quarta-feira, 17 de junho de 2015

A força desse amor nos invadiu

Sabe, Colombo, estive pensando sobre as minhas escolhas para este ano. Não foram nada corretas, sabia? Sei lá, sinto que cometi erros horrorosos e que não posso corrigi-los. É como se eu estivesse no meio de uma roda de erros e tenho que melhorar tudo a partir dessa grande merda que se tornou viver.

Pensando aqui, esse tem sido um bom ano, sabia? Não tem tanta tristeza quanto 2014, poucas mudanças, todas as que tenho eu posso controlar. Mas sinto que uma coisa está bem errada... E eu ainda não sei o que é. Talvez seja só uma vontade de fazer a coisa certa. Uma vontade que vem misturada ao desejo de ter deixado um monte de coisa pra trás.

É, Colombo, vou comprar mais cerveja porque a nossa acabou. E eu parei de fumar.

Taí, talvez seja a minha decisão mais acertada em 2015: parar de fumar.

Vou ali.

sábado, 6 de junho de 2015

Feitiço do alho pra amarrar homem (ou Sandro e o ex sem nome, mas que todos já sabem quem é)

Sandro, de repente, fechou o livro que estava lendo, algo sobre religiões pagãs, e olhou para o souvenir da torre de Piza que tinha ganhado de seu ex-namorado. Abriu um meio riso, achando meia graça naquela miniatura de torre torta. Inclinou levemente a cabeça para corrigir o erro da torre, deixou o livro de lado e tomou mais um gole de vinho. Procurou a ponta que tinha deixado no cinzeiro, reacendeu, puxou umas duas ou três vezes e continuou a fitar a torre. E ela se inclinou mais ainda. Ou foi sua cabeça que inclinou para o lado contrário. A uma altura dessa, vinho, maconha, sono, já não sabia.

Sandro tentou continuar a ler, mas as lembranças de seu ex-namorado que fora à Itália começaram a surgir e surgir e voltavam e ele já tinha mergulhado na bad trip. E começou a lembrar de como se conheceram trocando olhares na escadaria da faculdade. Sandro ainda era casado com Adriana e não entendeu porque sorriu para o desconhecido bonitinho que subia a escada e que também sorria para ele. Eles nem se conheciam e Sandro já sabia que o queria por perto o mais rápido possível. E depois ele contou a Sandro que não virou só para não dar ousadia, mas que perguntou aos amigos se sabiam quem era o de aliança na mão.

Sandro nunca traiu sua esposa e quando viu que seu pau subia agora por um rapaz decidiu separar. A onda bateu ruim de novo, sentiu-se péssimo em abandonar a mulher com quem sonhou ter filhos, até. Tomou mais um gole de vinho e deu mais um pau no baseado, que a essa altura já era quase ponta. Precisava mudar a vibe da noite. A torre se entortou mais ainda e ele já nem sabia mais se era Piza ou Eiffel. Piza, decidiu. Lembrava pizza, que lembrava Itália que lembrava seu ex. Decidiu homenagear o souvenir e resolveu matar a fome, aquela famosa fominha, com uma macarronada.

Decidiu cortar tomate, cebola, pimentão, alho, tudo isso enquanto a massa cozinhava. Chorou muito enquanto cortava o alho. Não entendeu nada pois, apesar de se parecerem, ele sabia que alho não faz chorar igual a cebola. Mas a gente sabe, Sandro, a gente, que está sem fumar nada, sabe que você morre de tesão nesse cheiro de alho. Não é bem tesão, não sei o que é pois não sou você. Mas sei que você morre de saudade desse homem, esse capeta disfarçado de homem, e que alho te faz lembrar como vocês começaram esse romance esquisito.

Sandro chorou e cortou o dedo enquanto tentava cortar pedaços de bacon para colocar no molho. Essa não era a noite de Sandro. Decidiu que ligaria para ele. E ligou:
- Alô! - aos prantos e nem conseguia abrir os olhos e sentado no chão cozinha
- Hum...
- Eu não consigo esquecer de você, inferno...
- Hum...
- Que feitiço você me rumou que eu não posso me desligar desse amor? Tem alho nele?
- Hum... - riu um pouco, mas disfarçou.
- Por mim você morria.
- Arram...
- Mas vem se despedir de mim aqui em casa antes de morrer? - desligou o telefone achando que já tinha dado ousadia suficiente para aquele babaca.

Ele não foi, mas alguém apareceu por lá meia hora depois e encontrou sangue na cozinha e o macarrão queimando no fogão. Sandro estava no banheiro lavando o rosto e o machucado. Quando viu que alguém batera a porta correu feliz ao seu encontro e viu que era Thiago, seu melhor amigo. Este, espertamente trocara o nome dele com o do tal ex na agenda do celular de Sandro para evitar esse tipo de atitude que acabaria em ressaca moral, afinal todos sabemos como é vergonhoso ligar para o ex durante embriaguez.

Thiago ligou para a pizzaria, guardou o souvenir, fez um curativo na mão de Sandro, enrolou mais um baseado e decidiu que passariam a madrugada assistindo a sitcoms juntos, falando mal dos ex, comendo besteira e sem pensar em nenhum país além-mar.

Sandro riu e esfregou bastante sabonete na mão para sair o cheiro de alho. Mas sabia que se encostasse o nariz no indicador esquerdo poderia sentir o cheiro maldito da mais gostosa paixão que já teve.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Quase quatro da manhã

Você não tem nada a ver com isso, não me peça para te explicar nada sobre a minha vida. O que te importa se agora eu ando com a cabeça baixa? Quando foi para me dizer adeus você não fez questão de olhar em meu rosto e observar as lágrimas caindo. Desde quando você se foi que eu espero esse dia chegar, Espero te encontrar para te ouvir querer saber de mim, me dizer o quanto sente saudades... E, depois, te contar que venho até remoçando, e até canto, às vezes. Mas nada por sua conta ou por por você.

Agora que você já está sabendo o quanto fico feliz de te ver longe, faça-me o favor de não aparecer nem em meus pensamentos de vingança. Não quero macular meus dias com o desprezo que tenho por você. Espero que minha devolução de todo o sentimento ruim que você me criou esteja te alcançando e que você sinta na alma o quanto me fez sofrer, Espero também que esteja com tanta saudade de nossos dias quanto eu fiquei da vez que você me deixou e que você ache alguém que te faça sofrer de amor tanto quanto ou mais do que você me fez.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

O melhor beijo de toda a minha vida

Lembrei do dia em que nos conhecemos, lembra? A gente estava naquela festa - chata, diga-se de passagem - da Mariana. Só ficou boa quando a Lúcia colocou Os Mutantes pra tocar, lembra? A cara de Juliano, aquele crente, quando ouviu Ave Lúcifer... Hilário!!

A gente nem tinha sido apresentados, mas começamos a conversar sobre Rita e como ela era linda. Como nós dois passaríamos por cima das nossas convicções sexuais pra uma noite de amor e LSD com ela. Que doideira, cara! Como se Rita fosse liberar pra algum de nós dois. Pior! Como se bastasse ela pra "curar" a gente. Naquele dia eu tava louco de tanto uísque na cabeça. E otras cositas más...

Acho que começou tudo ali. Sua boca e a minha tão perto uma da outra... Aquela fumaça compartilhada era como nossas almas se misturando. Não deixamos quase nada escapar. E aquele beijo com a cabeça feita...

Foi o melhor beijo que eu dei em um desconhecido em toda a minha vida.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Eu vou ficar bem (ou Manda notícias)

Sabe, naquela manhã que você me deixou, eu achei que morreria. Foi doloroso pra caralho assistir a você arrumar as malas, uma por uma, em silêncio. Nossa, cada camisa que você colocava na sacola era uma ferida aberta em meu peito. Você não faz ideia de como eu me rasguei por dentro. O zíper se fechando era como uma navalha rasgando a minha pele. As lágrimas escorrendo em meu rosto eram como uma sangria de um novilho. Eu morri mais de trinta e duas vezes naquela manhã. E não tive sequer um olhar de piedade. Eu quis sua piedade, cara.

Eu não dormi durante três dias. Eu precisei ligar pra meus melhores amigos. Eu não tinha forças pra levantar da cama. Sabe aquela sua corrente, que eu mesmo dei de presente no verão que passamos em Búzios? Eu desejei que ela fosse uma corda e, assim, eu poderia dar cabo de minha vida com um pedaço seu. Eu a escondi achando que você, ao menos, voltaria pra tomá-la de mim. Mas você parece ter desistido dela, da mesma forma que desistiu de nós.

Ainda não entendo por que você se foi. Será que um dia teremos a chance de conversar sobre isso? A cada manhã eu imagino que ainda acordarei de seu lado, mas, porra, você não tá lá, caralho!

Sonhei com você, dia desses. Você morria em um acidente de moto. Eu acordei aos prantos, mas confesso, me sentia aliviado, no sonho, por saber que meu sofrimento teria acabado pra sempre. Prefiro que você morra a saber que você consegue ser feliz sem mim. Não sei se posso te esquecer. Não sei sequer se eu consigo imaginar a minha vida sem você, mas sei que prefiro que você esteja morto a imaginar que me deixou porque era infeliz.

Entendi, agora. Eu nunca te fiz feliz. É isso. Eu errei o tempo inteiro, meu Deus. Eu quero te pedir desculpas, eu posso ser diferente. Deixa eu te provar que posso mudar. Preciso de você ao meu lado.

À merda essa porra de carta do inferno. Eu não quero que você volte. Eu vou ficar bem.

Por favor, manda notícias.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Segue em construção

Aquele que tem um arco e flecha nas mãos mirou certeiro e profundo bem no peito do animal mais pesado que podia ver. Da melhor maneira possível, fez questão de marcar o peito do animal com a seta que indica sua propriedade. Mas o fez de forma oculta, para que ninguém soubesse. Dizem as boas línguas que essa é uma boa marca. E dizem as más que a marca só aumenta o desejo de outros pela carne. Dito ou não dito, o animal e o seu algoz não eram parte de nenhuma realidade. E desapareceram, como um sonho de uma noite de verão qualquer.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

para meu amigo pablo

lembro de você escrevendo durante a madrugada. aqueles textos com cara de seu. eram meus preferidos. quando quero sorrir, fecho os olhos e me coloco a pensar em você, sentado à mesa com seu laptop. a tevê ligada, mas nem eu nem você prestávamos atenção. enquanto eu via um pornô, você escrevia sem parar, sem olhar para o lado, alternando as frases com as conversas de sua namorada. e eu, depois de um baseado, só ria de sua cara compenetrada tentando assistir a aquele desenho do cachorro amarelo. eu procurando o que comer na geladeira cheia de água mineral, comida pronta, verduras cruas e um pote de maionese. e você rindo de mim, paloso como nunca, achando incrível que seu primo tinha chegado lá em casa depois das duas da manhã, bêbado e desempregado. velho, durou apenas três meses. mas parece que éramos irmãos de vidas passadas. sumimos aos poucos, como naquela fotografia do filme de volta para o futuro. e no dia 31 de agosto eu também arrumei as minhas malas. já não éramos mais seis.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Depois daquela noite no teatro ( ou Antes de você decidir enviar a carta)

Depois de nos encontrarmos uma, duas, três, quatrocentos e setenta e nove vezes, me dei conta de que não sentia mais por você a mesma coisa que senti da primeira vez que vi seus olhos brilharem para mim.

É como se eu soubesse que seu corpo, que já passou pelo meu muito mais que quinhentas e noventa e duas vezes, não me dá o mesmo tesão.

Acho que a culpa foi sua, pois depois que te beijei, você virou para mim e disse que não poderíamos ficar juntos, porque você tinha outra pessoa. Mesmo estando essa outra pessoa agora a mais de oito mil e cinquenta e cinco quilômetros de distância, espero que vocês passem bem.

E espero que estejam sofrendo de saudade. Ou de desamor.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

madrugada

estamos deitados e essa cama me parece pequena demais para nós dois. levanto no meio da madrugada com calor. a energia tinha acabado na rua inteira. até no quarteirão das flores.

levanto da cama ainda sem roupa. meus óculos estão no criado mudo amarelo. um que comprei de um amigo, quando da mudança dele para brasília.

olho pela janela e começo a lembrar de todas as minhas paixões. uma a uma, elas vêm como se eu nunca as tivesse esquecido. uma a uma.

são meninas, mulheres, rapazes. todas avassaladoras, como precisam ser as paixões. avassaladoras e sem cura.

acendo um cigarro, enquanto olho para você deitado na cama. é um sonho. um sonho meu estar te olhando sem roupa, tão perto, depois de desejar presenciar essa cena por tanto tempo.

a fumaça do cigarro embaça a cena e me faz levar você para o tempo em que era apenas um desejo. eu prometia nunca me render a ele, já que você era um rapaz sério, noivo, quase casado.

morria sempre que seu sorriso encontrava meus olhos e o seu perfume... e o seu perfume invadia meu corpo como um relaxante, um desses que a gente inala para poder ficar bem.

morria de tesão, mesmo, toda vez que você fazia questão de me abraçar e de me contar segredos que nem existiam, ao pé do ouvido, sussurrando. provocando meus mais sujos e excitantes pensamentos.

mas hoje, ao olhar você na cama, a sensação de dever cumprido e de caça abatida me toca. é como se seu corpo ali fosse a cabeça de um alce na parede. é meu. é meu?

não é meu, eu sei. ainda é de outra pessoa que, dessa vez, eu ignorei completamente.

acabo o cigarro, vou à sala tomar um gole de água. a energia volta. tomo também um dedo de uísque. ligo o ar condicionado, tomo um cobertor.

beijo sua bunda suas costas, seu pescoço, sua boca, te cubro e volto a deitar.

fecho o olho e mentalizo um mantra: "não é meu". é mais fácil pegar no sono assim. é mais fácil não me apegar a você assim.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Carta de Paulo a Tiago

Oi, Tiago,

Nossa! Hoje, depois que cheguei do trabalho, depois que passei no mercado, depois que dei comida pra Lica, depois disso tudo, lembrei que fazem seis meses desde que você se foi. Ou melhor, que eu me fui.

Aquele dia ainda está em minha cabeça como se tivesse acontecido ontem. Palavra por palavra que trocamos, seu rosto encharcado. O meu também. Nossas lágrimas molhando o chão. Pior dia da minha vida.

Em segundo lugar vem o dia em que descobri sua traição.

Eu realmente achei que ficaríamos juntos para sempre. Até prometi nem levar adiante esse seu deslize. Afinal, acontece sempre com os melhores casais. O nosso não seria isento.

Ainda ontem conversava com uma amiga, Clara, você deve lembrar dela. Ela me perguntou se existia chance de voltar a ficarmos juntos. "O mundo ainda está desequilibrado, você não sente essa energia ?", me perguntava, como se todos os males do mundo fossem por culpa do fim de nosso namoro.

Não, não há como voltarmos. Nem que eu queira. Nossas almas, de tão livres que ficaram, tomaram rumos diferentes. Te encontro e nem te reconheço, às vezes. É pior que isso. Reconheço um não que nunca desejei que fôssemos. E procuro o sim que se esconde atrás de seus olhos, mesmo esquecendo que os meus olhos estão fechados.

Vou mandar a conta do veterinário, como você pediu, apesar de achar que não precisa. Manda um beijo para sua mãe.

Com amor carinho,

Paulo

P.S.: Espero não ter mais que recorrer a cartas para falar qualquer profundidade.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Estaremos de pé

Por Cristo, jurou que não mais se atreveria a olhar as mensagens no celular. E prometeu que seria a última vez. Ia apagando uma por uma e, como se cada uma fosse um pedaço seu que se ia, derramava lágrimas mudas. Até não haver mais uma palavra sequer que pudesse trazer à lembrança todos os dias tão azuis. E não aconteceu como desejou.

Não pôde conter o desespero que teve ao se dar conta que até as lembranças boas não existiam mais. Ao que recorreria quando quisesse lembrar o cheiro de pós-barba que sentia toda manhã ao levantar da cama e beijar o pescoço de Ricardo? O que faria se sentisse vontade de tomar o café com menta de Ricardo, que só ele parecia saber fazer?

As lágrimas agora vinham acompanhadas de pequenos soluços e uma feição de tristeza profunda. Correu para o armário, na esperança de encontrar algum casaco dele guardado. Mas lembrou no mesmo momento que já havia enviado todas as roupas junto com as cartas e as lembrancinhas da viagem que fizeram juntos à Bolívia. Definitivamente não queria lembrar que ele existia. Mas adoraria encontrar de novo a toalha sempre molhada em cima da cama.

Agora os soluços, antes finos, se tornavam mais graves e seus olhos não podiam mais sustentar qualquer lágrima que lhe chegasse. Calou. Deitou na cama e ocupou apenas o lado que costumava ser seu, enquanto imaginava que Ricardo, a qualquer momento, atravessaria a porta, jogaria o palitó numa poltrona à esquerda da cama e deitaria por cima dele dizendo que estava morrendo de saudades.

Então, sairiam abraçados e tomariam chá juntos. Ricardo acenderia um cigarro e ficaria olhando os carros pela janela. Ele encostaria e fariam planos para o futuro. Não mais fariam. Era hora de abrir os olhos. Assim Gil fez.

Enxugou as lágrimas com a fronha do travesseiro, foi ao álbum de fotografias, tomou nas mãos uma tesoura e voltou a destruir as lembranças. Não podia esperar mais nada de Ricardo. Sua vida já estava plena ao lado de outro alguém.

E ele precisava recomeçar também.

Chá com sequilhos (ou Penúltima Carta de Amor)

Sinto que esses dias são dias bons para sair de casa e ver como a vida vai dar conta das coisas que você sempre duvidou que fossem dar certo.

Tudo porque as coisas tem dado certo sem que eu questione ou peça a deus. O mais legal é agradecer.

Uma pena que você não esteja por perto para ver que eu estou sorrindo novamente.

Manda um beijo para sua mãe e diz que um dia passo por aí para tomar aquele chá com sequilhos.

Beijos, 
David Luiz

P.S.: Ontem eu saí com um cara que conheci na festa de um colega do trabalho. Acho que vamos nos ver novamente no fim de semana. Achei que você devia saber. Desculpe se exagerei na informação

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Não há mais estrada (ou Não tenho certeza se é sonho ou realidade)

Acordei lembrando daquela viagem. A última que fizemos juntos, antes do acidente de moto. Tava lembrando da gente quase deitado naquelas poltronas reclináveis do ônibus. Lembra que pegamos o primeiro que encontramos na rodoviária sem sequer saber aonde ele ia? E eu, rezando por dentro pra que a viagem demorasse tempo suficiente pra eu cansar de ficar de teu lado. A gente viajou durante três dias e eu queria mais.

Mas que loucura, aquilo! Será que a gente teria a mesma coragem, hoje em dia? Nunca vou me esquecer de nossas risadas no meio da madrugada tapando a boca um do outro, pra não acordar ninguém. Ou de nosso sexo, que foi quase um contorcionismo, na tentativa de não fazer as pessoas perceberem nada. E aquele tiozinho da poltrona do lado ainda acordou...

Acho que foi a viagem mais longa que já fiz. Mas os três dias pareceram minutos, quase segundos... Eu faria tudo novamente. Até as mesmas fotografias. Pois é, eu que reclamava a cada foto que você queria fazer, eu faria todas de novo e de novo e de novo. Só pra ter você por perto. Seu cheiro de perfume vagabundo comprado na beira da estrada porque esqueceu o desodorante em casa. Nossa, que coisa horrenda era aquilo.

Mas veja no que me  tornei. Um saudosista notívago. Quase um vampiro, sugando o pouco de felicidade que ainda resta das pessoas ao redor. Na verdade, estou no meio de uma festa sem graça, nesse exato momento. Com muita pouca paciência pro João Alfredo, o Augusto e o George, que passaram a noite inteira cheirando. Sem saco algum pra aturar as risadas altas e desnecessárias de Mirela e os baseados que ela fumou. Acho que estou um pouco bêbado e só queria ficar no meu canto, com as cabras.

Colocaram o Transa pra tocar e tá na faixa 4. A sua música preferida. Eu vou vomitar a batata frita que comi no jantar. Mentira. A quem eu quero enganar. Todo mundo aqui sabe que eu me tranquei no banheiro pra chorar. Eu ainda não aprendi a lidar com sua falta. E não consigo passar por aquela curva. Era pra eu estar sem capacete. Me arrependo tanto de ter te permitido me convencer a usar, enquanto o experiente e destemido você viajava sem. Eu devia ter evitado.

Estão batendo na porta do banheiro, devem estar com medo que eu me mate. Por mais que minha vontade seja estar contigo nesse momento, eu não sou tão corajoso assim. Mesmo que os remédios de Sara estejam no armário e a tentação seja uma forte aliada do álcool...

Eu preciso saber viver sem você. Não sei ainda quando vou conseguir.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

I cried for you on a kitchen floor

Essa noite, lembrei de você. Funcionava como o amanhecer e o sol entre as nuvens de agosto pintava de luz os pontos mais escuros de sua rua. E eu, apaixonadamente, ridiculamente, suspirava ao sentir a brisa de seu perfume cruzar a esquina. Pra te ver cantar em outros palcos.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

O amor em tempos de cozinha

Fica difícil pra mim, viver em um mundo em que não posso tocar você. É difícil pensar que estamos tão distantes um do outro e que nossas vidas ainda estejam ligadas. Mas que diabo de querer é esse que não se desfaz? Que inferno!

Queria eu poder estar nesse mundo vadiando e fazendo todas as loucuras que sempre sonhei fazer. Queria mesmo estar me metendo em festas e sair sem lembrar o nome das pessoas que eu beijei. Mas todas elas só tem um nome: o seu.

O que tinha naqueles sucos que tomei nas tardes que passei em tua casa. O que tinha naquele doce que tomamos juntos? O que tinha naquela cebola que cortamos juntos na pia?

Lembro cada canto de sua casa, como um pedaço de um conto erótico. Deve ter um pouco de amor em cada cômodo. Tem um pouco de amor teu em mim.

Tem você em cada canto meu. Inclusive quando não canto.

domingo, 27 de abril de 2014

mas o sol sempre surpreende

há quanto tempo não sento para escrever nada pra você. até me senti estranho quando me bateu a vontade, inspiração. sei lá como você gosta de chamar essas coisas ridículas que te escrevo de vez em quando.

estava sentado na varanda, fumando o último cigarro do maço. acredita que eu não comprei mais nenhum? mas sim, fumava o derradeiro quando lembrei de quê? adivinha? de você mandando eu não esquecer de comprar cigarros antes de sairmos para a festa de casamento do alex e da mônica. 

eles se separaram, você soube? alex me ligou outro dia, me chamando para ajudar na mudança. quando cheguei na casa dos dois, só ele ia se mudar. foi morar em um apartamento pequeno na barra. coitado. ele sempre odiou a barra, sempre disse que ali não é bairro, é lugar pra refugiado. rs. está indignado, mas tá pagando bem mais barato do que pagaria aqui na zona sul. os preços dos apartamentos aqui estão pela hora da morte.

até ofereci nosso outro quarto para  ele, mas ele disse que não se sentiria à vontade morando comigo. disse que eu precisava de privacidade para minhas pegações e ele também. mal sabe ele que, desde que nos separamos, não fiquei com ninguém.

eu sei que você já. não me importa e nem é sobre isso que quero falar.

hoje eu comprei uma garrafa daquela cerveja com banana que você me mostrou uma vez. comprei receoso e com raiva. ela não é muito barata. e você sabe que eu odeio gastar grana à toa. mas, olha, ela não é muito ruim. é até gostosinha.

comprei uma dessa cerveja e comprei uma garrafa de vinho barato. sequei a garrafa ouvindo aquele vinil de gal. sabe aquele que a gente comprou junto naquela barraquinha na cinelândia? nossa, aquele álbum é lindo. você também.

perdoe minhas bobagens. controlar-me-ei. rs.

estou tão bêbado que estou usando mesóclise. há quanto tempo não uso mesóclise? rs. usei uma vez num joguinho contigo. lembro que você disse que mesóclise era um pouco sedutor. "penetrar-te-ei com meu pau", foi o que disse. agora me parece uma incrível bobagem. na hora também me pareceu. mas funcionou. rs.

alex me disse que você estava querendo passar uns tempos fora do país. queria saber antes de você ir, para onde vai. sinto saudade de ser a pessoa para quem suas novidades sempre escorriam. aliás, antes de tudo, não tenho contado as minhas porque não as tenho. 

...

carlos, eu preciso saber de você. quando tiver um tempo, manda um sms.

agora vou tomar um sorvete na lanchonete. os meninos vão passar aqui em casa pra vermos o pôr-do-sol no arpoador. talvez a gente ainda saia hoje. eles querem ir na cine ideal. não sei se vou. chapei demais durante o dia pra suportar uma noitada. nos falamos depois.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

nescafunny

- em que sonho eu sonho meu sonho igual ao teu?
- are you ok, annie?
- não.

sábado, 5 de abril de 2014

Pieguices

Andei cansado nos últimos dias. Comecei a escrever vários textos em terceira pessoa, mas não era eu. Daí abri e fechei o computador diversas vezes. Depois de muitos copos de uísque, durante toda a semana, muitos cigarros e noites em claro, resolvi que nunca mais escreveria.

Na verdade, estou farto de escrever sobre esses sentimentos ruins e pensei que poderia começar a escrever sobre algo alegre, algo que melhorasse o humor e que não soasse piegas. Talvez um texto fantástico, com duendes e magos e monstros subjugados a um bruxo malvado querendo dominar todo o mundo mágico e não-mágico. Desses textos que são sucesso na internet e nos livros e viram filmes e viram séries de TV e empolgam adolescentes.

Decidi que não. E então, escolhi escrever sobre mim mesmo. Contar minha vida em primeira pessoa, minhas histórias, como uma biografia, mesmo que eu seja ainda jovem.

Mas preferi não, também. Andei meio sem coisas pra dizer e decidi me calar. Amor, a falta de você é tão absoluta que o silêncio teu em minha vida faz minha mente esvaziar. Volta pra mim antes que eu emudeça finalmente, antes que não me reste nem sequer um 'eu te amo'.

domingo, 23 de março de 2014

Nada de Oscar

Lembrei do Scorsese que não vimos juntos no cinema e, de repente, lembrei que não estamos mais juntos. Mas quê? Não era um pacto de eternidade? Ouvi dizer que ele sequer esperou que as coisas se equilibrassem e já está rodando um novo filme. Talvez eu pare de ver os filmes que ele lança só pela falta de educação em me lembrar que toda história de amor tem um fim.

quarta-feira, 5 de março de 2014

De uma lembrança...

Eu esqueci como era teu sorriso. Ontem, chorei por mais de meia hora só por ter esquecido também o jeito que você me falava "boa noite". Eu não consegui sequer lembrar em qual posição você dormia e me aconchegava em teu corpo. Não lembrei se suas pernas iam por cima das minhas ou o contrário. E isso me fez lembrar que eu reclamava quando não conseguíamos o encaixe perfeito de nossos dedos dos pés. Um centímetro a menos e um frio assombroso quase congelava nossos pés.

Nossa! Esqueci também se você tomava café com duas ou três colheres de açúcar. A proporção de leite no teu copo eu ainda posso recordar. Quatro pra um. Risos. Outro dia, coloquei um pouco de leite em tua caneca para mim, a fim de ver se teu gosto ainda estaria lá, de alguma forma. Não estava, claro. Quem tomou todo o leite foi o Chico, que ainda procura teu colo todos os dias, a partir das 20 horas, em frente à nossa TV, na poltrona que era de meu avô e que você insistia em manter em casa, no meio daqueles móveis retilíneos.

A decoração da sala continua desequilibrada por conta da poltrona, mas eu decidi manter depois que você nos deixou. É uma cama para Chico e um dos meus jeitos de te fazer presente naquela casa. Ela continua lá, no mesmo canto onde você deixou quando a gente se mudou para este apartamento. A TV também está no mesmo lugar. Mesmo depois de assistir a todos os canais possíveis, prefiro deixar ela desligada sempre naquele canal que você adorava. É outro jeito de te manter perto. Ligar o aparelho e, de repente, ouvir a voz no noticiário é como olhar a poltrona e ainda te encontrar sentado, meio de lado, tomando um café, fumando um cigarro ou enrolando um baseado.

Outro dia, a Luana esteve aqui e me perguntou se você tinha parado de fumar, já que nunca mais tinha sentido nenhum cheiro invadindo o quarto dela. Dei uma desculpa qualquer para ela, disse que você não estava em casa, disse que eu estava de saída. Ela deve ter percebido tua ausência. Todos percebem. Essa casa é enorme sem você. Sou capaz de ouvir o eco de meus soluços, toda vez que sento à mesa de jantar sozinho. O bater dos talheres nos pratos. No prato. Só tem um na mesa, sempre. A geladeira não tem mais comida saudável. Vive cheia de caixas e enlatados, todos pela metade. Preciso aprender a comprar porções únicas.

Esta manhã, pensei em você. Acordei com dor de cabeça. Quando falei alto, imaginando alguém me ouvindo reclamar, lembrei de como você me mandava, todas as vezes que tinha dor de cabeça, procurar um médico. "Isso não é normal!", você dizia com uma cara de preocupação. Passaria dores de cabeça por todos os dias de minha vida, só pra ter certeza de tua preocupação com minha saúde. Era bom me sentir tão querido e cuidado. Agora só minha mãe faz perguntas do tipo "comeu bem?", uma vez por semana quando ela lembra de me ligar.

Ah, não tenho usado mais o ar condicionado de nosso, digo, de meu quarto. E também parei com o descongestionante. Acho que você ia gostar de me ver tão saudável. Tirando a parte dos enlatados. O Chico chegou nos meus pés pedindo comida. Vou colocar o pratinho de ração dele. Ainda bem que você não pôde levá-lo para tua casa nova. Ele tem me feito companhia. Bom, estou indo, este gato é um esfomeado. Risos. Quando for dormir, volto a tentar lembrar qual nossa posição. Vai ser mais uma tentativa frustrada, tenho certeza. Já vai, Chico!