Quando teus pés cansarem, eu poderei te carregar no colo, como uma mãe a um filho. Quando o teu cabelo cobrir teu rosto, eu poderei guiar os teus caminhos como um bom cão ao seu cego. Quando teu coração parar, poderei eu arrancar o que sobra em mim de emoção para soprar em ti alguma vida. E se ainda assim, não conseguires perceber o mais breve e insólito sentimento, eu correrei para cobri-lo de toda a alma que te falta.
quarta-feira, 21 de novembro de 2012
sábado, 27 de outubro de 2012
João
O salto parecia tão grande. E na verdade, ninguém deu atenção ao que estava acontecendo. Nem mesmo ele. Sim, ele que vivia aquela história toda. Ele não sabia o que estava acontecendo de fato. Ignorava o que os outros, os amigos, os amigos dos amigos diziam. Não por maldade, mas apenas por ignorar, por não conseguir compreender o que diziam. E assim foi levando adiante sua pobre vida, sua vidinha, como ele chamava. Sem sequer pensar em dar o salto que pudesse levá-lo a algum outro lugar que não seu lugar qualquer.
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
A paixão assistida por uma janela todos os dias
Deixe! Deixe eu me apaixonar, deixe. Não é pedir demais. Deixa eu ficar contigo enquanto você olha as fotos que tirou ontem. Deixe eu acender seu cigarro, enquanto você se preocupa com a máquina de lavar ligada. Deixa eu encher sua taça de vinho, enquanto você canta uma baladinha italiana pra nós dois. Deixa eu arrumar seus souvenires num canto da mesinha de centro, para que possamos jantar juntos. Deixa eu secar as suas mãos em minha camisa, antes de comermos alguma coisa. E deixe eu correr minhas mãos sobre seus cabelos e entrelaçar meus dedos em seus fios. Deixe eu roçar minha barba na sua. Deixe eu beijar sua barriga te fazendo rir com as cócegas que só eu sei fazer você sentir. Deixa eu encostar meu corpo no seu, devagarinho, como se fosse encaixar uma peça de quebra-cabeça. Deixa eu mirar seu olhar quando me diz que não devo fazer nenhuma dessas coisas, sabendo que farei, mesmo assim. Deixa eu perceber quando devo mudar de lugar de seu corpo quando você quiser sentir minhas mãos em algum outro canto. Deixe eu fechar seus olhos com uma de minhas mãos e te levar pro seu quarto. Deixe eu fechar a porta pra que seu gato não escute nenhuma de nossas sacanagens ditas entre gemidos. Deixa a comida esfriar no prato porque o universo é só nosso.
terça-feira, 16 de outubro de 2012
Sobre o amor e o mar
E quando vem o medo e a confusão, o coração bate mais forte que o costumeiro. E a sensação é de perder algo que nunca foi seu. E de estar dando um ponta-pé no mundo inteiro. Mas levando uma ferida amarga sobre a língua, que nem uma palavra sequer pode falar pois está presa embaixo de toneladas de remorso. E de amor e ódio. E de rancor e piedade. E de tesão.
Quando a vontade de sonhar é maior que a realidade que cerca. Quando as imagens aparecem sem foco e sem sentido. Como se vivesse num barato de um alucinógeno. Aos poucos vai acalmando, mas não passa.
Coração batendo, tá fingindo que não tá.
Quando a vontade de sonhar é maior que a realidade que cerca. Quando as imagens aparecem sem foco e sem sentido. Como se vivesse num barato de um alucinógeno. Aos poucos vai acalmando, mas não passa.
Coração batendo, tá fingindo que não tá.
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
O ósculo
Beije-me. Vamos! Beije-me, agora! Minha boca tem sede de você! Tal como a história da corsa ou da terra seca que necessita de chuva. Então? Beije-me, com todos os beijos de tua boca. É só o que desejo em meio a essa noite fria, nessa capital fria, com almas perambulantes... Frias. Tão esquisitas que suas sombras parecem não ser de seus corpos. Não fuja de um simples pedido. Venha, como um vampiro sugar minha seiva de vida.
Onde estás tu que não percebes meu calor, morfina para tuas dores? Não sente que, ao aproximar-me, ficas arrepiado? Estou perto, cada vez mais perto. Posso sentir tua respiração quente em cima de meus lábios. Desvia um tanto de teu olhar. Abrace quem te espreita de muito perto.
Agora sentes? Fecha teus olhos e quero que possa me sentir tocar teus lábios. É a minha língua umedecendo-os. E agora que minha barba, ainda por fazer, arranha teu rosto, teu pescoço, teu peito e barriga? Deseja-me o suficiente para um beijo? Apenas um beijo, é o que peço. Não quero teu corpo por inteiro, nem tuas mãos me tocando, nem teu sexo. Quero um beijo. Uma única prova de como somos iguais. Isso. Agora mais perto e mais perto e mais perto. Já posso senti-lo tão dentro de mim, com tua língua a roçar a minha. Agora mais ainda.
Posso imaginar que tu me desejas? Não por acreditar que me sentirei melhor. Mas por acreditar que tu te sentirás melhor assim. Pronto. Já percebes que assim me tens nas mãos? E que podes fazer o que quiseres comigo? Era o que gostaria de provar-te. Vamos, solte-me. Deixa que eu siga meu caminho. E se quiseres, chama-me.
Onde estás tu que não percebes meu calor, morfina para tuas dores? Não sente que, ao aproximar-me, ficas arrepiado? Estou perto, cada vez mais perto. Posso sentir tua respiração quente em cima de meus lábios. Desvia um tanto de teu olhar. Abrace quem te espreita de muito perto.
Agora sentes? Fecha teus olhos e quero que possa me sentir tocar teus lábios. É a minha língua umedecendo-os. E agora que minha barba, ainda por fazer, arranha teu rosto, teu pescoço, teu peito e barriga? Deseja-me o suficiente para um beijo? Apenas um beijo, é o que peço. Não quero teu corpo por inteiro, nem tuas mãos me tocando, nem teu sexo. Quero um beijo. Uma única prova de como somos iguais. Isso. Agora mais perto e mais perto e mais perto. Já posso senti-lo tão dentro de mim, com tua língua a roçar a minha. Agora mais ainda.
Posso imaginar que tu me desejas? Não por acreditar que me sentirei melhor. Mas por acreditar que tu te sentirás melhor assim. Pronto. Já percebes que assim me tens nas mãos? E que podes fazer o que quiseres comigo? Era o que gostaria de provar-te. Vamos, solte-me. Deixa que eu siga meu caminho. E se quiseres, chama-me.
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
Sem Título (Segredos)
Contava agora os seus segredos para outro homem. Um homem que não era o seu. Sentiu falta do colo de outros dias. O colo que fora seu por tanto tempo, por mais de quinze anos. Uma fraca lágrima surgiu em seu olhar e ele foi incapaz de impedir que ela se derramasse pelo seu rosto. Limpou com um lenço rapidamente, sem deixar que o outro percebesse a tristeza em seu olhar. E na verdade, não queria que ninguém soubesse que ele já não sorria há algum tempo.
Quando Carlos o deixou, ele achava que não conseguiria nunca mais levantar da cama. Claro que era um exagero. Ele conseguiu não só levantar da cama. Conseguiu também sobreviver cada dia que se seguiu. Não fazia a menor ideia de como ele podia realizar todas as tarefas que se propunha a fazer diariamente. No início, mesmo lavar o rosto era quase impossível. E já conseguia, hoje em dia, ao menos cantar alguns versos. Decerto, era uma canção que lembrava a bela história deles dois. E a cada semana, a lembrança tinha menos dor, menos peso, menos amargura.
Um dia conseguiu mudar a lembrança. Já não era a imagem de Carlos cruzando a porta que vinha à sua mente ao cantarolar. E talvez nunca mais seria. Começou a arrumar malas e pôs nelas todas as esquecidas memórias. Deixou na portaria junto com um envelope. Ligou para o dono e pediu que ele pegasse. Este pensou que poderia se tratar de um reencontro, mas recebeu o recado
quinta-feira, 23 de agosto de 2012
João Alberto e a gaveta de meias
Era segredo. E quem soubesse dele, poderia tê-lo nas mãos para sempre. João Alberto guardava a sete chaves o que não queria que ninguém, além dele mesmo, soubesse. E era muito bem guardado. Jamais tinha comentado com alguém ou escrito em nenhum diário, jamais tinha sequer postado em um blog, aquilo que guardava. Nem pensar alto ele costumava pensar, para que ninguém pudesse descobrir por acaso.
E chegou um dia em que pensava com seus botões sobre o assunto. E João Alberto não quis mais guardar esse segredo com ele mesmo. Não repartiria com ninguém, apenas escreveria num pedaço de papel e guardaria na gaveta de meias. E assim o fez.
João passou anos sem nem lembrar de seu segredo, mas ao escutar novamente uma música que costumava embalar seu sono no passado, lembrou-se da gaveta. Seu segredo nunca tinha sido retirado de lá. Ao reler a própria carta para si mesmo, lembrou-se de como fora feliz, como vivera os melhore momentos de sua vida e o maior amor dela também. E passou a noite cantarolando canções do passado.
E chegou um dia em que pensava com seus botões sobre o assunto. E João Alberto não quis mais guardar esse segredo com ele mesmo. Não repartiria com ninguém, apenas escreveria num pedaço de papel e guardaria na gaveta de meias. E assim o fez.
João passou anos sem nem lembrar de seu segredo, mas ao escutar novamente uma música que costumava embalar seu sono no passado, lembrou-se da gaveta. Seu segredo nunca tinha sido retirado de lá. Ao reler a própria carta para si mesmo, lembrou-se de como fora feliz, como vivera os melhore momentos de sua vida e o maior amor dela também. E passou a noite cantarolando canções do passado.
terça-feira, 21 de agosto de 2012
Alguém precisava dizer (ou Alex e Bruna)
Porque você achou que nada disso era de verdade. Porque você achou que estaríamos criando ilusões desde que nos vimos pela primeira vez. Talvez seja por isso que nada foi verdade enquanto andávamos de mãos dadas o trocávamos beijos apaixonados na areia da praia ou ainda as juras de amor em bilhetinhos papel cartão. Eu sempre soube que não poderia ser assim, mas você nunca quis me ouvir. Agora que nós já entendemos do que se trata, sim, se trata exatamente da hora em que acenamos sem graça e com olhar encharcado, agora podemos cumprir a promessa de nos deixar quando déssemos conta de que a história acabara de chegar ao fim.
segunda-feira, 28 de maio de 2012
escorpião
acendeu o último cigarro que encontrou no maço. tomou uma média pra tirar o bafo dos pesadelos. ainda estava acordando. e na mente, ainda podia ver o escorpião caminhando pelo seu corpo. não podia sequer fechar os olhos para um bocejo que voltava a sentir o passeio do escorpião por seu pescoço. e quando abria os olhos não se sentia aliviado por parecer que ainda sonhava. pelo contrário, ficava até desapontado em ser tudo um produto de sua cabeça. o escorpião ia sumindo de sua mente, como qualquer sonho faz depois do despertar, mas ele se esforçava para lembrar. forçava os olhos fechados para que as patas do escorpião não pudessem sair do emaranhado formado com seus cabelos. tentava manter na memória as pinças que numa cena prendia seus lábios e o impedia de falar. pesadelo. sonho. não sabia o que era, de fato. mas queria deixar isso guardado. já no final do cigarro, lembrou de como fizera para se livrar. apenas um sopro e o escorpião mudara de forma. passava a ser imagem, desenho no papel. inofensivo. inofensivo. acordou e no mesmo papel pintado com o veneno do escorpião, enrolou um baseado.
quarta-feira, 28 de março de 2012
Sem título
Quantos querem os desejos mais internos
Explanar a essência e algo a descobrir
Nunca mais o resumo foi
O meio de aprendermos a novela
E me parece que ela não deseja mais
E quando será que a nova poesia vai surgir?
Se ele nem sequer sabe se vai mesmo ter poesia nessa história
Esqueceu o que queria dizer no meio dessas palavras
Deixa pra mais tarde essa arte de brincar
Não dá pra saber se vai ser sim ou não.
domingo, 22 de janeiro de 2012
Tereza
Andava pela areia catando conchinhas
Cada passo deixando marcas
Deixava o cabelo solto ao vento flamular como uma bandeira
A barra do vestido molhada
E ela apenas ia.
Cada passo deixando marcas
Deixava o cabelo solto ao vento flamular como uma bandeira
A barra do vestido molhada
E ela apenas ia.
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
Tranquilizante
Derramei um punhado dos comprimidos em apenas uma das mãos. Apanhei o copo de água que estava sobre a mesa. Com um em cada mão. Não sabia qual passo dar em seguida. Na verdade, sabia. Tive medo. Medo de sentir dor, medo do inferno. Fiquei pensando nas prováveis lágrimas de minha mãe. Mas será que ela choraria? Claro, mães sempre choram. Pensei. Tomei só o copo d'água.
domingo, 13 de novembro de 2011
miserere nobis
porque eram todos papéis em verdade. não eram nada bons. não eram nada ruins. eram apenas personagens do grande espetáculo armado pelo destino. e deus o dono do palco, brincando com as vidas, dono da festa e da balbúrdia inteira. quando morreu não sabia se queria mesmo a morte, mas deus, sabido que era, matou-o antes mesmo dele o fazer. deus sabe tudo. até da hora de acabar com a história de alguém. esse deus de vocês é um grandissíssimo fanfarrão. um diretor medíocre. um péssimo ator de si mesmo. um bêbado sentado no meio-fio.
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Antônia e Alfredo
Antônia sentou na cama. Era a mesma cama há 50 anos. É claro que havia passado por algumas reformas, alguns riscos feitos pelos filhos, netos, afilhados e sobrinhos que passaram por lá. Nada que tivesse destruído a beleza do móvel de madeira de lei. Era mogno, puro mogno. Umas repinturas em verniz e estava boa de novo. Antônia se orgulhava do presente de casamento de sua já ausente madrinha.
Lembrou nesse instante em que sentava na cama de todas as histórias já passadas naquele quarto. Seus filhos brincando, suas netas escondendo-se do avô debaixo da cama, a empregada que volta e meia tropeçava numa tábua de madeira solta do chão. E riu. Riu da cara de raiva que a empregada sempre fazia resmungando e ameaçando retirar a tábua para nunca mais bater o pé. Ela nunca tirara. E a tábua continuava ali, onde sempre estivera. Agora não fazia mais ninguém tropeçar. Todos já tinham aprendido que não deviam andar por ali ou que deveriam ter cuidado ao passar por ela.
Lembrou-se de outra coisa. Na verdade, se deu conta de como a cama estava fria. No inverno era a única coisa que odiava, ter que deitar na cama fria. Desde que Alfredo morrera, ninguém nunca mais esquentara a cama com ferro de passar antes dela deitar. Para Antônia. era assim que Alfredo provava seu amor por ela, mesmo tantos anos depois de casados. E Antônia se sentiu afagada por sua lembrança. Mas Alfredo não estava mais com ela.
Há sete anos dormia sonhando em acordar do lado de seu amado. Há sete anos nutria a esperança dele buscá-la. Sempre antes de dormir colocava seu vestido azul e o broche que usara no dia de seu casamento. Era como um ritual, um novo sim que dizia a cada noite. Fazia suas preces e incluía nela sempre a memória do marido. Deitava do lado direito da cama e nunca ultrapassava o limite imaginário que existia nesta, que guardava o lado esquerdo para Alfredo. Ainda colocava um punhado do perfume do marido no travesseiro do lado. Toda noite se preparava para recebê-lo.
Na manhã seguinte, Antônia terá realizado seu sonho. Já estará arrumada, pronta para o encontro. E estará tão feliz por isso que as lágrimas dos outros derramadas por sua ida serão em vão. A alegria do reencontro será muito maior que a perda e a saudade que ficarão. Enfim Deus unirá de novo o que por teimosia separou e Antônia e Alfredo poderão viver seus felizes para sempre.
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
Insônia
Era madrugada de terça-feira e Marcelo não conseguia dormir. Trabalharia, no dia seguinte, com os olhos vermelhos. Era um conjunto de emoções que nunca tinha experimentado. Putz! Em pensar que Marcelo era só um jovem apaixonado. Não sabia que a paixão doía tanto. Todas as vezes que dissera-se apaixonado, mentira para si e para todas as que escutavam. Mas dessa vez era diferente. Estranhamente diferente.
Insônia era uma realidade nova, medo de perder também. As lágrimas de saudade também. E que droga estava fazendo que não tinha ligado ainda. Mas era alta noite. Não devia ligar para ninguém uma hora dessas. Deitou na cama e olhava para o teto, como contemplasse o universo inteiro. Daí então, pode sorrir. Gargalhou, na verdade. E só uma cena lhe vinha à mente. Um beijo inesperadamente recebido, um susto, um olhar encabulado e uma fuga desajeitada.
Marcelo queria entender. Era jovem, mas não a ponto de não ter tido experiências de amor. Sentia como se fosse explodir. E tinha no peito um ardor. Queimava como nunca antes sentira. Parecia que ia morrer. Pensou que não deveria estar se sentindo assim. E quanto mais pensava, mais doía. E mais sentia. E mais gostava de sentir. Desistiu de lutar contra.
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Ana
A chuva fina caía sobre ela, enquanto caminhava pelo largo corredor de árvores centenárias. Não sabia o que estava fazendo ali. Se sentia perdida, mas ao mesmo tempo, era como se pudesse ser feliz. Ana olhou para cima e viu as folhas balançarem no alto, os fios da rede elétrica pingando gotas de água. Começou a sorrir. Na verdade, gargalhava. Era uma felicidade que não sabia de onde vinha. Uma felicidade que nunca mais tinha sentido. E os pingos da chuva foram ficando mais fortes. E confundiram-se com suas lágrimas. E era uma alegria tamanha. Era loucura. Ela gritou. Gritou como se nunca tivesse dito uma palavra sequer. Como se o mundo inteiro a pudesse escutar. Mas ninguém a ouvia. E o que importa nisso tudo? Para Ana, era só saber ser feliz enquanto podia. Logo o sol sairia novamente, a chuva e a alegria iriam embora. Os sorrisos lhe fugiriam à face, como a água escorreria pelos esgotos e secaria no asfalto. Aproveitou os últimos instantes que sabia ser feliz e viveu a melhor de todas as experiências.
terça-feira, 26 de julho de 2011
Por Todo Ontem
Olhando para o rosto no espelho, a barba por fazer, o sorriso amarelo e sem graça. Ele era um menino na alma. Não sabia se comportar diante de tantas mudanças. Lavou o rosto e voltou a olhar o espelho. É, era capaz de se reconhecer. Mas não sabia ao certo o quanto queria ser daquele jeito. De qualquer forma, ele era capaz de ver no espelho um rosto com o qual ele conseguia se sentir agradável.
Mas por fora de seu banheiro, nada era como ele queria. Ele, decerto, tinha sonhos, mas nenhum deles era tão próximo quanto desejava que fosse. Era apaixonado, mas não sabia como externar esse sentimento. Tudo em sua realidade era tão distante. Ele era jovem, mas não era assim que se sentia. Ele era um rapaz bonito, mas não fazia sucesso algum com as garotas. Ele não se importava com isso. Sucesso com garotas era o que ele menos queria fazer. Nem com garotos, antes que concluam que era gay. Assim, pregava sua liberdade de beijar qualquer um que quisesse beijar.
Ele se sentia mesmo um viajante. Não se achava em casa, mesmo morando naquele endereço desde que nascera. Seus pais, já mortos e sua irmã, um ano mais velha que ele, nunca fizeram questão de sair de lá. Ele não, sempre sonhou como seria o mundo longe da rua estreita e arborizada onde morava. Sempre pensou que seria um lugar bonito lá fora. Lá longe, onde não pudesse lembrar de como as folhas caídas do outono tremilicavam quando os carros silenciosos dos ricos vizinhos passavam por cima delas. Ou ainda onde não precisaria ver o ônibus escolar passar toda manhã carregando as crianças para o colégio. O mesmo motorista que um dia também o levou.
Saiu do quarto, olhou ao redor, as roupas de seu affair jogadas pelo chão. Achou graça daquilo tudo. Arrumou as roupas num canto da cama, olhou pra ele e pensou que se fosse outra pessoa qualquer, estaria sentindo a mesma coisa. Nada. Não sentia nada.
Decidiu, ali, que passaria um tempo fora daquela cidade, morando num lugar qualquer longe de todas as coisas que aprendera a odiar com o tempo. Começou, então, a fazer as malas.
Local:
Salvador - BA, Brasil
quarta-feira, 6 de julho de 2011
Tarde de Outubro
Amadeu estava correndo atrás de seu passado. Escreveu uns números num pedaço de papel. Não era nada importante. Não com essa importância pensada por todos os normais. Eram só números. Sentou na poltrona que um dia fora de seu avô, já reformada por três vezes, acendeu um cigarro, pegou a xícara que estava na mesa ao lado e tomou um gole de café.
Sentiu saudades, de repente, de um sentimento do passado. Amadeu não era tão velho assim, portanto seus sentimentos não eram tão velhos também. Mas ele sentia uma falta repentina de algo que não sabia o quê. Sentiu-se vazio. Sentiu-se desnecessário. Sentiu que ainda precisava sentir esse algo de novo. Essa sensação boa de pertencimento. Era assim que Amadeu estava se sentindo hoje. E ele preferiu não sair de casa.
Amadeu não era cristão ou religioso. Na verdade tinha até um pouco de asco da religiosidade alheia. Não era comunista, nem liberal. Fazia suas compras, pagava seus impostos, contratava serviços, como qualquer ser humano. Até se deu ao luxo, certa feita, de pagar uma dessas mulheres da internet. Não era de Deus que ele sentia falta. Talvez fosse maior que Deus, o que procurava. E era mesmo. Ele só não sabia o que era.
Mas Amadeu sabia que não podia encontrar isso em lugar algum. Ao menos era a experiência que ele tinha. Sentado, no seu segundo cigarro, com sua terceira caneca de café, lembrava-se de todos os espaços que já tinha frequentado na vida: entre eles a igreja, não mentia pra si mesmo.
Por um momento, lembrou dos sonhos de sua mãe para a sua vida. Faculdade, esposa, filhos. Não, ele nunca quis isso. Sempre sonhou pra si mesmo uma viagem pela Ásia, fotografias na Austrália, um café num bistrô em Paris. Não realizou nenhuma. Mas ainda sonhava. E não. Não era disso que sentia falta.
Hoje era um dia atípico. Ele não era assim todos os dias. E na verdade nem se dava tanto a esses luxos. Acendeu mais um cigarro, dessa vez um baseado. Quando se sentia assim, perdido no mundo e desencontrado, fumava um pouco. Mas não pra se sentir melhor, pra poder fazer a situação se agravar e tentar no caos, buscar a solução para as suas faltas.
Chegou a uma conclusão importante: não era o único a se sentir assim. Mas isso não o fazia se sentir melhor, ainda. Não fazia mais ideia do que sentia. Mas já não estava mais tão abatido quanto tinha acordado. Abriu os olhos e viu que tinha ficado horas pensando em si. Levantou da poltrona que um dia fora de seu avô, reformada por três vezes e saiu da sala catando pontas de cigarro e levando a caneca para a pia. Lavou a caneca. E a água que escorria pela torneira era só a água que escorria pela torneira, nada além disso.
Local:
Salvador - BA, Brasil
sexta-feira, 27 de maio de 2011
O Boteco: Helena Candy
Saiu do banheiro, ainda pingando. Enxugou o corpo andando pelo quarto. Estava atrasado. Não sabia porque tinha dormido tanto. Mas agora que estava acordado, precisava correr contra o relógio. Alberto abriu o guarda-roupa, não o da direita. Essa noite era o dia de abrir o guarda-roupa da esquerda. E ele adorava. Escolheu o vermelho com lantejoulas. Ele sempre arrasava vestido daquele jeito. Depois de vestido, sentou numa penteadeira que herdara de sua avó. Uma penteadeira dessas de camarim! Sua avó era uma atriz. Não era nenhuma estrela, mas muito boa atriz. E isso fazia ele se sentir muito agraciado!
Sentado na penteadeira, tomou o estojo de maquiagem, algumas coisas estavam acabando, mas ele não precisaria delas essa noite. Começou a se maquiar e depois de algum tempo, quem olhasse para ele não reconheceria mais o Alberto. Na verdade ele não era mais Alberto naquela hora. Agora de chamava Helena Candy! Mas faltava ainda algo pra que Helena fosse, de verdade, ela!
Tomou uma peruca ruiva, corte Channel, colocou na cabeça e se olhou no espelho. Deu uns últimos toques na maquiagem e saiu. Diva em si mesma, não precisava da aprovação de ninguém pra ser.
E quando todos estavam desatentos subiu no palco cantando: "Babaluuuuuuuuu"!!!
Assinar:
Postagens (Atom)