sentou numa penteadeira que herdara de sua avó. Uma penteadeira dessas de camarim! Sua avó era uma atriz. Não era nenhuma estrela, mas muito boa atriz. E isso fazia ele se sentir muito agraciado!
Sentado na penteadeira, tomou o estojo de maquiagem, algumas coisas estavam acabando, mas ele não precisaria delas essa noite. Começou a se maquiar e depois de algum tempo, quem olhasse para ele não reconheceria mais o Alberto. Na verdade ele não era mais Alberto naquela hora. Agora de chamava Helena Candy! Mas faltava ainda algo pra que Helena fosse, de verdade, ela!
Tomou uma peruca ruiva, corte Channel, colocou na cabeça e se olhou no espelho. Deu uns últimos toques na maquiagem e saiu. Diva em si mesma, não precisava da aprovação de ninguém pra ser.
E quando todos estavam desatentos subiu no palco cantando: "Babaluuuuuuuuu"!!!
sexta-feira, 8 de abril de 2011
Bastian Baltasar Bux
Escrevendo num papel de pão algo que sentia há algum tempo no coração. Sofreu muito antes de escrever. Mesmo porque não sabia se queria de verdade escrever aquilo. Era uma poesia. Uma moça, um moço, um monte de sonhos. Soube, sete minutos após começar, que não sentia mais nada daquilo que escrevia. Mas ele não se importava em mentir pra quem o lesse. Era isso! Ele não era um escritor. Ele é um mentiroso.
No final, assinou um outro nome que não o seu. Assinou com o nome de alguém que nem conhecia. Sei lá! Talvez nem se conhecesse o suficiente.
E deixou o escrito jogado no primeiro banco de praça que viu. Provocaria os olhares e corações curiosos por ali.
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
Do Rapaz Mentiroso (ou Abortado)
Ele falou primeiro em esperar a maré baixar. Mas depois pensou melhor e falou em deixar as coisas acontecerem. Ele ainda falou, e eu me lembro, que não acreditava em ninguém. Mas ele mentiu diversas vezes, e o pior, mentiu pra todo mundo. E ninguém na sua cidade sabia de fato quem ele era. E com os olhos cheios de água, saiu a despedir-se de um e outro na cidade como se nunca mais ele fosse voltar. Encontrou a dona dos seus sonhos velhos. Jogou nela os novos sonhos. Pôs um tanto de rancor e rispidez na voz e se deixou abandonar pelo texto decorado desde outrora.
A madame, então, chorou muito, como era de se esperar, como estava no script. E todos da cidade ficaram impressionados e não sabiam o porque daquilo estar acontecendo.
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Céu
Abriu um sorriso que
guardara por tanto tempo
Colocou em cima da cama as fotografias velhas
E ria como nunca mais rira
As estrelas presas no seu céu brilhavam como numa
Noite de baile
Como se casais estivessem se apaixonando naquele
Exato momento
guardara por tanto tempo
Colocou em cima da cama as fotografias velhas
E ria como nunca mais rira
As estrelas presas no seu céu brilhavam como numa
Noite de baile
Como se casais estivessem se apaixonando naquele
Exato momento
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
A Apaixonada
Se animou e tomou a caneta e um papel cartão vermelho. Enquanto no rádio tocava uma música francesa que ela sempre ouvia quando seu pai ainda era vivo, ela acendia um cigarro e bebia pequenos goles de um vinho que há muito queria abrir. Sozinha na sala de casa. Suas personagens estavam todas dormindo. Ela não podia mais escutar suas vozes em sua cabeça.
Escreveu uma carta apaixonada à mulher de sua vida. A mulher que prometera nunca mais amar. A mulher que estava em sua cabeça há anos. Como um passe de mágica, ouviu a voz de Paulo Henrique. E como não pudesse ser vista com esta carta de amor proibida, escondeu-a embaixo da almofada do sofá.
Paulo Henrique saudou sua esposa com um beijo. Ela correspondeu fisicamente. Em sua cabeça não era ele que a beijava.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
O Boteco: A Cena
Estava com um vestido lindo. Era novo. Acabara de comprar numa dessas lojas de gente rica. Tinha comprado especialmente para aquela ocasião. Então, tinha entrado naquele boteco pra saber como era e tinha adorado. Prometeu que voltaria tão logo quanto achasse um bom motivo para beber. Acendeu um cigarro. Ela aceditava parecer uma dessas damas de revista chique ou da novela da televisão. Era loucura, ela sabia. Mas queria uma vez apenas se sentir como se sentem essas mulheres.
Pediu uma mesa pra dois ao garçom. Não teria um encontro. Não era do tipo de mulher que tem encontros. Apenas não tinham mesas pra uma pessoa neste lugar e o balcão não era lugar para uma dama como ela.
Sentou, com seu cigarro ainda incensando o ambiente, pediu gin e tônica e bebeu devagar, como degustasse um bom vinho.
Pensava em algo vivido no passado, como a morte de sua mãe, ou a despedida de seu pai no dia de sua mudança para a capital. Pensava em algo triste para fazer as lágrimas descerem seu rosto. E elas desceram.
E a maquiagem, com tanto trabalho colocada, escorria pela sua face, como a chuva lavando a areia de uma colina. E borrada, a maquiagem tornava mais trágica aquela cena. Uma mulher. Uma dama.
Estava como ela queria. A cena estava completa. Não precisou ter um amor perdido, um animal de estimação morto ou um grande desespero. Só queria saber como era ser a mulher estranha de maquiagem suja e com cigarro na mão, para quem todos olhavam naquele ambiente.
Como se nada tivesse acontecido, pediu a conta. Ainda em lágrimas, pagou ao garçom, levantou-se e saiu. Saiu sem olhar para trás, sem limpar o rosto e sem apagar o cigarro
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
O Boteco: Aniversário de Pierre
Acendeu um cigarro. Sentado sozinho numa mesa de bar, pediu um chopp e fumava. Sentia falta disso. Há muito tempo não se dava esse pequeno mimo. Mas era véspera de seu aniversário, podia fazer isso e não se preocupar com o mundo à sua volta.
Apesar de não estar dando a mínima atenção ao mundo que girava em seu redor, Pierre notou a entrada de Solano no bar. Como não notar? Era o cara mais bonito que seus olhos haviam visto.
Solano tinha a boca bem vermelha, olhos castanhos e pele bronzeada de sol. Não era forte, nem franzino, tinha uma cara de homem, com a barba por fazer, sobrancelhas grossas, mas desenhadas pela natureza a fim de garantir bom resultado à escultura de Deus. Assim que Solano percebeu o olhar tão encantado de Pierre, abriu um sorriso. Era o sorriso mais belo e mais gracioso de todo o ambiente.
Solano sentou próximo ao balcão, pediu uma dose de whisky e rezou ter coragem de falar com o homem mais gostoso e, no entanto, solitário do bar.
Pierre, como estivesse escutando as preces de Solano, levantou-se, perguntou se poderia sentar ao lado dele. Claro que sim, respondia o sorriso de Solano. Conversaram, Pierre disse que no dia seguinte seria seu aniversário e então, seu mais novo conhecido decidiu que comemorariam a partir daquele instante. Um beijo selou este momento e o resto da noite passaram agarrados um ao outro. O resto dessa noite e as outras noites seguintes dos treze anos seguintes e até hoje.
domingo, 28 de novembro de 2010
A mulher ao pé do prédio (ou Bóris escreve histórias das quais não se sente dono)
Bóris passou, então, a rabiscar algum papel que encontrara na sua mesa de trabalho. Riscou quase todo o papel, mas deixou no centro uma figura que lembrava um triângulo, nada muito regular, ou desenho digno de um arquiteto. Era apenas o desenho de um cara desencantado com a meia dúzia de histórias que era obrigado a escrever todos os dias. Histórias que não lhe pertenciam, que não saíam de sua boca, nem sequer de seu coração. Escrevia assim, todo dia, a fim de pagar suas contas. Não, não sairia dali apenas porque queria ser livre para colocar no papel as suas histórias, não sairia dali porque sonhava em ver as pessoas no palco representando o que escrevera. Não sairia dali pois sabia que não teria sucesso em lugar algum, em momento algum da vida. Sabia que não seria aceito fora dali, que seus conhecidos todos não o apoiariam nessa loucura. E, a propósito, não sairia dali pois tudo o que conquistara estava ali e ali era o melhor lugar onde estivera toda a vida, mesmo não sendo o lugar do seu coração.
Enquanto tomava um café, olhou para baixo do prédio não muito alto, no centro da cidade. Conseguiu avistar de lá de cima uma mulher parada em frente ao prédio que parecia num impasse entre entrar e não entrar no prédio. A mulher olhava o relógio, tomava o celular na mão, colocava a mão na cintura, ou no bolso, ou alisava o cabelo. Ele reconheceu a mulher. Sabia quem ela era, mas não queria descer e encontrá-la. Lembrou de suas histórias, não a meia dúzia diária, mas aquelas que guardava na gaveta do criado-mudo herdado de sua vó. Lembrou que ela o inspirara numa delas e lembrou perfeitamente toda a história.
A mulher continuava lá na porta do prédio. Não demorou muito e tomou coragem de dar um passo. Mas a coragem não era suficiente para fazê-la entrar, era descoragem. Saiu da frente do prédio onde Bóris trabalhava. Saiu do ângulo de visão de Bóris. E como num passe de mágica, saiu da cabeça dele, a história que escrevera pensando naquela mulher.
Voltou à sua mesa onde achou o triângulo desenhado. Lembrou que precisava fazer novas histórias, ainda não chegara na quarta. Tossiu e recomeçou a escrever.
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
Bóris
E como fazia todas as manhãs, acordou com vontade de mudar o mundo. Colocou sua roupa de super herói, penteou os cabelos, escovou os dentes, comeu uma maçã do herói e abriu a porta. Saiu da toca secreta do herói. Mas ao chegar ao portão se deu conta que era herói de nada algum e, então, saiu de casa apenas tentando não morrer naquele dia!
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
American Pie
Eram sete e meia da manhã e ela não acordara, porque ainda não dormira. Mantinha os pés quentes, apesar do inverno que fazia do lado de fora do cobertor. Não conseguia fechar os olhos e relaxar. Parecia que estava com algum estimulante, mas nem uma trepada, nem sequer uma tinha dado. Não trepava há algum tempo. Mas isso também não importava. Há muito não achava o pau ideal. E preferia ter em suas mãos, boca e boceta o pau ideal. Não, qualquer pau não servia.
E ao invés de passar as noites nos bares com as amigas à procura de alguém, matava suas noites em café, chocolate e cerveja, mas esta última só de vez em quando. Só nos momentos em que queria se sentir parte de um mundo normal.
Então o rádio-relógio apitou oito horas e ainda nenhum sono tinha chegado em seus olhos. Pensou que seria melhor se levantar e se vestir para o trabalho, afinal às oito já estava um pouco atrasada. Lembrou-se que era feriado nacional. E o desfile com carros e cavalos, provavelmente estaria, dali a instantes, na televisão. Mas não ligou a TV. Preferiu não ver nenhum cavalo cagando a rua inteira. Preferiu apenas continuar deitada. Por ela, morreria naquela situação. Deitada na cama, sozinha.
A cama não era de casal. Era uma cama de solteiro. E ela sempre preferiu. A cama de casal lhe dava sempre a impressão de estar só. E isso, apesar de se seu desejo, não era muito bom. Gostava de ser a mulher independente e solteira e dona de seu próprio nariz, mas não lhe apetecia a solidão em noites como a anterior, de inverno.
Não suportava ver o relógio de parede caminhar e os pássaros cantarolando felizes apesar do frio, já lhe davam certa agonia. Desejou naquele momento controlar os pássaros e fazê-los calar a boca. Calar o bico, quis dizer. Desejou no instante seguinte que seus vizinhos não conversassem na varanda, que o moço vendedor de pamonha não tivesse nunca comprado aquele megafone e que o rádio-relógio não apitasse a cada hora.
Bom, estava cansada de não conseguir dormir. Ligou a TV. Talvez os cavalos a entretesse. Calçou as pantufas com estampa de cachorro pra aquecer mais ainda do inverno denso que invadia impiedosamente seu quarto. E então, como mágica provocada pelas crianças do coral que, neste momento, na TV, cantavam a música que seu pai costumava cantar antes dela dormir, ela caiu em um sono profundo de mais de quinze horas e não quis saber de mais nada. Nem da saudade do pau, nem da saudade do pai. Nem da vontade de calar os passarinhos, nem de calar a pamonha. Nem na cama de casal ela pensava mais, muito menos na possibilidade de um dia chegar a ter uma. E a TV, ao invés de feriado, anunciava a morte de um cantor lenda do Rock, cuja principal canção embalava o sono da insone moça.
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Um Monte de Palavras Descontroladas e Sem Sentido Algum
Vidro.
Papel.
Estrela.
Canhão.
Vidro.
Vinho.
Leite.
Esquema de Intrigas.
Raiva.
Revira.
Volta.
Bota.
Mosca.
Cortina.
Vômito.
Padre.
Marinho.
Bené.
Dito.
E feito e faço e faca.
E medo.
Papel.
Estrela.
Canhão.
Vidro.
Vinho.
Leite.
Esquema de Intrigas.
Raiva.
Revira.
Volta.
Bota.
Mosca.
Cortina.
Vômito.
Padre.
Marinho.
Bené.
Dito.
E feito e faço e faca.
E medo.
Noite de Desafetos
Odeio esse coração amargurado que carrego batendo a cada segundo.
E esse samba que não pára de tocar em minha cabeça.
E odeio quando não encontro minhas lembranças.
E quando fica mais fácil chorar do que rir.
Odeio quando o dia nasce e eu ainda não aprendi a viver o ontem.
Odeio quando a TV só tem notícias sobre caretas.
Odeio quando a minha caneta falha no meio de um poema.
E odeio quando a esperança é a primeira que morre.
E esse samba que não pára de tocar em minha cabeça.
E odeio quando não encontro minhas lembranças.
E quando fica mais fácil chorar do que rir.
Odeio quando o dia nasce e eu ainda não aprendi a viver o ontem.
Odeio quando a TV só tem notícias sobre caretas.
Odeio quando a minha caneta falha no meio de um poema.
E odeio quando a esperança é a primeira que morre.
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
A Canção Dos Esquecidos
La la la la la la la la la la la la
Canção de amor.
La la la la la la la la la la la la
Coragem de andar
La la la la la la la la la la la la
Sorriso amarelo com dentes em aparelho
Escreveu sem saber o que realmente queria dizer
Mas manteve as coisas escritas, ainda assim.
E depois de tudo, resolveu pensar em quanto tempo perdeu
E chorou uma pá de lágrimas que não tinha gosto de nada
Gritou um nome que ninguém pôde escutar
Uma melancolia estranha e de repente
Estava louco mais uma vez
Estava rouco mais uma vez
Estava pouco mais uma vez
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Olhar Encharcado
Lembra daquela vez, sentados no Porto?
Onde não podíamos explicar o que estava acontecendo?
E os olhos cheios de amor?
E os pés cheios de areia?
E a cabeça cheia de sonhos?
De lá até aqui, só mesmo restou o olhar encharcado.
E mesmo que estejamos na mesma areia,
Olhando o mesmo mar,
Sentados no mesmo lugar que
Outrora visitamos para sonhar com o futuro,
Mesmo que encontremos
O mesmo vendedor de cigarros
Que nos contou muitas de suas
Histórias de amor,
Ou que passemos perto dos velhinhos
Que sorriram ao nos ver apaixonados.
Mesmo isso!
Nada será suficiente para
Trazer de novo
Aquela brisa que vinha com os cafunés
E com as nossas mãos entrelaçadas.
Onde não podíamos explicar o que estava acontecendo?
E os olhos cheios de amor?
E os pés cheios de areia?
E a cabeça cheia de sonhos?
De lá até aqui, só mesmo restou o olhar encharcado.
E mesmo que estejamos na mesma areia,
Olhando o mesmo mar,
Sentados no mesmo lugar que
Outrora visitamos para sonhar com o futuro,
Mesmo que encontremos
O mesmo vendedor de cigarros
Que nos contou muitas de suas
Histórias de amor,
Ou que passemos perto dos velhinhos
Que sorriram ao nos ver apaixonados.
Mesmo isso!
Nada será suficiente para
Trazer de novo
Aquela brisa que vinha com os cafunés
E com as nossas mãos entrelaçadas.
domingo, 22 de agosto de 2010
A Carta de Letícia (ou Aquele Texto Pós-adolescente)
E agora?
Não, não o José!
E agora? Você?
Sem querer ser plágio.
Mas e agora?
Não havemos de ser tão pobres na alma
Não havemos de querer um mundo mais cinza do que colorido
Não há mais estradas tão tortuosas e tão cheias de neblina
As estradas são estradas, dentro da minha cabeça.
E as muitas horas perdidas e colchões manchados de tristeza?
E agora?
Não se farão mais presentes?
Nem virão com uma fita vermelha e um laço bonito?
Acho que não
A mesma água que tomamos ontem
A mesma água pela qual fomos batizados
Essa mesma água já lavou tudo que trouxemos de ruim.
E nos restou um travesseiro
Ao invés de espuma ou penas, há flores de camomila
Ao invés de insônia e maus pensamentos
Há sonhos e velhos desejos voltando à vida
E há beijos de boa noite
E há canções de ninar
E há, como nunca houve, vontade de acordar amanhã.
Não, não o José!
E agora? Você?
Sem querer ser plágio.
Mas e agora?
Não havemos de ser tão pobres na alma
Não havemos de querer um mundo mais cinza do que colorido
Não há mais estradas tão tortuosas e tão cheias de neblina
As estradas são estradas, dentro da minha cabeça.
E as muitas horas perdidas e colchões manchados de tristeza?
E agora?
Não se farão mais presentes?
Nem virão com uma fita vermelha e um laço bonito?
Acho que não
A mesma água que tomamos ontem
A mesma água pela qual fomos batizados
Essa mesma água já lavou tudo que trouxemos de ruim.
E nos restou um travesseiro
Ao invés de espuma ou penas, há flores de camomila
Ao invés de insônia e maus pensamentos
Há sonhos e velhos desejos voltando à vida
E há beijos de boa noite
E há canções de ninar
E há, como nunca houve, vontade de acordar amanhã.
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
Frida
Acendeu todas as velas que conseguiu encontrar em casa
Fez uma oração a todos os santos que conhecia
A todos os orixás, da terra e da água, aos caboclos.
Fez uma canção especial à Rainha das Águas, que é Iemanjá.
Dessa forma continuou a noite inteira entoando louvores e cânticos
Clamando à mãe natureza, aos seus deuses e deusas.
Escreveu num papel uma lista de desejos, já acendera o fogo
Agora queimava a lista,
E como a deixar que o vento soprasse seus desejos aos deuses
Deixou que o vento levasse as cinzas para longe
Cantava durante todo o ritual
Molhou os cabelos com a água abençoada por ela mesma,
Enquanto entoava as canções
Era parte do ritual, se fazer
Parte da natureza também.
Evocou mais uma vez todos os seus deuses, orixás, santos...
Podia sentir o poder de suas orações.
Como um sopro de energia
Não sabia no que resultaria aquilo, mas sentia-se plena
E sua alma já estava em êxtase
Continuou cantando às águas,
Pediu a benção dos céus,
Reza com a vela acesa
Entre dizeres ensaiados e espontâneos
Lágrimas e arrepios e vontade de ser tudo
Como se todo bem e todo mal se encontrasse nela
Como se todo o poder do universo estivesse em seu corpo
Como a magia da noite e do dia pudesse fazê-la completa
Era ela acompanhada por anjos e santos
Era ela comandando exército de bem e mal, numa equivalência
Nunca antes vista
E era nela que tudo parecia convergir
E num vento muito forte, o apagar de todas as velas
E um raio cortando o céu
E a chuva que começava a cair com muita força
E a certeza de estar sendo escutada
Já não entoava mais cântico algum
Calou-se
E ficou sentindo-se parte do universo
Sentido o universo girar contigo
E todos os deuses lhes soprarem segredos aos ouvidos
E caiu num sono tranquilo.
quarta-feira, 21 de julho de 2010
calmante
borboleta em cima da mesa
como um monte de cores em cima
da prancheta
e um
minuto apenas de sobriedade
e um gole na cachaça pra me fazer dormir
e um beijo e uma raiva e um veneno
e sem querer, explodi
desde que eu te vi ontem e me imaginei dentro
de seu corpo
e o meu corpo querendo sentir
contagem regressiva em nossa cama
e dez armar o gozo
pra não se fazer enxergar suor
vai dormir hoje com um pouco de remédios
e vai fazer efeito essa droga que ele fuma?
e esse pó que clareia seu rosto e esconde suas feições
e essa areia que está na sua boca
na sua pele
no seu chão
no chão da sala
se arrasta
moleque cheio de tremores
temores
terrores
atores em cena
e
luz e palco e aplauso
pra puta que pariu
no asfalto
deixou o sangue escorrer
suor e sêmen
escorrerem
e o pouco da noite passada
passar na lembrança
cachaça, porra, fumaça
sonos em borboleta de cores vic
domingo, 18 de julho de 2010
(sem título)
me sobra um olhar no restinho de madrugada
quando planos e sonhos e desejos e quereres
já não têm a mínima importância
se não fosse por um pedaço de lua que ainda se vê no alto
poderia dizer que era pura imaginação
contar estrelas com a cabeça num travesseiro de areia
nunca tinha sido tão gostoso
e as mãos entrelaçadas
e os cabelos
que são enovelados
enovelaram também os carinhos
sobre jogar, no início da manhã
presentes pra sereia
e desejar que o amor seja eterno
sobre acreditar em mandinga
a mandinga que uniu um e outro
num só
quando planos e sonhos e desejos e quereres
já não têm a mínima importância
se não fosse por um pedaço de lua que ainda se vê no alto
poderia dizer que era pura imaginação
contar estrelas com a cabeça num travesseiro de areia
nunca tinha sido tão gostoso
e as mãos entrelaçadas
e os cabelos
que são enovelados
enovelaram também os carinhos
sobre jogar, no início da manhã
presentes pra sereia
e desejar que o amor seja eterno
sobre acreditar em mandinga
a mandinga que uniu um e outro
num só
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Cotidiano (ou A História de Uma Madrugada)
Rafael levantou, vestiu-se, olhou para a cama, beijou quem nela dormia, saiu pela porta acendendo um cigarro.
Rafael não conseguiu sair. Sentou no sofá da sala e esperou quem estava na cama acordar pra poderem conversar. Tomou um iogurte.
Rafael esperou acendendo mais um cigarro. Sentia-se estranho. Ouviu um barulho que vinha do quarto. Estava quase na hora.
Rafael ficou apreensivo. Pôde ouvir a água do chuveiro cair, um cantarolar que vinha do banheiro. Levantou, quis ir até lá. Preferiu o não
Rafael sujeitou-se a esperar mais uma vez. O chuveiro desligado tornou a cena mais apreensiva.
Rafael olhou a porta do quarto abrir-se. Viu o sorriso de quem estava na cama. Não resistiu ao beijo que desejava.
Rafael pôde sentir a língua de quem estava na cama roçar a sua. Seu desejo era tão grande. Tudo podia esperar. Voltou à cama. Voltaram.
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