sábado, 5 de abril de 2014

Pieguices

Andei cansado nos últimos dias. Comecei a escrever vários textos em terceira pessoa, mas não era eu. Daí abri e fechei o computador diversas vezes. Depois de muitos copos de uísque, durante toda a semana, muitos cigarros e noites em claro, resolvi que nunca mais escreveria.

Na verdade, estou farto de escrever sobre esses sentimentos ruins e pensei que poderia começar a escrever sobre algo alegre, algo que melhorasse o humor e que não soasse piegas. Talvez um texto fantástico, com duendes e magos e monstros subjugados a um bruxo malvado querendo dominar todo o mundo mágico e não-mágico. Desses textos que são sucesso na internet e nos livros e viram filmes e viram séries de TV e empolgam adolescentes.

Decidi que não. E então, escolhi escrever sobre mim mesmo. Contar minha vida em primeira pessoa, minhas histórias, como uma biografia, mesmo que eu seja ainda jovem.

Mas preferi não, também. Andei meio sem coisas pra dizer e decidi me calar. Amor, a falta de você é tão absoluta que o silêncio teu em minha vida faz minha mente esvaziar. Volta pra mim antes que eu emudeça finalmente, antes que não me reste nem sequer um 'eu te amo'.

domingo, 23 de março de 2014

Nada de Oscar

Lembrei do Scorsese que não vimos juntos no cinema e, de repente, lembrei que não estamos mais juntos. Mas quê? Não era um pacto de eternidade? Ouvi dizer que ele sequer esperou que as coisas se equilibrassem e já está rodando um novo filme. Talvez eu pare de ver os filmes que ele lança só pela falta de educação em me lembrar que toda história de amor tem um fim.

quarta-feira, 5 de março de 2014

De uma lembrança...

Eu esqueci como era teu sorriso. Ontem, chorei por mais de meia hora só por ter esquecido também o jeito que você me falava "boa noite". Eu não consegui sequer lembrar em qual posição você dormia e me aconchegava em teu corpo. Não lembrei se suas pernas iam por cima das minhas ou o contrário. E isso me fez lembrar que eu reclamava quando não conseguíamos o encaixe perfeito de nossos dedos dos pés. Um centímetro a menos e um frio assombroso quase congelava nossos pés.

Nossa! Esqueci também se você tomava café com duas ou três colheres de açúcar. A proporção de leite no teu copo eu ainda posso recordar. Quatro pra um. Risos. Outro dia, coloquei um pouco de leite em tua caneca para mim, a fim de ver se teu gosto ainda estaria lá, de alguma forma. Não estava, claro. Quem tomou todo o leite foi o Chico, que ainda procura teu colo todos os dias, a partir das 20 horas, em frente à nossa TV, na poltrona que era de meu avô e que você insistia em manter em casa, no meio daqueles móveis retilíneos.

A decoração da sala continua desequilibrada por conta da poltrona, mas eu decidi manter depois que você nos deixou. É uma cama para Chico e um dos meus jeitos de te fazer presente naquela casa. Ela continua lá, no mesmo canto onde você deixou quando a gente se mudou para este apartamento. A TV também está no mesmo lugar. Mesmo depois de assistir a todos os canais possíveis, prefiro deixar ela desligada sempre naquele canal que você adorava. É outro jeito de te manter perto. Ligar o aparelho e, de repente, ouvir a voz no noticiário é como olhar a poltrona e ainda te encontrar sentado, meio de lado, tomando um café, fumando um cigarro ou enrolando um baseado.

Outro dia, a Luana esteve aqui e me perguntou se você tinha parado de fumar, já que nunca mais tinha sentido nenhum cheiro invadindo o quarto dela. Dei uma desculpa qualquer para ela, disse que você não estava em casa, disse que eu estava de saída. Ela deve ter percebido tua ausência. Todos percebem. Essa casa é enorme sem você. Sou capaz de ouvir o eco de meus soluços, toda vez que sento à mesa de jantar sozinho. O bater dos talheres nos pratos. No prato. Só tem um na mesa, sempre. A geladeira não tem mais comida saudável. Vive cheia de caixas e enlatados, todos pela metade. Preciso aprender a comprar porções únicas.

Esta manhã, pensei em você. Acordei com dor de cabeça. Quando falei alto, imaginando alguém me ouvindo reclamar, lembrei de como você me mandava, todas as vezes que tinha dor de cabeça, procurar um médico. "Isso não é normal!", você dizia com uma cara de preocupação. Passaria dores de cabeça por todos os dias de minha vida, só pra ter certeza de tua preocupação com minha saúde. Era bom me sentir tão querido e cuidado. Agora só minha mãe faz perguntas do tipo "comeu bem?", uma vez por semana quando ela lembra de me ligar.

Ah, não tenho usado mais o ar condicionado de nosso, digo, de meu quarto. E também parei com o descongestionante. Acho que você ia gostar de me ver tão saudável. Tirando a parte dos enlatados. O Chico chegou nos meus pés pedindo comida. Vou colocar o pratinho de ração dele. Ainda bem que você não pôde levá-lo para tua casa nova. Ele tem me feito companhia. Bom, estou indo, este gato é um esfomeado. Risos. Quando for dormir, volto a tentar lembrar qual nossa posição. Vai ser mais uma tentativa frustrada, tenho certeza. Já vai, Chico!

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

O efeito do banho dura pouco

Chove muito lá fora. Corri pra fechar as janelas e evitar que minha cama ficasse molhada com a torrente que não parava desde oito da noite. Graças a deus ou alguma divindade, eu tinha acabado de chegar em casa quando a tempestade começou. Não me molhei.

Mas a casa está fria. Chegar, tirar os sapatos, pisar o chão gelado me fez arrepiar um pouco. Até pensei em você, saindo do quarto com aquele lençol estampado na cabeça, correndo sem roupa pela casa com um sorriso no rosto. Lembra?

Só que não tinha você. Nem lençol estampado. Sequer alegria no rosto de ninguém. No meu, pelo menos, não havia nenhuma expressão de felicidade. Era só o cansaço de um dia cheio e a chateação das horas dentro de um ônibus preso em um engarrafamento.

Acendi um cigarro. Tinha parado de fumar depois que você foi embora, mas quando a saudade apertou, o sabor do cigarro em minha boca me fazia lembrar o gosto de sua língua quando roçava a minha. Sim, tenho tentado te encontrar nessas besteiras. Meu risco maior é me viciar em alguma droga. Ou me viciar em cheirar as roupas que estão em sua gaveta de gravatas. O cheiro delas ainda está lá. Agora eu uso para minhas cuecas. É estranho, eu sei. Mas minha loucura se explica na saudade.

Bom, a chuva parou por aqui. Deve ter ido molhar o rosto de outro cara sozinho em casa e ainda apaixonado. Deixou um rastro estranho de passado. Trouxe as fotos rasgadas que estavam empilhadas perto do lixo da cozinha. O cigarro acabou e o banho quente me aqueceu do frio. Está bem... Por essa noite eu deixo pra lá, não vou me preocupar que você não volte.

Acho que te ligarei amanhã pela tarde, pra perguntar como está Finho. Já sabe que vou querer saber como anda sua vida também, né? Então, não deixe de me atender. E não se esqueça de voltar logo pra perto de mim. O efeito do banho dura pouco.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Tudo sobre a noite

Longe de mim há menos de dois passos. E eu não consigo pensar em outra coisa que não seja te olhar. E quando penso em tocar tua mão, você se afasta mais de um milhão de anos-luz e eu acordo de um sonho lindo. O mais lindo que já sonhara. Então levanto, acendo um cigarro e escrevo um poema.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

sonho de uma noite de verão

as lágrimas mancharam mais de uma vez o papel em que ela escrevia a carta de despedida. ele cantarolava uma canção antiga, ainda do início do relacionamento. ela tentava desesperadamente escrever algo que não a fizesse morrer aos poucos. ele acendeu um cigarro, encostado na janela, olhava para baixo. ela descansava os olhos marejados na parede branca do quarto de dormir. ele respirava fundo da janela do vigésimo terceiro andar. ela lembrava de todas as palavras ditas, carinhosas, rudes, amáveis, afiadas. ele ainda cantarolava a canção. ela voltou a escrever e seu rosto não secava. ele encostou a cabeça na parede. ela deitou um pouco, olhou para cima e imaginou estrelas. ele sentou no chão, enquanto olhava fixamente o cigarro, como desejasse apagá-lo com a mente. ela deixou escorrer pelo rosto as lágrimas; não limpou. ele colocou a cabeça entre os joelhos, rezou uma ave maria. ela sentou e tomou a caneta novamente às mãos. ele abriu a boca em um lamento surdo. ela soluçou cinco gotas de lágrimas. ele tragou. ela suspirou. ele parou de cantarolar. ela secou as lágrimas em seu rosto. ele terminou o cigarro, finalmente. ela terminou a carta, finalmente.

não sei quanto tempo demorei para sair dali. saí daquela sala enquanto o nilo me banhava a face. olhei para seu rosto também úmido, suas mãos ainda trêmulas. não sabia onde chegaria, nem para onde ia, nem como seria o futuro distante planejado naquele último minuto. saí cantarolando uma música qualquer cheia de dor. queria sentir como era ser machucado. a autoflagelação, a mais cristã das minhas atitudes. era o que me restava naquele meio de tarde de outono. saí sem acender nenhum cigarro. a carta estava em cima da mesa. a chave de casa estava sobre o sofá. abri a porta. fechei a porta. beijei o papel. beijei também seu rosto. sequei o pouco resto de lágrima que ainda tinha. levantei os olhos para o teto. imaginei estrelas. acendi o cigarro. abri a porta. parti em um adeus que nem eu mesmo pude escutar.

ela acordou.

ele acordou.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

A felicidade de Rodolfo (ou Aquele sobre o Finho)

Trouxemos Finho para casa. Finalmente ele parecia melhor. Sabe aquela história de depois da tempestade vir a bonança? Pois é como eu me sentia. Frente à bonança. Já podia respirar tranquilo depois de algumas semanas sem conseguir parar de pensar que o pior poderia acontecer. Mas graças a Deus, ou ao deus dos cães, Finho estava novamente em casa, conosco.

Os dias foram seguindo e parecia que nada poderia afastar tamanha felicidade de nossas vidas. Finho corria, brincava com seu urso de pelúcia de estimação e pulava em nossa cama toda manhã pedindo sua comida e que o levássemos para fora. Éramos novamente uma família feliz.

Mas o diabo se faz de bonzinho para conquistar as almas menos espertas. E foi isso que ele fez com a gente. Encheu nossas  vidas de felicidade e alegria ao lado de Finho. E de uma vez por todas, sem nos fazer nenhuma pergunta, o levou embora. Sem nos dá nenhum sinal de alerta, Finho morreu depois de latir seguidamente por 30 segundos. E nós dois, nos perguntando o que estava acontecendo, apenas descobrimos que era um adeus, depois que ele, finalmente se calou e fechou os olhos.

Ainda não estamos recuperados de sua ida. E sua cama ainda espera por você. Tomara que você esteja bem, aí no céu dos cachorros.

domingo, 17 de novembro de 2013

um canção para a noite toda

de onde vens? da casa para onde foges toda vez que cansa de estar ao meu lado? da barra do vestido daquela mulher que pinta os lábios com o vermelho da cor de sangue? da cama daquela uma que deve ter os lençóis sujos com o pecado? é de lá? e vens assim com esse cheiro de perfume barato? com essas flores murchas, compradas ainda ontem à noite na florista em frente ao cemitério?

é isso, que me ofereces? o cansaço de uma noite inteira sem dormir? se lambuzando no corpo daquela mulher devassa que quase não cobre os seios? não venha me beijar com os lábios sujos do corpo daquela! fique longe de mim, com tuas falsas lágrimas de arrependimento. eu te esperei durante o dia e a noite de ontem. esperei encontrar teu sorriso depois de um dia inteiro de trabalho, mas o que me trouxeste foi um ramalhete roubado de algum futuro velório? é isso?

não sabes quantas lágrimas derramei, enquanto imaginava aquela mulherzinha te despindo e se deixando despir. imaginando que ela estava te tocando, enquanto eu, morria um pouco, sozinha nesta casa enorme.

onde estão as crianças? na casa de minha mãe. mandei os meninos para lá, a fim de que não vissem seu estado ao chegar. e o meu estado ao te ver passar por esta porta.

por que choras? por que não tens coragem de me olhar no rosto? aquela vagabunda engoliu a tua língua enquanto beijava-te? responda? achas, por acaso, que irei acreditar em teu arrependimento silencioso? que apenas aceitarei que me digas alguma mentira sobre ontem à noite e que ficará tudo bem?

achas que calar-me com um beijo agora poderá secar as lágrimas que chorei ontem?

estou indo à casa de minha mãe buscar as crianças. deixei no forno a comida do jantar de ontem. se quiseres comer, podes, tu mesmo, esquentar.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Amor à primeira vista

Nunca pensei que fosse tão fácil se apaixonar por alguém. Bastou uma simples troca de olhares e foi suficiente para que eu me derramasse do mais absoluto e imbecil amor por aquele sorriso.

Os olhos brilhantes, como os de um menino que acaba de ganhar o brinquedo que desejava há tempos. Ou que ganhou um beijo da garota mais bonita da turma do colégio. Um olhar que brilhava ao encontrar o meu. Era como se eu pudesse mergulhar naquele brilho e sentisse como se fosse minha própria casa.

O sorriso cativante, aberto, largo, expressivo. Um sorriso sincero e cheio de alegria. Um sorriso meu. Pra mim, que bastava um leve movimento para me fazer sentir a segurança do mundo inteiro. O sorriso tão claro e límpido que era capaz de pintar de quantas cores fosse possível meus dias mais cinzentos.

A mão no cabelo, como a alisar a minha pele. A maneira única de passar a mão pelo cabelo, começando com os dedos abertos e fechando quando chegava perto da nuca. O jeito maroto e desengonçado de enrolar os fios atrás da orelha, como a desligar-se do mundo por alguns instantes.

E só de fechar o olho posso sentir que estou perto dela. Mas ao abrir os olhos, meu mundo desaba por não encontrar mais o amor da vida inteira que conheci há tanto tempo que nem lembro mais quando.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

e sempre volta ao mesmo ponto

nossos olhares se encontraram mais uma vez. e dessa vez foi tudo meio diferente, sabe? diferente do que costumava ser. quando minhas mãos tocaram as suas, eu não parecia conhecer as rugas nos dedos que costumava reconhecer como a mão que me acariciava o rosto entre os beijos.

depois de nossas mãos, naturalmente, se afastarem, como pólos semelhantes de imãs, nossos olhares cruzarem caminhos diferentes, depois de um não e um sim. uma simples discordância, nada grave para um casamento tão longo. depois disso, nos deparamos com o maior medo de toda nossa vida.

não podíamos estar pensando no fim de tudo. afinal, nossa promessa era a eternidade. o amor eterno, até ficarmos velhinhos e de cabelos brancos e podermos sentar à varanda contando histórias de juventude.

nós não conseguimos olhar um para o outro. apenas sentimos como seria se tivéssemos coragem para deixar ali o sentimento que havia naquele exato momento. não havia mais sentimento, era isso.

e então emudecemos diante da possibilidade de ficar longe um do outro. nós não sabíamos viver um sem o outro. mentira. eu não sabia viver sem ela. mas sabia perfeitamente que ela não precisava de mim para nada. nem para ser infeliz. até isso ela conseguia sem minha participação.

quando não deu mais para sustentar, caí. uma queda tão grande, que parecia estar junto com alice. mas não tinha queda. era apenas a sensação de uma vida inteira sendo deixada pra trás.

ela voltou. eu entendi. não era pra me levantar, me reerguer. era pra me ajudar a começar a andar com minhas próprias pernas. eu não conseguia. ela era meu guia. segura e forte, não me deixava pensar em nada.

nada.

agora é isso que somos. nada um do outro. nem passado nem presente. somos apenas lembranças de boas lembranças querendo esquecer as tragédias.

como não conseguir dormir entre um dia e outro

meu maior lamento é não poder tocar o céu. eu nunca pude tocar o céu. e também acho que nunca poderei. assim, na verdade, não sei se meus braços são curtos demais para tocar o céu ou se minhas pernas pesam demais para sair do chão.

domingo, 6 de outubro de 2013

Metal contra as nuvens

A torneira da pia está ligada e não para de derramar água. De dentro do box embaçado eu consigo ver a água transbordando da pia e escorrendo pelo chão. Estou imóvel e não posso fazer nada para conter que ela tome todo o banheiro. A temperatura do chuveiro está alta, talvez queime um pouco a minha pele, mas não consigo sair daqui. A água quente escorre pelo meu rosto e eu já não posso distinguir entre ela e as lágrimas que também insistem em cair e se juntar ao monte de cabelo que entope o ralo.

Caminhando pela casa, a água está em toda parte. Cozinha, sala de estar, quarto. Molhou todo o tapete branco que ficava sob os pés da minha cama. Meus pés estão molhados. O vento que vem da janela arrepia meu corpo inteiro. Esqueci de me cobrir depois de sair do banho. Mentira. Não quis me cobrir ou secar meu corpo.

Ignorando a possibilidade de morrer, ou talvez contando com as chances de tudo dar errado, insisti em usar eletrônicos, ligar tomadas, usar um secador para secar as lágri... digo, meu cabelo. Nada aconteceu. Nada que viesse, de repente, livrar um mundo inteiro de um peso inútil.

A água da pia ainda escorre e o barulho infernal irrita minha mente a ponto de me fazer gritar o mais alto que posso. Até que um vizinho que raramente falo e só encontro no elevador começa a bater em minha porta. Amaury é o nome dele. Abri a porta com um sorriso claramente forçado por detrás de todos os soluços que Amaury já tinha escutado.

Amaury desligou o chuveiro, a torneira do banheiro e o secador. Me trouxe uma toalha com alguma peça de roupa que ele mesmo pegara em meu guarda-roupa. Ele nunca tinha entrado em minha casa antes. Eu nunca permitira a mim conhecê-lo, nem deixei que ele me conhecesse.

Me perguntou o motivo de toda aquela bagunça, reclamou comigo por eu ter usado o secador, disse que poderia ter causado um acidente grave e graças a algum deus, que eu não lembro qual ele nomeou eu estava vivo.

Depois de tudo ele me preparou um chá. E decidiu que só sairia de minha casa quando eu aparentasse estar bem. Conversamos sobre um monte de coisas banais. Ele me contou que era seu aniversário de 44 anos, me falou sobre as mulheres que tivera na vida, que não fumava cigarros de nicotina, só maconha, mas que não tinha levado nenhum baseado para minha casa. Me disse que foi muito apaixonado por uma namorada quando era jovem, mas que deixava ela em casa e ia para o brega. Disse que gostava das duas coias: do amor e da putaria.

Antes de ir embora, Amaury me pediu para tomar cuidado e lembrar que nós não temos outra vida para viver. "Só há uma, lembre disso". A essa altura, minhas lágrimas tinham secado e eu já estava vestido. Liguei a TV para ver o jornal da meia-noite.

domingo, 22 de setembro de 2013

tudo ou nada (ou quando, na verdade, preferi esquecer o que vi e o que ouvi)

ei, amor, porque você nunca me contou sobre esses desenhos guardados nesta caixa, em seu armário? são seus? você desenha bem. mas porque a o nome assinado não é seu? ah, então não são seus. entendi. mas de quem são, meu amor? ah, sim, claro, de um amigo muito querido. tem certeza de que não se trata de um amor do passado? (rsrs) claro que compreendo, meu amor. mas, espere, a data é atual, foi rabiscado este ano, ainda. você ganhou desse amigo querido ainda este ano. por que não me diz, amor? entendo. eu desisto de tentar te fazer falar algo. vamos fazer de conta que nunca vi nenhum desses desenhos. não quero te aborrecer. venha aqui, me dê um beijo! pronto. estamos sem problema, certo? te amo, meu amor!

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Alberto, seu bom filho da puta

Alberto. Esse é o nome do comedor de criancinhas que arruinou minha vida. Quando o conheci ele era apenas o vendedor de uma loja de roupas onde, por engano, fui parar. Logo depois ele viria a se tornar o namorado de meu melhor amigo.

Essa foi a pior maneira do destino fazer nossos caminhos se cruzarem novamente. Começamos a sair, sempre juntos, os quatro. Alberto e meu amigo, eu e meu namorado. Íamos a festas e jantávamos juntos. Assistíamos espetáculos de teatro, tomávamos vinho e discutíamos arte depois à noite.

Fumávamos juntos também. Conversávamos sobre sexo, partilhávamos intimidades e, algumas vezes, a cama. Não pense que fazíamos sacanagem juntos. Não! Dormíamos juntos, eventualmente flagrava Alberto e meu amigo em movimentos denunciantes. E não duvido que eu e meu namorado já não tenhamos sido flagrados.

Éramos jovens e desapegados de demais pudores.

Triste foi o dia que meu olhar cruzou o olhar de Alberto e seu sorriso me pareceu iluminar todo o canto escuro da sala. Já não sentia mais por meu namorado o que sentia em início do namoro. Nenhuma paixão dura para sempre. Mas nunca também sentira por outro homem, que não ele, algo tão forte quanto sentira agora por Alberto. Decerto é apenas a força da convivência, pensei.

Dias se passaram e meu fascínio por Alberto e desfascínio por meu namorado só cresciam. Eu não compreendia muito bem, mas sentia. E não tinha sequer vontade de transar com ele. Mas as cenas de sexo que eu presenciava, agora mais frequentemente, já que moramos, os quatro, na mesma casa, só com essas cenas eu conseguia gozar.

Até que o dia de hoje chegou. Antes desse texto, escrevi uma carta. Deixei dentro do cinzeiro. Alguém lerá. Depois de escrevê-la, peguei minhas malas, minha coleção de discos de vinil e parti. Ainda não sei para onde vou. Talvez para longe da mais profunda dependência, longe do mais triste desquerer e perto de minha sanidade.

Agora, com o vento quase fechando minhas pestanas, já me sinto mais livre. Estou na estrada.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Eu sou camaleão, cara caramba cara caraô

Mandei que ela parasse com essas coisas de me comparar com qualquer pessoa que já tivesse a beijado. Mesmo que eu fosse igual a muita gente por aí, detestava ter que ouvi-la falar sobre como eu me portava diferente de seu ex-namorado, ou como meu pau era menor que o pau do primo dela. Essas comparações imbecis...

Insisti também, diversas vezes, que ela não falasse sobre nossas intimidades no meio dos amigos. Pelo menos, não quando eu estivesse presente. Ficava constrangido toda vez que ela reclamava para as amigas, e amigos também, sobre eu não conseguir gozar muitas vezes e como isso a frustrava. Segundo ela, seu ex era muito melhor na cama que eu.

Mas os pedidos não adiantaram de nada. Ela prosseguia com a mania insuportável de rir com aqueles dentes que lembravam uma hiena, na frente das pessoas. Uma risada horrorosa, cheia de humor de mau gosto.

Então, num belo dia de primavera - sim, já era primavera - eu acordei na casa dela e joguei todas as calcinhas que estavam penduradas no banheiro em sua cara. Claro, ela acordou assustada. Algumas nem eram dela. E depois falei o quanto achava insuportável ouvir ela rir, ver as calcinhas no banheiro e ter que chupar sua boceta toda depilada.

E com ares de superioridade, cruzei a porta e saí cantando alguma música de Chiclete com Banana, acho que Cara Caramba Cara Caraô.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Conversa de cabelos enrolados

Tinha acabado de fumar um baseado com uma amiga e fechei os olhos. Ela, chapada, como todas as vezes em que nos encontrávamos, me perguntou se eu fumava pra dormir. Eu, prontamente, disse que sim e até mais que isso. Eu fumo pra sonhar.

terça-feira, 16 de julho de 2013

livre, livre, livre para amar

os dias de leveza ficaram para trás, assim como as lágrimas. as lágrimas que, de vez em quando, eram sinais de alegria. ele era jovem. ele nem sabia o quanto queria ser feliz. ele não sabia ser feliz, para ser sincero. ele cantou. ele dançou. pulou muitas vezes. ele chorou mais vezes ainda. e abraçou e amou muito. ele costumava sonhar com um futuro distante e belo. ele não tinha medo. ele apenas ia em frente. ele não se importava com o que as pessoas diziam e não enfrentava o mundo com tanta amargura e raiva. ele era muito amor. e o mundo era muito mais colorido do que parece ser hoje. ele ainda se confunde com o autor. mas ele sabe que muita coisa mudou e que não é mais o mesmo. e agora ele sorri sem graça para um mundo sem fim.

domingo, 2 de junho de 2013

Bilhete de bom dia

"Eu encontrei as cartas e os presentes de seu amante. Não precisa mais mentir pra mim. Amanhã passo em sua casa para pegar minhas coisas. Não quero mais saber de você. Depois me diga se o filme que ele te mandou, e que você fez questão de assistir comigo, é bom. Vou adorar saber também se você está usando a pulseira banhada a ouro. Da próxima vez que me encontrar, refeito, pode crer, me diga se ele também gosta do mesmo lado da cama que eu gosto.

Sem beijos, dessa vez. Tenha um péssimo dia. E que todos os outros sejam piores, geometricamente piores."

E assim, parece que o dia começou.

domingo, 12 de maio de 2013

Você precisa saber de mim


- Você conversou com ela?
- Sim!
- O que ela falou?
- Sei lá! Um monte de coisa sem sentido.
Soluço.
- Ela me odeia...
- Imagina, Toni! Odeia nada! Vocês estavam juntos até ontem, jurando amores...
- A gente já num tá junto há um tempão. Nosso namoro já estava acabado há quase um ano. Nós não contávamos mais um com o outro pra nada.  A gente tinha segredos entre nós.
- Mas segredos são normais entre casais, Toni! Oxente!!
- Eu sei...
Soluços. Soluços.
- Mas os nossos segredos não eram tão simples assim. Ela me escondia saídas com amigas, fotos em happy hour com colegas de trabalho.
Lágrima escorrendo pelo rosto. Silêncio.
- Ela me escondeu um presente que ganhou de um amigo. Por quê? Por quê?
- Mas você, por exemplo, conversa comigo coisas que não contava a ela. Assim espero, pelo menos.
- Claro!! Mas não é o fato de contar ou não o conteúdo das conversas particulares. É não me contar as pequenas coisas! Ela se divertia tanto, por que não me dizer isso?
- Às vezes ela não contou porque sabe de seu ciúme doentio.
- E eu sei do ciúme dela.
- Você sabe como você agiria se soubesse que ela sempre saía depois do trabalho, né?
- Eu nunca a proibi de nada. Nunca briguei por ela sair com as amigas no fim de semana. Ou quando ela me contava das cantadas que recebia na rua ou de alguns colegas de trabalho. Nunca!!
- Entendo... Mas ela te explicou os motivos de terminar?
- Falou... Disse que eu não confiava nela, que eu a perseguia, que escondia segredos dela... Mas eu nunca, nunca escondi nada dela.
- Hum. Talvez ela tenha desconfiado de você, se você paquera alguém.
- Você tá cansada de saber, Ângela, que eu não tenho paquera alguma fora de meu namoro.
Cigarro. Isqueiro. Trago. Baforada.
- Ela começou a despejar o ódio melancólico dela sobre mim, chorando desesperadamente. E eu comecei a chiara também. Parecia um velório.
- Deus é mais, Toni!
- E eu parado, escutando ela me destruir, me falando as piores barbaridades do mundo como a mais pura verdade. E eu não pude dizer nada. Não consegui nem me defender, mesmo porque não tinha do quê.
Trago. Baforada. Soluço. Tosse.
- Eu to aqui contigo, amigo. Pra sempre.
Sorriso
- Te amo!
- Também te amo, seu bobo. Fica calmo que as coisas vão se resolver.
- Não quero mais resolver as coisas. Só quero que essa dor passe e que eu fique livre da lembrança dela.

domingo, 28 de abril de 2013

Adeus também foi feito pra se dizer

Enquanto eu estava sentado no sofá  fumando um cigarro, tomando uma dose de conhaque, ele arrumava as malas. Era uma despedida, eu sabia. E não havia o que questionar. Aliás, não questionava nada em nenhum momento. O fato de eu estar fumando já provava o quanto eu me incomodava com aquela situação. Mas um incômodo que não mexia tanto com meus sentimentos por ele. Pelo contrário, um incômodo que pedia que aquilo terminasse logo e eu pudesse deitar em minha cama sozinho e passar a noite inteira pensando em nossos momentos felizes.

Por um segundo pensei em impedir que ele fechasse o zíper da mala. Pensei em jogar a roupa dele toda na cama e falar que eu estava enganado, que não queria que ele se fosse. Mas não era isso que deveria ser feito. Por mais que tenhamos sonhado muitos sonhos juntos, acho que agora já é a hora de dizer adeus.

E assim foi feito. Ele cerrou a mala, abriu a porta e eu fechei meus olhos. A lágrima escorreu de meu rosto até meus lábios. O sabor era salgado. Porém haverá de se tornar doce e, no fim, sabor algum terá.